Religião

Dom Walmor Oliveira de Azevedo inicia cruzada por novo templo em Belo Horizonte

Com rotina pesada e agenda sempre cheia, arcebispo metropolitano da capital quer mobilizar católicos para a construção da Catedral Cristo Rei, que deve custar 100 milhões de reais

por Paola Carvalho | 25/07/2012 11:35

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Dom Walmor: “Não podemos só refletir sobre a perda de fiéis, temos de agir”

Quando uma senhora deixou duas latas de tinta na portaria do Palácio Cristo Rei, a sede da Arquidiocese de Belo Horizonte e residência do arcebispo metropolitano dom Walmor Oliveira de Azevedo, no Funcionários, provocou uma comoção em todos os que vivem ali. Apesar de ninguém mais lembrar o nome da doadora, o aviso que estava junto com as latas não foi esquecido: “É para a construção da Catedral Cristo Rei”. Esse é o tipo de mensagem que o líder da Igreja Católica na Grande BH adora receber. Com doações singelas como essa e outras mais vultosas dos empresários da cidade, ele acredita que poderá iniciar ainda neste ano as obras do monumental templo para acolher 20 000 fiéis, orçado em 100 milhões de reais. Idealizado há quase oito décadas, em 1936, por dom Antônio Cabral, o primeiro arcebispo da região, o plano ficou na gaveta até novembro de 2005, quando dom Walmor foi ao Rio de Janeiro procurar o arquiteto Oscar Niemeyer. Seis meses depois, os primeiros traços já estavam no papel: duas colunas de 100 metros de altura que partem da base rumo ao céu formando uma estrutura que lembra mãos postas em oração (veja a perspectiva artística na pág. 22). Só no ano passado, porém, a maquete foi apresentada ao papa Bento XVI, que ficou impressionado com sua grandiosidade. “É muito bom que ainda hoje existam pessoas com coragem para construir igrejas capazes de acolher tanta gente”, comentou o pontífice na ocasião. A obra será realizada em um terreno na Avenida Cristiano Machado, em frente à Estação Vilarinho do metrô, em Venda Nova, onde hoje já está fincada uma gigantesca cruz. “Não será só um espaço para cerimônias, mas um lugar de serviço social, em que estarão reunidas todas as nossas pastorais”, avisa o arcebispo. A ideia é que a catedral se transforme no epicentro da fé católica em uma região onde a quantidade de fiéis vem caindo. De acordo com os números divulgados no fim de junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos 28 municípios que compreendem a arquidiocese governada por dom Walmor o total de católicos apostólicos romanos baixou de 2,9 milhões, em 2000, para 2,7 milhões, em 2010. No mesmo período, o de evangélicos saltou de 839 000 para 1,3 milhão. Para o arcebispo, o tempo de refletir sobre a perda de fiéis já passou. A hora é de agir. “Temos a oportunidade de mudar isso”, afirma.

A construção da Catedral Cristo Rei não deixa de ser uma das respostas ao avanço dos evangélicos e, simbolicamente, diz muito sobre o embate entre as duas religiões. O lugar terá capacidade quatro vezes maior que a do imenso templo erguido pela Igreja Universal do Reino de Deus na Avenida Olegário Maciel, no Santo Agostinho. Com espaço para reunir 5 000 pessoas, o prédio inaugurado em 2004 custou 30 milhões de reais. Levantar os 100 milhões de reais necessários para concretizar o sonho católico, porém, não será fácil. O arcebispo sabe bem o tamanho do desafio que se impôs e trabalha incansavelmente pelo projeto, tentando atrair aliados por toda parte. São frequentes as reuniões com a iniciativa privada. Presidente da Tom Comunicação, uma das maiores agências de comunicação da cidade, Adriana Machado foi uma das que atenderam ao chamado do arcebispo. Como voluntária, a publicitária está à frente de um plano que envolve parcerias com grandes empresas para lançamento de produtos relacionados à imagem da catedral e uma plataforma virtual que permitirá fazer doações pela internet. “A catedral será um marco para a cidade e para o próprio estado”, diz ela. Presidente do conselho de administração da distribuidora de combustíveis Ale, Sérgio Cavalieri foi outro que aderiu. “Levantar tantos recursos não é simples, vem exigindo grande empenho pessoal de dom Walmor, que tem o zelo de não constranger ninguém, de não criar obrigação”, conta o empresário. A doação não precisa ser em dinheiro, e são aceitos produtos e serviços. De acordo com a arquidiocese, a lista dos que já se comprometeram é grande. A instituição, no entanto, não divulga um balanço do que conseguiu até agora.

O quarto e mais jovem arcebispo metropolitano de BH, dom Walmor incluiu a cruzada pela Catedral Cristo Rei em uma rotina que já era bastante pesada. Como representante do Vaticano na região, ele é responsável por 270 paróquias, dez santuários e instituições de ensino que reúnem 77 000 estudantes. O baiano de 58 anos, que está no comando dos católicos belo-horizontinos desde 2004, não reclama da carga de trabalho, apesar do problema de saúde que enfrenta. Ele sofre de distonia muscular, uma doença que afeta a sustentação de seu pescoço e leva alguns a suspeitar que sofra de Parkinson. Quando questionado sobre o assunto, dá de ombros. “Tenho uma ótima saúde, só preciso controlar o peso”, diz, em tom brincalhão, o arcebispo, que sempre tira o miolo do pãozinho no café da manhã.

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Grandiosidade: a perspectiva artística da Catedral Cristo Rei e o terreno de 22 000 metros quadrados na Avenida Cristiano Machado, na região de Venda Nova, onde ela será construída

No dia em que VEJA BH acompanhou sua rotina, a agenda estava lotada: gravação de programas para a televisão e para o rádio, uma reunião com novos padres e diáconos, um encontro com representantes das catorze pastorais, três sessões de atendimento a leigos e uma celebração eucarística na Paróquia de São Mateus, no Anchieta. Entre um compromisso e outro, ainda precisava encontrar tempo para os despachos do dia e disposição para malhar na esteira do palácio. Ele faz reabilitação postural global (RPG) e natação em uma academia, mas frequentemente precisa matar aula, como naquele dia. Quando isso acontece, o jeito é exercitar-se em casa. Para cumprir o roteiro, só pulando cedo da cama, por volta das 6 horas, e contando com a ajuda de seus “anjos da guarda”. A secretária-geral Ozana Cabral, a governanta Irmã Lucineide e o motorista Pierre Ferreira, que estão sempre por perto, encaram o trabalho como uma missão. “Ele tem um ritmo frenético. Às vezes recebo e-mail dele à 1 hora da madrugada”, revela Ozana, com um olho no papel e o outro nos passos do chefe. Enquanto a secretária repassa a lista do dia, o motorista pega o lanche, a pasta e segue para o Toyota Corolla preto. “Sei o que ele quer só pelo comportamento”, afirma. Ferreira é, na verdade, mais do que um motorista. É ele quem ajuda o arcebispo a se vestir para as missas e até escreve textos para os programas da TV e do rádio. Com o iPhone sempre na mão, dom Walmor agradece a Deus pela tecnologia. “Sem ela, eu faria a metade do que tenho de fazer em um dia”, diz.

Geralmente bem-humorado, ele costuma surpreender os funcionários da arquidiocese com brincadeiras e trotes. Pelos mais íntimos, que conhecem sua faceta descontraída, às vezes é chamado de Dondinho. Mas há quem se intimide com o tom firme com que ele impõe as regras nas reuniões que conduz, com o clero ou com leigos, e lhe dê maldosamente o apelido dom Mau Humor. Nos dois grupos, porém, todos ficam honrados quando têm a chance de cumprimentá-lo e ouvir a bênção invariavelmente proferida: “Saúde e paz”. A expressão também era usada pelo padre Eustáquio, religioso que veio da Holanda, se radicou em Belo Horizonte e foi beatificado pelo papa Bento XVI em 2006. Ela se tornou de tal maneira sua marca registrada que vem inspirando quem quer lhe agradar. Recentemente, o arcebispo ganhou dois cavalos, de nomes Kenkou e Keiwa, que é como são escritas as duas palavras em japonês. Os animais estão hospedados em seu sítio em Caeté, a 48 quilômetros da capital, próximo a um de seus lugares prediletos, o Santuário Nossa Senhora da Piedade. Em breve, ele pretende transformar sua propriedade em retiro espiritual.

Dom Walmor é um apaixonado por arquitetura e paisagismo, o que explica, em parte, o envolvimento pessoal no projeto da Catedral Cristo Rei. No palácio onde despacha, orgulha-se das mudanças que fez para transformar um canto antes abandonado em um jardim. Três painéis de madeira repletos de plantas foram instalados no muro alto de concreto. “Sinto falta de estar mais perto da natureza.” Mesmo nas pequenas coisas, ele não se esquiva do papel de líder. E foi assim desde criança, diz a irmã Sandra Queiróz. Caçula de cinco irmãos, dom Walmor era sempre o professor na escolinha de faz de conta. “Ele assumia a posição de liderança em todas as brincadeiras”, lembra ela.

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Em questões polêmicas, como as relacionadas abaixo, dom Walmor comunga com o papa Bento XVI as mesmas opiniões

SINTONIA COM O VATICANO
Casamento homossexual

“Respeitamos as opções que as pessoas fazem em sua liberdade. Pode-se falar em algum tipo de união, mas não em matrimônio. Ele só se dá entre homem e mulher”

Aborto
“Sou absolutamente contra porque é um atentado contra a vida de inocentes. A vida começa na fecundação e deve-se respeitar o direito de viver”

Celibato sacerdotal
“É necessário. O padre celibatário se coloca inteira e radicalmente disponível para o serviço de anunciar o Evangelho. Quem não tem esse dom não pode assumir o ministério”

Pedofilia
“É um desvio abominável da personalidade humana, que lamentavelmente entrou na Igreja. É doença que precisa de tratamento. E é também um crime para o qual se exige pena”

Celebridades católicas
“A celebração da eucaristia não deve ser classificada como missa de cura, carismática ou outra qualquer. Tem de ser realizada com alegria, mas não pode servir para promoções pessoais”

Proibição do uso de anticoncepcionais
“Como a tarefa primordial do casamento é a procriação, a vida matrimonial pressupõe disciplina e sacrifícios”



Nascido em Cocos, no oeste da Bahia, o devoto de Nossa Senhora das Mercês é filho de um dono de cartório e uma dona de casa, católicos praticantes. Com apenas 10 anos, avisou que queria ir para um seminário, e não para internatos, como os quatro irmãos mais velhos, e partiu para Caetité, município a 300 quilômetros da sua cidade natal. Depois do ensino básico, foi transferido para instituições de Juiz de Fora e São João del Rei, o que o faz considerar-se “genuinamente baiano e autenticamente mineiro”. O currículo de mais de duas páginas comprova a importância que sempre deu aos estudos: bacharel em teologia, tem mestrado em ciências bíblicas e doutorado em teologia bíblica, ambos feitos em Roma. Nomeado pelo papa Bento XVI, o conservador dom Walmor é, desde 2009, o único brasileiro a participar da Congregação para a Doutrina da Fé, o grupo formado por religiosos do mundo inteiro que tem a missão de zelar pelos mandamentos da Igreja.

Autor de dezenas de livros — nem ele mesmo sabe dizer quantos —, é um dos imortais da Academia Mineira de Letras. Quando se mudou para o Palácio Cristo Rei, na Praça da Liberdade, levou sua biblioteca particular, com mais de 5 000 títulos. As obras de teologia sobressaem, mas não são as únicas. “Gosto de Jorge Amado, apesar de suas irreverências, porque ele tem uma capacidade singular de retratar as dinâmicas da cultura brasileira”, diz. Seu atual livro de cabeceira é o original de um amigo, Como Se Faz um Bispo, escrito por José Vital. Se ainda encontra tempo para os livros, ele anda faltando para outra paixão: a música. Há muito não toca piano nem violão. Dom Walmor gosta tanto de música clássica quanto de popular. Curte Caetano Veloso, Maria Bethânia e Roberto Carlos. “Tenho um coração romântico”, brinca. Como seus cantores preferidos, o arcebispo espera atrair milhares de fãs. No seu caso, à Catedral Cristo Rei.



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