Educação

Os 7 segredos da excelência da Fundação Dom Cabral

Considerada pelo jornal inglês Financial Times a oitava melhor escola de formação de executivos do mundo, instituição prepara-se para se expandir pelo Brasil

por Paola Carvalho | 17/10/2012 11:02

Odin
Câmpus de Alphaville, em Nova Lima: executivos de todo o país frequentam os cursos

Herdeiro de um dos mais tradicionais grupos empresariais do estado no setor de transportes e dono de uma rede de concessionárias de veículos pesados, o belo-horizontino Joel Jorge Paschoalin resolveu voltar à sala de aula. Buscava inspiração para promover uma guinada nos negócios da família. Poderia ter procurado renomadas escolas internacionais para formação de executivos, como a americana Stanford Graduate School of Business ou a inglesa London Business School, mas descobriu que por aqui mesmo, segundo o ranking do jornal londrino Financial Times, havia uma melhor do que as duas: a Fundação Dom Cabral (FDC). A escola instalada em Nova Lima, à beira da Lagoa dos Ingleses, ocupa hoje a oitava posição entre as melhores instituições de educação de executivos do mundo, segundo a lista elaborada pelo respeitadíssimo diário. “O formato que eles oferecem é o ideal para as nossas concessionárias porque une curso e consultoria”, avalia Paschoalin. Para atender à procura cada vez maior de alunos como ele, a FDC dará início a um plano de expansão pelo país. Só em 2013, pretende abrir duas novas unidades: uma no Rio de Janeiro e a outra em Brasília. Já há uma em São Paulo. “Em cinco anos, queremos estar em todo o território nacional, mas conservando sempre o nosso jeito mineiro de ser”, conta o presidente Wagner Furtado Veloso.

Odin
Reunião do Conselho Consultivo Internacional, no dia 1º: 81 executivos de empresas do mundo inteiro definem os rumos da instituição


Sem muito alarde, a fundação tornou-se um gigante no mundo do ensino. Para este ano, a expectativa é ter 1 500 empresas como clientes e treinar 35 000 executivos. A receita prevista é de 192 milhões de reais, cifra 20% maior do que a registrada em 2011. É um salto extraordinário para quem surgiu, nos anos 70, como um centro de extensão da universidade PUC Minas. Então diretor do centro, o professor Emerson de Almeida organizava cursos de curta duração para técnicos de empresas. “Abríamos trinta vagas e, de repente, apareciam 100 candidatos”, lembra. Era uma época em que o Brasil crescia a taxas chinesas de hoje e Minas Gerais passava por um boom industrial, com a chegada da montadora Fiat. Almeida acreditou que valia a pena investir na formação de executivos e abriu a fundação, que como tal não tem dono nem fins lucrativos. “Tínhamos o sonho de criar uma instituição relevante”, conta. Conseguiram. Veja nas páginas a seguir as sete lições que garantiram à Dom Cabral um lugar entre as melhores escolas de negócios do mundo.


Odin
O fundador: o professor Emerson de Almeida: visão empreendedora nos anos 70. O presidente: Wagner Veloso, administrador de empresas: ele quer abrir novas unidades


1. Internacionalização
“Falta aos executivos brasileiros uma visão internacionalizada, embasada em forte conteúdo, e isso encontramos na FDC”, afirma o presidente da Fiat América Latina, Cledorvino Belini, ex-estudante e hoje integrante do Conselho Consultivo Internacional da fundação. O grupo, que se reúne uma vez por ano, é formado por 81 lideranças de todo o mundo, como os presidentes da Bolsa de Valores de Nova York, Duncan Niederauer, e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, além da ex-senadora Marina Silva. A Dom Cabral mantém alianças com renomadas universidades estrangeiras, como Insead (França), Kellogg (Estados Unidos) e San Andrés (Argentina), e uma extensa rede de cooperação com escolas.


2. Bom clima interno
“Temos um ambiente organizacional que nos ajuda a reter talentos”, avalia o presidente da FDC, Wagner Veloso. A fundação valoriza e estimula o rodízio nas funções. Diretores podem voltar a ser professores, e gerentes de projetos podem atuar novamente como pesquisadores. Há também um grande investimento na formação dos próprios funcionários, com patrocínio de cursos dentro e fora do país, o que ajuda a explicar a baixa rotatividade entre seus profissionais. Mesmo quando recebem propostas salariais mais altas, muitos optam por continuar na Dom Cabral. Entre professores de dedicação integral, parcial e visitantes, são 633 docentes: 22 têm pós-doutorado, 100 são doutores, 242, mestres e 269, especialistas.


3. Busca por qualidade
“Poucos centros de ensino conseguem fazer o intercâmbio entre academia, empresas, executivos e governo”, diz a secretária de estado de Desenvolvimento Econômico, Dorothea Werneck. “A Dom Cabral faz.” Tratada como obsessão desde que a FDC foi criada, a qualidade do ensino garantiu à instituição uma colocação melhor do que a da prestigiada escola de negócios da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, no ranking do Financial Times sobre cursos customizados, aqueles desenvolvidos especificamente para uma empresa. O modelo de franquia que vem sendo utilizado por concorrentes não deve ser adotado pela fundação, segundo o presidente Veloso. “Trabalhamos com as organizações, e não somente para elas, na busca de soluções educacionais que se traduzem em resultados, inovação, crescimento e liderança”, afirma. A ideia é não perder o controle.


4. Ensino sob medida
“No Brasil, há empresas extremamente bem gerenciadas, mas a maioria não é”, afirma Guy Pfeffermann, fundador e CEO do Conselho da GSBN (Rede Global de Escolas de Negócios, na sigla em inglês). Corrigir essa fragilidade é o foco do trabalho da FDC, que apresenta quatro tipos de solução educacional: os programas abertos, voltados à educação executiva; os customizados, construídos junto com o cliente, de acordo com necessidades específicas; a pós-graduação, centrada no desenvolvimento do profissional; e os programas de parcerias empresariais, um modelo em que a Dom Cabral forma redes de companhias com características comuns e do qual participam mais de 600 empresas.


5. Ousadia
“A história da FDC é a história de tentar o impossível”, resume o fundador e presidente estatutário, Emerson de Almeida. Sua primeira ousadia foi sair do guarda-chuva da PUC Minas para criar uma instituição com um pequeno grupo de professores na faixa dos 30 anos, sem recursos financeiros. A equipe resolveu apostar em um modelo de ensino que ainda não havia sido testado por aqui: o de conhecer o cliente e seu entorno antes de definir que curso seria adequado para ele. No início dos anos 90, a fundação resolveu buscar uma parceria internacional. “O diretor da americana Kellogg foi simpático, mas não aceitou fazer uma aliança conosco”, lembra Almeida, que não desistiu até encontrar alguém que pudesse interceder a favor da Dom Cabral. Depois de muita persistência, a parceria acabou sendo fechada. “Meses mais tarde, quando o diretor da Kellogg apareceu na capa da revista Business Week, comemorando o primeiro lugar no ranking dos melhores MBAs, ficamos orgulhosos de ter a principal escola dos Estados Unidos do nosso lado”, relata. Ao longo dos anos, as alianças formaram uma rede global de cooperação internacional. A mudança de um prédio de cinco andares no Santo Agostinho para um câmpus de 35 000 metros quadrados em Nova Lima, em 2001, foi outro passo arrojado. Na época, a região à beira da BR-040 era considerada erma e de difícil acesso. Hoje, o entorno é ocupado por condomínios de luxo. Um dos novos desafios da FDC é se tornar um “provedor de conhecimento internacional”. Pesquisadores são enviados a diversos lugares do mundo com o objetivo de reunir informações sobre oportunidades de negócios aqui e lá fora.


6. Responsabilidade social
“Estamos provocando mudanças na sociedade, não apenas na academia”, destacou Pedro Passos, sócio-fundador da Natura, durante a conferência “Como construir uma via única que integre metas sociais às estratégias centrais dos negócios”, promovida pela Dom Cabral no início do mês. Além de fomentar o debate dentro das maiores empresas do país, a própria fundação tira o conceito do papel e o põe em prática ao investir 50% de seu lucro líquido em ações sociais. Neste ano, o porcentual representará 8,5 milhões de reais. Entre as ações financiadas pela FDC estão o Projeto Dignidade, que fomenta pequenos negócios e a geração de renda em comunidades carentes, e o Jardim de Oportunidades, voltado para os moradores pobres de Nova Lima. A Dom Cabral também apoia o programa 10 000 Mulheres, do banco Goldman Sachs, para capacitação de empreendedoras.


7. Reputação
“A FDC é uma das nossas principais concorrentes em relação à educação executiva. São 35 anos, e respeitamos isso”, diz Luca Borroni, da diretoria acadêmica da paulista Insper, que aparece em 27º no ranking das melhores escolas de negócios do Financial Times. Graças à credibilidade que conquistou, a Dom Cabral conseguiu tornar-se parceira das maiores instituições de ensino do mundo e atrair para o seu conselho consultivo os principais executivos de grandes companhias multinacionais. É na boa imagem da escola que a diretoria se apoia para acreditar que o plano de expansão pelo país será um sucesso tão grande quanto a inauguração do câmpus de Alphaville, em 2001. “Nossa reputação e nossa imagem me fazem crer que o céu é o limite para a FDC”, diz, orgulhoso, o fundador Emerson de Almeida. Motivos não lhe faltam para pensar assim.


Odin
Modernização
Quando a antiga Mobiliadora Líder completou 65 anos, em 2010, os integrantes da família Nogueira se inscreveram no Paex, um programa da Dom Cabral para a melhoria da gestão e dos resultados de empresas de médio porte. “Sentíamos necessidade de trocar processos para avançar”, explica Tiago Nogueira, neto do fundador, que é gerente de marketing do grupo. A partir das discussões entre a família e os consultores da fundação, foram definidas novas unidades de produção e medidas para a redução de custos. Em 2005, um professor da FDC já havia ajudado a companhia no processo de mudança da marca — virou Líder Interiores —, para deixar clara a modernização.


Odin
Novos Rumos

Em 2002, a família Azevedo, dona do grupo Seculus, matriculou-se no programa Parceria para o Desenvolvimento de Acionistas (PDA), um curso de dois anos cujo foco é a profissionalização de empresas. Depois disso, tudo mudou por lá. A consultoria ajudou o grupo a tomar decisões difíceis, como fechar o negócio original, uma indústria de joias, para se concentrar nas atividades mais rentáveis. “Foi o primeiro passo da virada, da modernização”, conta Artur de Azevedo, presidente do conselho de acionistas (à esquerda da foto, com o filho Alexandre e a sobrinha Lilian). A cada dois meses, um professor da Dom Cabral ainda vai à empresa para falar de gestão, sugerir ajustes no rumo da Seculus ou simplesmente compartilhar com a família os êxitos obtidos por outros grupos.



Comentários
[an error occurred while processing this directive]
BUSCAR