Crônica

Acervo

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Gosto de colecionar palavras. Guardo-as em folhas de papel, grifos de livros, bilhetes de amor, recortes da memória. Minha coleção não tem ordem: vivo cercada delas. Por algumas tenho certo apreço - escondo-as em caixas aveludadas para usar em momentos especiais. Delicado, sublime, pleno, desnudar. Brisa, nuvem, neblina, arpoador.

E outras mais.

De vez em quando me atrevo a usá-las como se fossem roupas. O vento me assenta como um vestido. Outro dia puxei lembranças de um canto escondido. Junto veio o afeto - e um beijo no tempo aconteceu bem ali, na minha frente. Era minha mãe vindo me acordar em dia de prova bimestral. Mais tarde banhei a saudade num chá de limão com melancolia.

E a quietude veio se assentar comigo.

Enfeito a casa com uma ou outra palavra de impacto.

No canto da sala, um soco e um sopro. Um cessa o respiro, o outro movimenta. Mais adiante uma coleção de pequenas loucuras. Necessárias. Alimento libélulas amiúde. Para que voem. Borboletas me beijam o rosto e fazem cócegas.

Guardo-as para quando precisar rir um pouco.

Gosto da palavra pirilampo - nunca havia encontrado a chance de usá-la. Ficava feito quadro na parede, até segundos atrás. Sonho - que bonita essa palavra, cujo nome insisto em não mudar, mesmo se realizado. Tenho medo de perder o encanto.

Enamorados caminham de mãos dadas pela casa, para que eu não esqueça o essencial.

Alguns termos guardo em compartimentos diferentes, para não confundir. Amor de um lado, amável em outro. Marasmo não chega aos pés do mar. Paz e tédio nunca se viram.

E a cumplicidade ficou tão grande que tive de deslocar o compromisso para outra gaveta. Inteligência está bem acima da esperteza.

Malemolência ao lado da caixa de som.

De vez em quando contemplo o infinito, depois passo a chave no armário. Ali guardada, traz a impressão de que nunca vai acabar. Na cristaleira, guardo vários sins. E acontece de recorrer a alguns nãos que tenho no cofre - raros e precisos. À luz da aurora, o cotidiano me traz os olhos azuis do Chico. Quem mais me sacudiria às 6 horas da manhã?

Tomo um café com açúcar e saio à rua, levando impulsos no bolso da calça - sempre é tempo.

Palavras habitam todo o apartamento: quartos, cozinha, cabeça, vida. Cantam comigo, brindam com borbulhas, dançam em silêncio, contam velhas histórias com olhar de nostalgia.

Em alguns momentos se juntam em conluio para me dizer algo importante. Depois se recolhem bailarinas, rodopios pela sala.

Fica a solitude, uma de minhas prediletas, a me fazer companhia.

Olho pela janela. A palavra horizonte traz mais um belo pôr de sol. Logo, nasce um novo entusiasmo.

Tantas palavras dão à minha vida o sentido. Talvez a mais bonita delas, sentido.

Fazer sentir para significar.

Não penso duas vezes - às vezes, nem uma. Simplesmente sinto - que palavra valiosa é o simples. Quando algo indizível me pega de surpresa, recorro à caneta e faço das letras minhas notas musicais.

Escrevo, escrevo, escrevo. Até passar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE