Crônica

Um símbolo ainda ameaçado

por Luís Giffoni | 17/08/2012 15:03






Dizem que minério só dá uma safra. Discordo. Dá duas. Na primeira, o minerador ganha dinheiro, gera emprego, vira manchete. Na segunda, o meio ambiente ganha degradação, e o minerador sai de cena de fininho, largando o estrago para trás. Por mais que se façam regulamentos, em geral a realidade é cruel: a mineração traz benesses por pouco tempo e pode provocar dor de cabeça por décadas. Exemplo disso são as escavações produzidas no século XVIII pela corrida do ouro. Algumas até hoje causam problemas. Não podemos, contudo, passar sem as receitas e os empregos oriundos das riquezas do solo. Seria tolice banir a mineração, sobretudo numa terra que tem minas gerais no nome. No entanto, alguma com­­pensação extra Minas Gerais há de ter, e o minerador deve desenvolver maior consciência ecológica. Isso parece uma obviedade das mais ululantes, mas continua longe de se concretizar.

Algumas áreas, porém, devem ser preservadas da mineração a todo custo. Por exemplo, a Serra do Curral. Ela sofreu, nos últimos setenta anos, mais degradação que a produzida por intempéries, terremotos, vulcões, geleiras e mares em mais de 1 bilhão de anos. Sim, já tivemos tudo isso aqui, no passado distante. A serra resistiu, perdendo aos poucos o relevo, entretanto sucumbiu num piscar de olhos à mão humana que atacou com voracidade seu coração de ferro de alta qualidade. Se olharmos bem nossas montanhas, entenderemos as consequências desse ataque.

Alguém poderia alegar que a Serra do Curral está tombada, portanto preservada. Existem, entretanto, brechas na legislação, e a cobiça, como sempre, anda à solta. Minério de ferro é muito mais valioso que ouro. Dia desses, fui interpelado por um minerador que criticou o livro que escrevi em defesa da Serra do Curral. Segundo ele, prestei um desserviço à comunidade, pois meu discurso ajuda a evitar a criação de 3 000 empregos diretos durante uma década, além de privar o estado de importantes receitas. Pois bem. E depois dessa década, o que restará de nosso belo horizonte? O que veremos, acostumados que estamos ao imponente paredão vermelho que faz parte de nossa identidade e se tornou nosso símbolo maior por direito e por eleição? Queremos, em definitivo, o triste horizonte que tanto afetou Carlos Drummond de Andrade? Esses 3 000 empregos provavelmente seriam gerados se criássemos, com a ajuda da Unesco, o Geopark do Quadrilátero Ferrífero. Além de beleza, riqueza e complexidade geológica não nos faltam.

Há, ainda, outros perigos rondando a Serra do Curral. Por exemplo, a especulação imobiliária. Se a população cochilar, logo se encontrarão meios para construir prédios e vias junto ao paredão. A discussão sobre o destino da área da Lagoa Seca é um exemplo. Por que o interesse público não prevaleceria numa cidade encurralada por prédios e carros, ávida por espaços livres e parques?

Existe ainda, sobretudo neste período de seca, a constante ameaça de incêndio. O de 2011 dizimou plantas e animais. O mesmo aconteceu em 2010, 2009... O fogo se repetirá neste ano?

É hora de recuperar a Serra do Curral, oferecer melhores condições de sobrevivência às centenas de espécies que a habitam desde muito antes de o primeiro ser humano aqui pisar. Para mitigar a enorme cratera deixada por Águas Claras, que produziu o lago mais profundo do Brasil, a Mata do Jambreiro deveria ser transformada em parque. Assim, teríamos mais uma área verde para uso dos cidadãos e de quase 40% das aves mineiras. Assim, ofereceríamos mais natureza para as futuras gerações conhecerem a importância do equilíbrio da vida e evitarem nossos erros. O símbolo de Belo Horizonte, com mais de 2 bilhões de anos de existência, merece respeito. Assim como nossos netos.



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