Trânsito

Para exercer a profissão, os motoboys terão de cumprir doze novas normas

Medidas entram em vigor no sábado (4), mas até agora, a grande maioria não se adaptou

por Luisa Brasil | 01/08/2012 12:39

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Guerra urbana: 30 000 motofretistas disputam espaço diariamente com os carros nas congestionadas ruas e avenidas da capital

Ele surge do nada, passa a poucos centímetros da lataria do carro — o retrovisor até treme — e, veloz, quando o sinal fica verde, atravessa o cruzamento bem na sua frente. Se você é motorista, certamente já encontrou pelo caminho um motoboy desses, capaz de tirar do sério o mais cordato dos mortais. É para tornar civilizada essa convivência nada amistosa nas ruas da cidade que entrarão em vigor, no próximo sábado (4), novas regras do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Frequentemente acusados de todo tipo de imprudência para passar entre os automóveis nas vias congestionadas, os entregadores sobre duas rodas só poderão circular se tiverem cumprido doze normas, que incluem um curso obrigatório de qualificação profissional e uma licença de trabalho concedida pela BHTrans. A medida beneficiará, antes de qualquer coisa, os próprios motociclistas. A expectativa é que as regras contribuam para o declínio do número de acidentes com motos, que chegam a 27 por dia na capital. Só no Pronto-Socorro João XXIII, o maior centro de emergências de BH, foram atendidas, entre janeiro e junho, 3 552 vítimas — uma média de dezenove por dia. Cinquenta e duas delas morreram, a maior parte por traumatismo craniano.

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A aprovação de uma legislação que regule o exercício da profissão reflete, além da louvável preocupação com a saúde pública, a relevância econômica que a categoria conquistou desde que os primeiros motoboys começaram a aparecer, no fim na década de 80. Com o trânsito cada vez mais complicado nas grandes metrópoles, os velozes entregadores se tornaram essenciais para o funcionamento das empresas. Na Drogaria Araújo, a primeira farmácia do Brasil a implantar o serviço de entrega em domicílio, ainda nos anos 60, cerca de 200 motoboys terceirizados trabalham levando até a casa dos clientes 100 000 produtos por mês. A empresa mineira manteve uma frota própria de Fuscas amarelos para cuidar do serviço até 1995, quando, após constatar que estava cada vez mais difícil realizá-lo, trocou seus carros pelo ágil sistema em duas rodas oferecido por uma cooperativa. "Nosso Drogatel entrega com hora marcada, e sem os motoboys isso não seria possível", diz o gerente de marketing da Araújo, André Giffoni. Nem mesmo o avanço da internet impediu o crescimento nesse ramo das entregas rápidas. "Não consigo resolver tudo pelo computador", conta Denise Lima Pereira, sócia da gráfica Image, instalada no Prado. "Dependo do motoboy para levar a peça até o cliente e pegar a aprovação final." Em questão de minutos, o rapaz que atende Denise recebe o trabalho, leva-o até o escritório do cliente e lhe devolve os documentos assinados.

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Eloízio Santos, que ainda não se regularizou: "Além de dinheiro, é preciso ter tempo para enfrentar a burocracia"

Tão útil para quem tem urgência nas entregas, a grande quantidade de motos ziguezagueando em meio aos carros acabou criando um clima de guerra urbana nas ruas da cidade. A reclamação é geral. "Os motoboys são imprudentes, abusados e não respeitam as leis de trânsito", opina o taxista Hermes Oliveira Lázaro. "Eles dão seta para a direita e entram à esquerda", afirma o motorista de ônibus João Rodrigues. Não é à toa, diz ele, que tantos se machucam no trânsito. Os motofretistas — como eles são chamados na legislação — consideram injusta a pecha de irresponsáveis. E ponderam que, muitas vezes, aqueles que reclamam da conduta da categoria são os mesmos que cobram rapidez no serviço. "Para o cliente, a entrega é sempre urgente", diz Rogério Santos Lara, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas e Ciclistas de Minas Gerais. Em defesa dos motoboys, Lara garante: os que mais se arriscam são os motociclistas de passeio, e não os que têm seu ganha-pão no ágil meio de transporte. "Os motoboys têm mais prática no trânsito e são mais cuidadosos", concorda o professor Nilson Nunes, que é chefe do departamento de engenharia de transportes da UFMG. A avaliação, porém, é empírica. Não há estatísticas sobre o assunto. No último dia 20, quando a reportagem de VEJA BH visitou a enfermaria do João XXIII, os "amadores" eram mesmo maioria, mas não foi difícil encontrar profissionais entre as vítimas. No setor de ortopedia, Jonathan Vilela, de 26 anos, aguardava para ser levado ao centro cirúrgico. Na colisão com um carro, saiu com o pé direito quebrado. "Esse acidente me deu medo, pensei que ia perder meu pé", contou.

Vilela trabalha há apenas seis meses como motoboy. Trocou o emprego de encarregado em um supermercado para ganhar mais. Lá, seu salário mensal era de 1 100 reais. Como autônomo, está tirando quase o dobro: 2 000 reais por mês, em média. Como ele, de olho em uma renda melhor, muitos rapazes resolveram apostar no ofício, que, pelo menos até agora, não exigia nenhum tipo de qualificação. Bastava ter carteira de habilitação e uma moto. Inexperientes —, e muitas vezes conduzindo veículos em más condições de conservação —, motoboys como Vilela são as vítimas mais frequentes.

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A empresária Denise Lima Pereira: "Não dá para resolver tudo pela internet. Dependo desse serviço"

É isso, sobretudo, que a Resolução 356 do Contran quer mudar. Para trabalhar fazendo entregas de moto será preciso ter no mínimo 21 anos, dois anos de experiência como motociclista, fazer um curso com trinta horas de duração, ter autorização do órgão municipal competente e ainda ter o veículo aprovado na inspeção semestral, com placa específica da categoria na cor vermelha. "Hoje um menino de 18 anos tira carteira, compra uma moto financiada no nome de alguém, amarra um caixote atrás e fala que é motoboy", afirma Josafá Salgueiro, presidente da Cooperativa Brasileira de Transportes Autônomos (CBTA), a maior de Belo Horizonte, com 500 associados. "Com as novas regras, esse menino vai acabar desistindo", prevê ele. Os motoboys se queixam de que atender à legislação custará caro. Só com o curso obrigatório, a despesa pode variar de 160 a 360 reais, dependendo da escola escolhida. Segundo Salgueiro, embora resulte em aumento dos custos, a medida é bem-vinda para os profissionais sérios. "Vamos separar o joio do trigo e garantir mais respeito para a categoria", diz Salgueiro.

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Profissão perigosa: na colisão com um carro, o motoboy Jonathan Vilela saiu com o pé quebrado

Difícil é dizer quantos dos motoboys da cidade — que são 30 000, segundo estimativa do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas — estão no grupo que o presidente da CBTA chama de "profissionais sérios". A julgar pelos números da regularização, eles não são muitos. Às vésperas da data em que a resolução entrará em vigor, na última quarta (25) apenas 88 tinham cumprido todas as exigências, segundo o Departamento de Trânsito de Minas Gerais (veja o quadro na pág. 19). Outros 357 já haviam passado pelo curso de qualificação, mas ainda tinham pendências a resolver. É o caso de Eloízio Santos, que frequentou as aulas em abril, mas não conseguiu cumprir todas as normas. "É muita burocracia. Além do dinheiro, a pessoa tem de ter tempo para fazer tudo o que é pedido." Pelo andar da carruagem, será impossível, até o dia 4, regularizar uma parcela razoável dos nossos motoboys.

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1. Rafael Nunes Silva - Motoboy há quatro anos
"Quero lançar uma campanha: abra o corredor, essa entrega que levo pode ser a sua, pode até salvar a sua vida"

2. José Carlos Roberto - Presidente da Associação dos Trabalhadores Motociclistas de Minas Gerais
"Todo motociclista é hostilizado, o que é injusto. Tem gente que nos recebe mal só de olhar para o capacete"

3. Josafá Salgueiro - Presidente da Cooperativa Brasileira de Transportes Autônomos
"O motoboy miserável não existe mais. Tem gente na profissão que chega a ganhar 5 000 reais por mês"

4. José dos Santos - Motoboy há seis meses
"Quem vive disso sabe que não adianta correr para ganhar dinheiro hoje. Se se machuca, como fica amanhã?"


A categoria reclama da desorganização dos órgãos públicos para lidar com as novas regras. "Fui pessoalmente à BHTrans, e não havia um guichê para nos receber nem alguém para orientar", conta Rafael Nunes. Para o supervisor de serviços de transporte de motofrete da empresa responsável pela emissão das licenças, Carlos Franklin, o problema é outro: "Eles contavam com a prorrogação do prazo". De fato, é nisso que muitos apostam. Que a nova regra seja só mais uma que, como tantas no Brasil, vai acabar caindo no esquecimento. Se ocorrer mesmo um adiamento, não será a primeira vez. Em 2007, em outra tentativa de colocar ordem na casa, o Conselho Nacional de Trânsito editou a resolução 219, que já previa várias das normas que estão na atual resolução 356. Sem fiscalização, ela foi completamente ignorada pelos profissionais. A nova empreitada para organizar o ofício veio na esteira da lei aprovada em 2009, criando oficialmente as profissões de motofretista e mototaxista no país. As medidas deveriam ter entrado em vigor no ano passado, mas acabaram sendo adiadas por um ano.

"Isso vai terminar em pizza", aposta o motoboy Luiz Adilson da Silva, que fatura 2 400 reais por mês. Ele diz que até tentou regularizar sua situação, mas não encontrou vaga para fazer o curso. Há somente três escolas credenciadas para ministrar as aulas na cidade. Na empresa de entregas onde Silva trabalha, apenas dois dos treze motofretistas fizeram a qualificação obrigatória. Estacionadas em frente ao estabelecimento, suas motos comprovam que a maioria também não providenciou os equipamentos obrigatórios, como o protetor de perna. "Não vou parar de trabalhar, tenho minhas dívidas para pagar", diz Silva. Contar com a falta de fiscalização, avisa o Batalhão de Trânsito, será mau negócio. "Faremos ações educativas até a segunda-feira (6) e, depois, começaremos a autuar", promete o comandante do batalhão, o tenente-coronel Roberto Lemos. Além de pagar multa, o motoboy que não estiver dentro da lei poderá ter o veículo recolhido. Eles são essenciais, não há quem duvide. Mas, como em qualquer categoria profissional, terão de cumprir certas normas para exercer seu ofício. Os motoristas agradecem.


 

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