Crônica

Quem se sente seguro em BH?

por Luís Giffoni | 01/08/2012 15:21





Acabo de engordar, uma vez mais, as estatísticas da violência em Belo Horizonte. Uma vez mais, fui assaltado. Uma vez mais, a impotência, a indignação, a frustração, a revolta, o medo, o risco de vida, o espanto ante a ousadia dos ladrões, a impressão de que eles sairão ilesos. Uma vez mais, a rotina de visitar as polícias, ouvir que eu estava errado, não devia ter feito isso ou aquilo, que dei sorte por perder apenas bens materiais e não ter sofrido agressão física, que eu deveria agradecer a não sei quem. Uma vez mais, escuto que pouco ou nada poderá ser feito, pois os efetivos policiais são pequenos, insuficientes para coibir a violência urbana, que 30% do contingente, por algum motivo, está afastado do serviço, que o aumento de delegacias especializadas ou de novas responsabilidades policiais pulverizou o patrulhamento das ruas e o número de detetives em ação, que faltam veículos e até gasolina para investigações.

Uma vez mais, descubro que os índices de violência em BH sobem assustadoramente, que os homicídios já ultrapassaram dois por dia, que os assaltos excederão 20 000 em 2012, que os arrombamentos dobraram em determinadas partes da Zona Sul, que o furto de veículos cresceu tanto que os moradores de certos bairros, como o Coração Eucarístico, são obrigados a pagar até 25% a mais pelo seguro total, tão elevada é a taxa de furtos, que as saidinhas de banco e os sequestros-relâmpago continuam em alta, que a venda de drogas na Savassi funciona a noite inteira.

Uma vez mais, confidenciam-me que as estatísticas oficiais são maquiadas, para minorar o descalabro. Uma vez mais, lembro-me do Rio de Janeiro, onde procedimento parecido foi adotado e até se sugeriu que os contraventores não fossem incomodados, pois milhares sobreviviam do tráfico de drogas e do jogo do bicho, até que um dia a Cidade Maravilhosa acordou sitiada pelos bandidos — e deu no que deu.

Uma vez mais, questiono-me: estaria eu delirando, imaginando perigos, exagerando evidências? Por acaso a maioria da população belo-horizontina nunca foi assaltada ou nunca teve uma pessoa próxima vitimada por ladrões? Seria inverídico que talvez nove entre dez pessoas temam andar em nossas ruas? Por que se blindam tanto os carros particulares? Por que se vendem, por ano, mais de 130 000 câmeras de televisão para prédios e casas? Não teriam os cidadãos virado reféns dos bandidos em nossa capital, obrigados a se refugiar em verdadeiros bunkers, detidos atrás de cercas elétricas e de arame farpado, alarmes e sirenes, patrulhamento particular etc.? Uma verdadeira indústria da insegurança se formou, indústria que fatura milhões e ocupa o espaço negligenciado pelo estado.

Questiono-me, uma vez mais: estou vendo coisas que não existem?

Uma vez mais, lembro-me de que logo receberemos milhares de estrangeiros para a Copa, e todo o investimento para criar nossa boa imagem no exterior poderá ruir se eles forem vítimas de violência. Desperdiçaremos dinheiro e ótima oportunidade para nos apresentarmos ao mundo como nação organizada.

Uma vez mais, ocorre-me que a Constituição Federal de 1988, em seus artigos 6º e 144º, garante a todo cidadão o direito à segurança, e a segurança pública é dever do estado, o mesmo estado que deveria ter contra os bandidos a implacabilidade que demonstra ao cobrar impostos dos cidadãos. Quando se trata de arrecadar, taxar, sobretaxar, multar, o estado é eficiente, absoluto. Quando se trata de cumprir a Constituição, ele é relativo, cheio de esquivas.
BH precisa de um choque de segurança, não de choques de propaganda. Não podemos nos transformar na Capital da Insegurança. Aliás, talvez seja tarde. Quem hoje se sente seguro aqui?



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