Museu

Inhotim inaugura dois grandes pavilhões e uma série de obras

As atenções do mundo da arte se voltam para o centro de arte contemporânea em Brumadinho

por Raíssa Pena | 30/08/2012 22:10

Daniela Paoliello
Tteia, Nº 1, C: a impactante obra de Lygia Pape agora integra o acervo permanente

Pouca gente sabe que ali viveu mesmo um homem chamado Nhô Tim. Relatos de antigos moradores do município de Brumadinho, a 60 quilômetros da capital, dão conta de que, no século XIX, um geólogo inglês conhecido apenas como Timothy se instalou nos arredores da cidade. O tratamento típico da época partiu de "senhor Timothy", derivou para "senhor Tim", e acabou em "Nhô Tim". A grande fazenda, que já havia recebido agricultura, pecuária e mineração, passou a ser conhecida como Vila Inhotim, ou simplesmente Inhotim. No fim dos anos 1980, um milionário do setor de mineração, Bernardo de Mello Paz, adquiriu a propriedade e decidiu manter o nome. Começava a nascer ali o maior centro de arte contemporânea a céu aberto do mundo. Ocupando uma área de cerca de 110 hectares, Inhotim abriga hoje obras de renomados artistas instaladas em um imponente jardim botânico. No ano passado, quase 250 000 visitantes estiveram por lá para conferir celebradas instalações, como as campeãs de audiência Sonic Pavillion, do americano Doug Aitken, e Desvio para o Vermelho, do carioca Cildo Meireles. Também costuma chamar atenção a galeria de Adriana Varejão. A pintora carioca, que foi casada com Bernardo Paz, é atualmente a artista brasileira mais valorizada no mundo. Seu ex-marido dedicou a ela um pavilhão de concreto que parece flutuar sobre um espelho-d’água. Lá estão obras como a impressionante Celacanto Provoca Maremoto, um grande painel inspirado em azulejos portugueses que recria o violento movimento das on­­das. Para o historiador de arte Ivo Mesquita, diretor técnico da Pinacoteca do Estado de São Paulo, o instituto mudou o cenário das artes visuais no Brasil. "Além de deslocar o mercado e as atenções para fora do eixo Rio-São Paulo, Inhotim surpreendeu por oferecer uma experiência impactante com a arte contemporânea", dimensiona Mesquita. "É parada obrigatória para brasileiros e estrangeiros."

Setembro é mês de novidade por lá. As inaugurações oficiais costumam ocorrer neste mês para coincidir com a abertura da Bienal de Arte de São Paulo, que movimenta o mercado no Brasil. As atenções de galeristas, curadores, artistas e apaixonados por arte em todo o mundo se voltam para Inhotim nesta semana. Na quinta (6), serão apresentadas ao público duas grandes galerias permanentes, duas obras externas e a nova exposição coletiva da Galeria Mata. Artistas brasileiros consagrados como a carioca Lygia Pape (1927-2004) e o pernambucano Tunga agora têm seus próprios pavilhões. Um edifício foi construído especialmente para a instalação Tteia, Nº 1, C, de Lygia. O vão de entrada, totalmente escuro, prepara o espectador para o impacto com a obra. Ao chegar ao salão principal, o que ele vê é um delicado jogo de luzes e fios dourados dispostos geometricamente. As extremidades superiores das cordas estão de tal forma dissimuladas pela escuridão que geram a impressão de que os fios são a materialização dos feixes luminosos. Nos jardins, foram montadas outras duas instalações inéditas. A artista espanhola Cristina Iglesias construiu um labirinto chamado Vegetation Room: o interior da obra lembra texturas vegetais, e o exterior é espelhado para camuflá-la na mata. Em um antigo estábulo da extinta fazenda Inhotim, o cubano Carlos Garaicoa montou a instalação Now Let’s Play to Disappear II ("Agora vamos brincar de desaparecer", em tradução livre). Em meio a projeções e circuitos de vídeo, foi montada a miniatura de uma frágil e perecível cidade, feita com cera e velas acesas que, naturalmente, vão derretendo.


Caroline Soares
Celacanto Provoca Maremoto: Adriana Varejão é hoje a artista brasileira mais valorizada no mundo


A maior e mais aguardada inauguração, no entanto, é a da galeria dedicada a Tunga. Construído especialmente para abrigar oito das obras mais relevantes do artista, o prédio impõe seus 2 600 metros quadrados de vidro em uma floresta tropical planejada. Os três pisos do pavilhão impressionam pela grandeza, pela vista para a mata e pela coerência com que as peças foram dispostas. Encontram-se ali obras como Palíndromo Incesto, o filme Ão e À la Lumière de Deux Mondes. Essa última, já apresentada no Museu do Louvre, em Paris, traz um curioso emaranhado de crânios negros e dourados. Tunga é um artista emblemático para o instituto. Da amizade com o pernambucano veio o fascínio de Paz pela arte contemporânea. "Eu passei a considerar a arte moderna como uma arte das pessoas que nasceram com habilidade, e a arte contemporânea como a arte das pessoas geniais", afirma o idealizador de Inhotim. Ele conta que a galeria True Rouge, uma das primeiras do instituto, não foi inicialmente pensada para o trabalho homônimo de Tunga. No princípio, ele havia convidado outra artista para ocupar aquele espaço. Ela sugeriu, no entanto, que a passarela fosse mais curva, nos moldes da obra de Oscar Niemeyer. "Eu gosto das esculturas que o Niemeyer faz, mas a arquitetura dele não me alimenta", afirma Paz. Mesmo assim, mandou executar a alteração que a artista pediu, mas, logo em seguida, se desentendeu com a galerista que a representava. A relação entre ele e a artista desandou. Paz então chamou o amigo Tunga para instalar ali sua já famosa True Rouge, que havia sido apresentada em Nova York. Ele foi o primeiro artista brasileiro a acreditar no potencial museológico daquele até então grande jardim. Logo vieram os estrangeiros, que se interessaram em criar obras especificamente para Inhotim e cobrar preços razoáveis. "A forma de projeto é mais interessante porque eu banco a montagem com a supervisão do artista. Se eu importar como obra de arte diretamente de uma galeria, por exemplo, o imposto é absurdo", explica Paz.

O processo de aquisição de obras se equilibra entre os critérios estabelecidos pela curadoria e as preferências de Paz. Curador-chefe de Inhotim, Jochen Volz revela que o instituto escolhe as obras de duas maneiras. Algumas vezes, um dos curadores ou o próprio Paz se interessa por um trabalho pronto e faz uma proposta. "A outra forma, que é a mais interessante, é quando o artista visita o parque e propõe um projeto especialmente para nós e já pensando em um local específico do jardim", diz Volz. Para ele, os desafios da curadoria são manter certa coerência entre as obras, renovar as galerias temporárias com a frequência média de dois anos e trazer sempre artistas que acrescentem algo à coleção. Volz defende a ideia de que não é preciso entender de história da arte para se encantar com o fabuloso acervo de Inhotim. "A maioria das pessoas que vêm aqui não está acostumada com o ambiente de museu, nem precisa estar. Alguns trabalhos, como o trator que carrega uma árvore (O Trator e a Árvore Branca, de Matthew Barney), falam de forma clara da relação entre a natureza e o progresso. Se isso o público consegue apreender e apreciar, então é uma obra relevante para nós", afirma Volz. O curador alemão acaba de deixar o posto de diretor artístico de Inhotim com a chegada da coreana Eungie Joo. Ela trará para o Brasil sua experiência no New Museum de Nova York, enquanto Volz representará a curadoria de Inhotim no comando da Serpentine Gallery, de Londres.


Daniela Paoliello
Desvio para o Vermelho: a instalação de Cildo Meireles costuma prender a atenção de adultos e crianças


"Tudo foi intuitivo", garante Paz. Do pai, arquiteto, e da mãe, assistente social, ele diz ter herdado o interesse pela arte e a preocupação social. "Meu pai dizia que eu não ia dar certo na vida porque não gostava de estudar. Essa foi minha luta: tentar fazer algo que desse certo." Tal batalha rendeu a ele, nos anos 80, um belo lugar ao sol como empresário do setor de mineração. Em 1995, durante uma escala em Paris para mais uma viagem de negócios à China, o stress o levou a um derrame e à conclusão de que essa não era a rotina que ele gostaria de manter. Em 2010, Paz vendeu sua empresa, o gigante Itaminas, a um grupo chinês por cerca de 1,2 bilhão de dólares. Até então, ele já havia negociado boa parte de sua coleção de arte moderna e adquiria com voracidade obras e instalações contemporâneas a preços abaixo dos de mercado, pois em grande escala elas são de difícil comercialização. O aspecto educativo rapidamente ganhou importância para Paz, que contratou uma equipe para pensar em ações formadoras para a comunidade local. As atividades tiveram início com os gru­­­­pos quilombolas da região e se es­­tenderam para as escolas de Bru­­madinho e Belo Horizonte.

Mantido por seu criador e por leis de incentivo, o complexo ainda pode evoluir muito. Em constante crescimento, o acervo atual de Inhotim conta com cerca de 700 obras, das quais apenas oitenta estão em exposição. Com tímidos 7 000 visitantes no primeiro ano de abertura ao público (2006), o instituto espera 400 000 até o fim deste ano. Pouco mais de 5% da propriedade, com 2 000 hectares, é hoje utilizada pelo parque. Além disso, o instituto acaba de conseguir uma licença da Anac e da Infraero para construir um aeroporto dentro dela. Já em fase de obras, uma pousada com 42 quartos deve ficar pronta no ano que vem. Para 2014, também está prevista a inauguração do Inhotim Escola, que vai integrar o Circuito Cultural da Praça da Liberdade. O novo espaço vai funcionar nos edifícios do Palacete Dantas e do Solar Narbona e trazer para Belo Horizonte as ações educativas, artísticas e formadoras que já ocorrem na sede de Brumadinho. Outra novidade parece ter desembarcado por lá na última semana. Ao receber a reportagem de VEJA BH, Bernardo Paz estava acompanhado de Hans Donner, designer e diretor de identidade visual da Rede Globo. Tão ou mais famoso que sua mulher, a eterna globeleza Valéria Valenssa, Donner visitava Inhotim pela primeira vez. Além de conhecê-lo, ele foi apresentar um projeto de instalação. Mais do que arte, Bernardo Paz quer que Inhotim seja um exemplo de vida contemporânea sustentável e em comunidade. "Eu poderia gastar só comigo os milhões que recebo mensalmente, mas prefiro devolver para a sociedade", diz ele. "E isso resume o único sentido da minha vida agora: ver Inhotim virar uma grande cidade, onde as pessoas entendam que é possível até morar."

Caroline Soares

Jardim de espinhos
Nem tudo são flores e arte contemporânea em Inhotim. O nome de seu idealizador esteve envolvido em várias polêmicas e denúncias recentes. Em maio deste ano, o badalado chef paulistano Alex Atala chegou a chamá-lo de "canalha" em entrevista ao programa da jornalista Marília Gabriela. Atala havia sido convidado para comandar um restaurante no instituto. De acordo com ele, depois de ter recebido uma proposta milionária de Bernardo Paz e de ter se engajado no projeto, o negócio foi desfeito por e-mail. Paz não quis comentar o caso.

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A parceria desandou


Outra polêmica questiona a extração de espécies vegetais para compor o jardim botânico de Inhotim. "Essa é fácil de explicar", diz Paz, que havia trazido de Brasília o botânico Eduardo Gonçalves para trabalhar com ele. Segundo o mecenas, Gonçalves passou a exigir privilégios no cargo, o que culminou com sua demissão. Paz, que pagava o aluguel do botânico no condomínio Retiro das Pedras, resolveu recontratá-lo na modalidade de consultor externo. "Em uma viagem a Londres, ele enviou à imprensa uma denúncia de que eu estava roubando árvores na natureza", lembra. O e-mail escrito por Gonçalves chegou ao Ibama com a acusação de que o instituto havia retirado ilegalmente palmeiras de uma fazenda no município goiano de Cavalcante. Paz então mandou trazer centenas de crianças das escolas de Cavalcante para conhecer Inhotim, além de oferecer treinamento e um projeto de jardim botânico para a cidade.

A questão de maior repercussão nacional, porém, foi protagonizada pelo paisagista Luiz Carlos Orsini. Em outubro do ano passado, o instituto foi condenado a creditar a ele a autoria de 250 000 metros quadrados de jardim. Para Paz, é impossível limitar a autoria do projeto paisagístico a apenas uma pessoa.

Ele mora na propriedade em que construiu o parque desde o fim da década de 80. "Depois que pedi dicas de paisagismo a Burle Marx, eu tirei os sapatos, pus um calção e comecei a desenrolar pacotes de grama. Quando contratei o Orsini como empreiteiro, eu apontei para ele onde plantar. E ainda tem o Pedro Nehring, que trabalha como meu paisagista há quase trinta anos. Quem é o autor dos jardins? Não vou me aborrecer com essa bobagem."



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