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Em Lagoa Santa, Museu Peter Lund vai reunir descobertas paleontológicas do século XIX

Prédio de três andares será inaugurado na sexta (21) pelo príncipe herdeiro da Dinamarca

por Cedê Silva | 14/09/2012 18:20

Evandro Rodney
Em Lagoa Santa: prédio de três andares vai abrigar oitenta peças que estavam em Copenhague

Era uma vez, em um reino muito distante, o filho de um próspero comerciante de artigos de lã. Formado em medicina pela Universidade de Copenhague, na Dinamarca, ele gostava mesmo era de biologia. Certa feita, em 1825, visitou um império do outro lado do oceano, chamado Brasil, onde ficou fascinado por uma curiosa espécie — o bicho-preguiça. Depois de um breve retorno à Europa, decidiu que viveria no tal país, dedicando o resto de sua vida ao estudo dos mamíferos. Essa é a história de Peter Lund (1801-1880), o cientista dinamarquês que pôs Lagoa Santa, a 42 quilômetros da capital, no mapa da paleontologia. Na próxima sexta (21), ele será homenageado com a abertura do Museu Peter Lund, um prédio de três andares e 1 850 metros quadrados de área construída, ao lado da Gruta da Lapinha, que abrigará uma coleção de oitenta fósseis inéditos no Brasil, parte do acervo do Museu de História Natural de Copenhague. A inauguração do espaço, no qual o governo estadual investiu 5,3 milhões de reais, contará com a presença do herdeiro do trono da Dinamarca, o príncipe Frederik, e de sua mulher, a princesa Mary.

Foi o próprio Lund quem enviou à Dinamarca os fósseis que agora retornam ao Brasil. Era a primeira descoberta de fósseis humanos nas Américas, e seu achado, em 1840, quebrou os paradigmas da época. "Graças a Lund, partiu daqui uma revolução científica e cultural", afirma o professor Cástor Cartelle, curador da coleção de paleontologia da PUC Minas. Cientistas daquele tempo defendiam a teoria do catastrofismo, segundo a qual as espécies exterminadas por catástrofes naturais, como as enchentes, não conviveram com seres humanos. As descobertas de Lund, porém, mostraram que os mineiros antigos tinham sido contemporâneos de no mínimo cinco espécies extintas, entre elas uma anta gigante, um grande cavalo e o gliptodonte, um herbívoro semelhante ao tatu, mas do tamanho de um Fusca. O trabalho do dinamarquês foi citado, dezenove anos depois, no livro A Origem das Espécies, do inglês Charles Darwin (1809-1882), a principal referência para a hoje chamada teoria da evolução.

Museu de História Natural de Copenhague/Família Lund/Steen Evald
Memória: o imóvel onde viveu o cientista, no centro da cidade, a 42 quilômetros da capital. Visitas ilustres: o príncipe herdeiro Frederik, acompanhado de sua mulher, Mary (abaixo), e o retrato de Peter Lund (alto)


Lund liderou escavações em mais de 800 grutas calcárias, quase todas em Minas. Conheceu Ouro Preto, Curvelo e atravessou o Rio São Francisco de canoa. Suas descrições eram detalhadas e exaustivas — ele catalogou 39 espécies de mamíferos atuais, como tatus, tamanduás, gambás e preguiças, e 54 extintas, incluindo um urso brasileiro e o tigre-dentes-de-sabre. Presidente da Câmara de Comércio Dinamarquês-Brasileira e idealizador do novo museu, Jens Olesen tem Lund como um herói. "Ele viajou com apenas três pessoas e alguns cavalos para descobrir em um país estrangeiro coisas inéditas no mundo", diz. Olesen espera que o museu seja mais um atrativo para que turistas visitem Lagoa Santa e conheçam o trabalho do ilustre conterrâneo. Pela Gruta da Lapinha passam, a cada ano, 20 000 visitantes.

Museu Peter Lund. Estrada Campinho Lapinha, quilômetro 6, Lagoa Santa. ☎ 3689-8592. De terça a domingo, das 9h às 16h. R$ 15,00 (a entrada dá direito a visitar também a Gruta da Lapinha). A partir de sábado (22).



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