Comportamento

Pais falam sobre a dor e a delícia da criação dos filhos sem a presença das mães

Solteiros ou viúvos, homens provam que dão conta de educar meninos e meninas

por Luisa Brasil | 15/08/2012 13:22

Odin
Vida de “pãe”: o empresário Rodrigo Ruckert com Bruno

O artesão Vicente de Paula Souza não conseguiu realizar o sonho de ter um filho enquanto estava casado. O matrimônio acabou, mas não o desejo de ser pai e, mesmo solteiro, ele resolveu adotar uma criança. Aos 43 anos, tornou-se pai do adolescente Ernandes Rodrigues Souza, na época com 12 anos. O Dia dos Pais de 2006, o primeiro que passaram juntos, é inesquecível para os dois. “Tê-lo ao meu lado foi o melhor presente”, lembra Souza. Apesar das dúvidas de amigos e familiares, ele estava convencido de que conseguiria cuidar bem do garoto sem a ajuda de uma mãe. Seis anos depois, está tão realizado com a paternidade que decidiu aumentar a família. Está adotando Eduardo, irmão biológico de Ernandes que continuava vivendo em um abrigo. “Eles são fogo e água, um é nervosinho e o outro é bem tranquilo”, conta o artesão, todo coruja. Segundo a psicóloga infantil Telma Fulgêncio, o homem tem tanta capacidade de criar uma criança quanto a mulher. “Isso não depende de gênero, e sim da pessoa”, afirma a especialista. Histórias como a de Souza, porém, são raras. A maior parte dos homens que se responsabilizam sozinhos pela criação dos filhos se viu nessa situação depois de um divórcio ou de uma viuvez.

É o caso do professor de história Alberto Cunha, que, há quatro meses, perdeu a mulher, vítima de câncer de mama. Aos poucos, ele tenta se acostumar com a rotina de “pãe”, com a missão de educar por conta própria as três filhas — as gêmeas Alice e Nina, de 12 anos, e Luíza, de 15 —, e inteirar-se de assuntos tipicamente femininos. Na primeira vez que precisou comprar um absorvente, ficou perdido: levou várias marcas e modelos para que as meninas indicassem o mais apropriado. Cunha se esforça para ampliar o diálogo com as garotas, mas confessa que ainda se sente bastante inseguro. “Tenho medo de errar porque não tenho com quem compartilhar minhas decisões”, admite. Essa também era a angústia do comerciante aposentado Ariosman Albegaria, que ficou viúvo em 2000, quando os filhos Felipe e Lorena tinham, respectivamente, 16 e 12 anos. Sua maior preocupação era protegê-los das más companhias e das drogas durante a adolescência. “Sendo homem, foi trabalhoso descobrir o que a Lorena queria, o que estava sentindo, mas acabei me aproximando bastante dela”, lembra. Apesar dos temores do comerciante, os filhos chegaram à idade adulta sem percalços. “Os dois têm cabeça muito boa”, diz, aliviado.

Em casos de separação, são cada vez mais comuns os pais que lutam pelo direito de criar seus filhos. Muitos querem a guarda — ou pelo menos a guarda compartilhada — dos herdeiros, como o empresário Rodrigo Ruckert. Quando se divorciou da mulher, o filho Bruno tinha 2 anos. Inicialmente, o acordo garantia apenas visitas quinzenais. Ele, porém, se ressentia da falta do convívio, queria participar efetivamente das decisões sobre a criação do menino e propôs uma divisão igualitária do tempo da criança. Hoje, Bruno alterna, toda semana, sua residência. Em uma, está no endereço do pai. Na outra, no da mãe. Na casa que o empresário divide com três amigos e três cães no bairro Santa Tereza, Bruno, hoje com 10 anos, é uma espécie de mascote. “Todos adoram tê-lo por perto.” Ruckert lembra, no entanto, que nem tudo é diversão quando está com o filho. Há responsabilidades que não podem ser negligenciadas. “De tarde, eu o levo para minha loja e supervisiono o dever de casa.”

Embora cada vez mais frequente, a guarda compartilhada ainda é o regime da minoria. Em Belo Horizonte, de todos os divórcios e separações realizados em 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, somente 4,3% resultaram em divisão da tutela dos filhos. “Ainda existe uma herança cultural que diz que a mãe cuida e o pai é o provedor”, afirma o diretor do Instituto Brasileiro de Direito de Família, João Batista de Oliveira Cândido. No entendimento da Justiça, o interesse da criança é o melhor critério para estabelecer a guarda. Quando é desejo do filho e tanto o pai quanto a mãe têm condições para criá-lo, o modelo de duas moradias é recomendável. Ava Simões, de 8 anos, conhece bem essa realidade. A cada semana, ela passa três ou quatro dias na casa do pai, o locutor Aggeo Simões. Quando seus pais se separaram, Ava tinha apenas 1 ano e o início não foi fácil — até a própria mãe de Simões duvidava que ele poderia cuidar bem da menina quando esta estivesse sob sua guarda. Depois de sofrer um tanto, o locutor resolveu criar um blog batizado de Manual do Pai Solteiro, no qual dá dicas a marinheiros de primeira viagem. “Virei uma espécie de consultor”, brinca. Do alto de sua experiência, Simões garante: “As únicas coisas que um homem não pode fazer são engravidar e amamentar”.



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