Crônica

Abraços grátis

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Ele tem a mania de querer deter as coisas. Como se guardá-las fosse uma espécie de garantia. Seu maior desafio é dar conta do que não podia ter: o amor daquela mulher; a flexibilidade do contorcionista; a inteligência do irmão mais velho. E, por não poder ter, pouco se dá, na esperança de guardar mais para si.

Ele sonha com as coisas. Deseja que elas lhe cheguem como presentes. No lugar de sensações e histórias para contar, trata de encher os espaços vazios, na ilusão de armar-se para se defender de algum eventual imprevisto. Compra e junta o que vê pelo caminho. Volta para casa abraçando almofadas, livros, sacolas e sapatos novos. Para depois gastar as solas em busca de mais.

Copos, panelas, caixas, ferramentas. Miniaturas, guarda-chuvas, fitas VHS, revistas de jardinagem. Cremes rejuvenescedores, aparelhos de ginástica. Bichos de pelúcia, poltronas, cadeiras de armar. Tudo isso e um computador. Suas teclas, menos doídas que os passos nas ruas, encurtam seu caminho até as coisas.

Com elas, poderia cozinhar para os amigos - se os tivesse. Encheria de flores os seus jardins, se acaso lesse as revistas. Daria grandes festas, caso houvesse quem convidar. No entanto, o tempo é curto: há muito que organizar. Segue investindo

em soluções para seus problemas - caso os tenha algum dia. De modo que as coisas empenhadas em trazer a ele o que lhe falta se tornam elas mesmas os problemas.

Onde guardar? Como limpar? De que maneira ordená-las para que não seja impossível o acesso até elas?

Casa cheia, vive desviando de caixas. Tropeça em mesas de mármore, pisa descalço em objetos pontiagudos. Esbarra a coxa nas quinas - as coisas são cheias de quinas.

E agora se multiplicam, vingativas. Conhecidos doam objetos sem serventia. Dos parentes, herda coleções e acervos sem valor. Os correios trazem caixas. Atender à campainha é vencer uma corrida de obstáculos.

Já não vê as janelas de casa, tapadas pelas pilhas de coisas. O telefone toca em vão - já não sabe em que canto o enfiou. Empoeiradas, as coisas sonham com o aspirador novo, cuja caixa jaz incógnita e inatingível atrás de algum outro objeto de grande porte. De vez em quando ele se cansa e ali se senta, imóvel, petrificado de ter. Alcança o computador e mira a tela, enquanto se entope de doce de leite - permanece livre o caminho até a geladeira.

Num gesto desastrado, com uma das mãos, toca uma tecla qualquer. E a tela se ilumina, uma música se inicia e o vídeo começa. "Abraços grátis", dizem os cartazes no meio de uma rua movimentada. Uma voz suave ao fundo: "Basicamente, abra os braços e caminhe na direção do outro, que também deverá estar com os braços abertos - de preferência, os dois, pois meio abraço é o mesmo que abraço nenhum".

Pessoas. Como seria bom tê-las, ele pensa em dizer. Tem o ímpeto de correr até a porta. Esbarra num tapete enrolado em camadas de poeira. Num acesso de espirros, joga-se no velho sofá, esbarrando na enorme estante de madeira. Uma luva de boxe lhe atinge a cabeça, agressiva.

As coisas agora lhe dão socos. E ele não tem mais estômago para suportar.

Enquanto isso, os abraços são grátis. Mas as pessoas, ele não pode ter.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE