Crônica

Um grande fim de semana

por Cris Guerra | 15/08/2012 15:45





Ele saiu da loja realizado. Finalmente havia comprado um au­tomóvel espaçoso, in­te­li­gen­­­te, automático, com ban­cos individuais de cou­ro reclináveis para se­te pessoas. Ali caberiam a mu­l­­her, os gê­meos, a caçula, um amiguinho das crianças e até a sogra, confortavelmente sentados e protegidos por seus airbags particulares. Era o carro perfeito para o fim de semana.

O dia seguinte era útil. Ele tirou da garagem o Fim de Semana dos Sonhos, com aquele prazer de carro novo a que nenhum ser humano resiste. Os gêmeos não puderam pe­­gar carona com o pai porque haviam saído um pou­­co mais cedo — era dia de prova bimestral. Foi levar a caçula à escola. Como não encontraram vaga na porta, parou em fila dupla até que a menina descesse. E seguiu sozinho em seu Domingão, humilhando as segundas, terças e quartas-feiras comuns.

No trajeto até o trabalho, arrastou com ele o amplo espaço sobre quatro rodas e um sorriso que chegava a fazer peso. O trânsito não foi motivo para contrariedades. Com o carro parado no engarrafamento, ele poderia observar mais lentamente o painel, usar o sistema multimídia com tela sensível ao toque e descobrir cada uma das funções do computador de bordo.

Um acidente no Anel obstruiu uma das pistas, deixando o tráfego lento. A lentidão lhe permitiu notar que, entre os vários automóveis enfileirados, muitos eram grandes como o seu. A longa fila de veículos potentes não andou a mais de 10 por hora, resumindo o dia a uma reta sem fim. Mas ele estava feliz demais para que o trânsito lhe estragasse o humor.

A semana correu serena. Os problemas não conseguiram alcançar o invólucro alto e blindado sobre quatro rodas.

No café da manhã do sábado, a família pôs-se a decidir em que caminho inauguraria o carro comprado para celebrar o encontro. Um dos gêmeos sugeriu aquele restaurante ao lado da pista de equitação. O outro queria pizza. A caçula só pensava na cama elástica do restaurante de comida mineira que ficava do outro lado da cidade. Diante da discussão, a esposa teve aquela en­­xaqueca terrível. Em­­burrada, a caçula trancou-se no quarto. A so­gra foi ver o Luciano Huck na TV. E os gêmeos receberam a ligação de amigos convidando para um churrasco.

Solícito, ele fez questão de encomendar e buscar o almoço para os remanescentes. Como não havia vaga para estacionar um Fim de Se­­mana tão prolongado, rodou por meia hora e só conseguiu parar a três quarteirões da loja, com a preciosa ajuda do sensor de estacionamento. Chegou em casa feliz, mas com o prato frio. Encontrou três famintas com sede de vingança.

Mas o domingo amanheceu ensolarado. Ele aguardou aproximadamente três horas e meia até que todos se levantassem e ele pudesse sugerir uma ida ao clube. Dessa vez a ideia agradou a todos, mas o preparo para o embarque levou mais algumas horas. Não se importou com o tempo: teria a chance de testar o sensor crepuscular e poderiam ver o pôr do sol diante da piscina. Quando finalmente os filtros solares, tocadores de MP3, smartphones e tablets estavam a bordo com seus donos, ele apertou orgulhoso o botão da partida, na ânsia de que alguém percebesse que o moderno motor dispensava a chave. Solene, tocou no painel multimídia para iniciar a exibição de um DVD de André Rieu. O carro foi de zero a 100 em oito segundos. Antes de atingir os 80, seus olhos já estavam marejados.

Tão marejados que ele não enxergou um Fusca pratea­do à sua frente na pista e teve de usar o freio ABS para não lhe passar por cima. Sem o mesmo recurso, o pequeno besouro bateu no carro da frente, o da frente bateu no seguinte e este ainda atingiu o outro, num doloroso efeito dominó.

Lotado de passageiros atônitos e esmagados pelo acionamento dos airbags, o carro novo não teve avarias e a família permaneceu intacta. Mas o fim de semana teve perda total.



Comentários
[an error occurred while processing this directive]
BUSCAR