Crônica

50 minutos

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

- É estranho eu vir aqui mesmo sem ter o que dizer, né?

Mas hoje eu não tenho. Você não acha que o mundo tem falado demais? O porteiro, o motorista de táxi, a mulher no elevador. Minha colega de escritório fala o dia inteiro no meu ouvido! O rádio, o Galvão Bueno. Até uma TV muda do restaurante onde eu almoço fala enquanto eu como. Vê se pode, a TV é muda, mas solta letras. Não posso nem mastigar em paz. Outro dia eu ia morder um pedaço de bife quando apareceu uma manchete sobre os males provocados pela carne de boi. Assim, no meio da garfada. E as coisas? Tem uma cadeira lá em casa que fica me olhando e pedindo que eu me sente nela. Você acha que isso é loucura? Porque eu não acho nada. Tão complicado ter opinião hoje em dia. Nas redes sociais as pessoas opinam o tempo todo — como elas conseguem ter tanta certeza do que pensam? E quem é esse pessoal do Facebook, hein? Não tem preconceito, não avança sinal, não faz grosseria, não come glúten nem açúcar. São as mesmas pessoas que estão nas ruas?

- Eu tô tão vazio hoje. Ou melhor, eu tô é cheio. Acho que é por isso que tenho essa dificuldade com o casamento. Um dia você acorda ao lado da pessoa e não tem nada para falar, e aí? Bom dia e não fala nada que hoje tô sem assunto? Constrangedor não ter assunto e a pessoa estar lá, na sua frente. Tem dia que eu só quero entrar na cozinha e picar uns talos de aipo. Pego uma faca boa e fico ouvindo o barulhinho. Pode ser pimentão também. É uma sensação de frescor, um barulho de nada, um nada crocante. Você devia experimentar, é muito bom. Enquanto isso, bingo, você não precisa falar nada. Fica você e o barulho do aipo, da faca, do pimentão.

- Sabe de uma coisa? Debaixo do chuveiro me vem tanto assunto. Ideia, solução, poema. Se eu tomasse banho o tempo todo, eu ia ser escritor. Eles podiam inventar um computador que transcrevesse os nossos pensamentos no banho. Já pensou? Em vez do divã, coloca um chuveiro e um microfone para ouvir o que a pessoa fala. Banhoterapia.

- Essa parede sempre foi verde-musgo? Acho que eu tô com problema de memória, sabe? O irmão da minha avó faleceu no mês passado. Ele começou a não se lembrar das coisas, até que parou de reconhecer as pessoas. Passou a chamar a filha de mãe. Aí me perguntaram "ele morreu de quê?" Acho engraçado as pessoas se preocuparem tanto com isso. Morreu de quê. Por que não perguntam "viveu de quê?" Eu quero é viver das coisas. De aprender, de pensar, de dar gargalhada. De abraço, beijo, de cinema. De morango, margarita, chocolate, champanhe. Viver de amor e de amigos. Eu quero morrer é de vida. Eu sou muito otimista, mas otimismo tá tão fora de moda, né? Dá ibope é ser sarcástico, botar para quebrar. Otimismo é piegas.

Eu tenho vergonha de ser o… ó, já acabou nosso tempo?

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE