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Após acidente que a fez perder a perna, Paola Antonini mostra alto-astral e diz que não pretende mudar a vida

Com mais de 50 000 seguidores em redes sociais, a moça quer viajar, ir a baladas e continuar postando suas fotos na internet, sem esconder a prótese na perna

Por: Carolina Daher - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

"Entre ser infeliz para sempre e agradecer por estar viva, fiquei com a segunda opção"

Com um sorriso nos lábios cobertos por um discreto batom, Paola Antonini França Costa surge na sala do apartamento, no Anchieta. É uma moça linda e alegre. O vestido longo estampado, no entanto, esconde as cicatrizes da tragédia que a estudante, de 20 anos, viveu há pouco mais de um mês. Equilibrando-se nas muletas, ela conta que está reaprendendo a andar. "Não mudei nenhum plano. Eu tenho uma vida inteira de felicidade pela frente", diz, com um otimismo surpreendente para quem perdeu parte da perna esquerda em um acidente de trânsito que poderia ter sido evitado se a mistura álcool e direção não tivesse entrado em cena. O dia ainda não havia amanhecido naquela madrugada de sábado, 27 de dezembro. Pao­la estava ansiosa para viajar com o namorado, o estudante Arthur Magalhães dos Santos, de 21 anos. Eles passariam o réveillon em Búzios, no litoral fluminense. "Eu estava empolgadíssima para ir à praia", lembra Paola. "Tinha comprado um short novo, branco, para usar na noite da virada." As malas haviam sido colocadas no carro, um Fiat Bravo, na noite anterior. Quando chegou à porta do prédio, na Avenida Raja Gabaglia, na Região Centro-Sul de BH, pediu ao namorado para pôr uma última bolsa no porta-malas. Foi quando, de repente, o casal viu uma luz e ouviu um barulho estrondoso. Em um instante de reflexo, o rapaz pulou em direção ao asfalto. Paola só conseguiu levantar a perna direita antes de ser atingida pelo Fiat Cinquecento, conduzido por Diandra Lamounier Morais de Melo, de 24 anos, que admitiu ter ingerido duas cervejas pouco antes de pegar o volante. Hostess freelancer da casa noturna Alambique, Diandra foi autuada por crime de trânsito - um tipo de ocorrência que tem, em média, 38 registros por dia na cidade (veja informações sobre outros casos nos quadros das págs. 28 e 29). O teste do bafômetro apontou 0,53 miligrama de álcool por litro de ar expelido pela motorista, acima do limite estabelecido pela legislação, que é de 0,34 miligrama por litro. Ela prestou depoimento e foi liberada depois de pagar fiança de 1 500 reais. "Muito mais do que arrependida, Diandra está traumatizada", afirma seu advogado, Leonardo Marinho. "Ela entendeu as consequências de seu ato e agora precisa conviver com a impotência de não poder mudar os acontecimentos."

A perna esquerda de Paola ficou entre os dois veículos e foi esmagada. "Nunca senti uma dor tão intensa na vida", lembra a estudante. "Preferi não olhar para não ver o tamanho do estrago, mas sabia que era grave." Quarenta minutos depois, ela seguia na ambulância do Samu para o Pronto-Socorro João XXIII. Lá, no centro cirúrgico, foram quatro tentativas para salvar o membro estraçalhado. A perna direita, que nada havia sofrido, foi aberta da virilha ao pé para a retirada da safena, na esperança de que o membro esquerdo pudesse ser novamente vascularizado. Em vão. Depois de quase treze horas, a jovem chegava ao CTI com a perna esquerda amputada na altura da tíbia. "Eu só pedia a Deus para encontrar a maneira certa de dar a notícia à minha filha, tão bonita, vaidosa, na flor da idade, para que ela aceitasse com tranquilidade", relembra a mãe, Diva Maria Antonini França Costa, de 45 anos. Paola reagiu à tragédia da melhor maneira possível. "É claro que não é uma coisa boa, sei que vou enfrentar muitas dificuldades pela frente", diz ela. "Mas entre ser infeliz para sempre ou agradecer por estar viva, fiquei com a segunda opção." Transferida para o Hospital Felício Rocho, a estudante ficou internada por oito dias. Ao deixar o hospital, não pôde voltar para casa. O apartamento da família está passando por reformas para comportar a cadeira de rodas que a estudante terá de usar para atividades como tomar banho. Ela está hospedada na casa de um tio, no Anchieta, onde recebeu VEJA BH.

+ De olho no futuro

Há duas semanas, quando Paola já estava se adaptando à nova rotina - "andando de muleta para todo lado" -, mais um susto. Em uma ida ao hospital para trocar o curativo, o médico avisou que seria necessário submetê-la a outra cirurgia para correção do coto. "Foi o pior momento até aqui, quando falaram que seria preciso ampliar a amputação, fiquei arrasada", diz ela, que, por causa do procedimento, perdeu o joelho. Musa teen nas redes sociais, com quase 36 000 seguidores no Instagram e outros 25 000 no Twitter, Paola ficou conhecida pelas adolescentes quando, aos 15 anos, participou da Galera Capricho - um grupo de garotas escolhido anual­mente pela revista Capricho, publicada pela Editora Abril, que também edita VEJA BH, para testar produtos de beleza, resenhar filmes, livros e CDs. Quando ela anunciou na internet que necessitava de sangue, conseguiu rapidamente mais de 100 doadores e garantiu o reabastecimento do banco de sangue do Felício Rocho. "É muito bom perceber quanto sou querida", comenta. Entre seus novos projetos, a estudante quer usar sua visibilidade para ajudar. Aos seus seguidores, Paola quer mostrar que é, sim, possível levar uma vida normal apesar das sequelas do acidente. "Não quero esconder a prótese de ninguém, ela faz parte de mim", avisa. "Vou vestir short, ir à praia, à balada e postar fotos como sempre fiz. Quero ser um modelo para outros amputados."

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Com os pais, Diva e Antonio, e os irmãos, Antonio Filho e Cristiano (de azul): recuperação em família

"Assim que estiver bem adaptada à prótese, farei uma viagem pela Europa. Quero conhecer o mundo, correr riscos"

Por enquanto, Paola ainda não viu o mundo lá fora. Por causa do risco de infecção, está proibida de sair ou de receber visitas. Passa o dia se comunicando com os amigos pelo celular. Olho no olho, praticamente só com familiares e o namorado, que está sempre por perto. De três em três horas, seu celular toca para avisar que é o momento de tomar os remédios. Diariamente, ela faz uma hora de fisioterapia, pré-requisito para o uso futuro da prótese. No próximo mês, não poderá ir à faculdade como as meninas da sua idade. Recém-aprovada no vestibular de comunicação social na PUC Minas, Paola receberá as primeiras aulas em casa. Esses pequenos obstáculos, porém, não a desanimam. "Acordo todos os dias e penso: estou tão feliz por estar viva!" Segundo ela, o acidente fez nascer uma nova Paola, mais forte, com o desejo de que sua tragédia pessoal sirva de alerta para que jovens não bebam e dirijam, pondo em risco a vida e o destino de pessoas inocentes. "A vida é muito frágil. Por pouco, eu não estaria aqui para contar a minha história."

38 acidentes por dia

Esta foi a média registrada em Belo Horizonte, em 2014, segundo dados do Detran-MG

Ao longo do ano passado, 155 belo-horizontinos morreram em acidentes de trânsito. Só o Pronto-Socorro João XXIII recebeu 13 636 pacientes com lesões causadas por esse tipo de ocorrência. Foram registrados, em média, 38 acidentes por dia na cidade. O número é alarmante, embora a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) pondere que ele representa um declínio de 5% em relação às estatísticas de 2013. Não há dados oficiais sobre a influência do álcool nesses casos, mas as autoridades atestam que ela é grande. "A maior parte dos acidentes está associada à imprudência, e a embriaguez representa uma parcela significativa deles", diz o diretor-geral do Departamento de Trânsito de Minas Gerais (Detran-MG), Anderson Alcântara. O perfil mais comum entre motoristas flagrados por beber e dirigir é o de homens com idade entre 26 e 35 anos, que guiam veículos da categoria B, de passeio. O intervalo entre meia-noite e 6 horas da manhã é o período crítico, com a maior incidência de flagrantes. No Fórum Lafayette, as pastas com processos formam pilhas no chão e sobre a mesa da juíza Maria Isabel Fleck, da 1ª Vara Criminal de Belo Horizonte, especializada em crimes de trânsito. "Recebo cerca de sessenta denúncias por semana, a maioria delas sobre crimes de homicídio e lesão corporal", afirma. "As pessoas deviam pensar mais antes de pôr em risco vidas, a sua liberdade e a de toda a família." A juíza assina pelo menos quarenta sentenças de mérito por semana, determinando a condenação ou absolvição do réu. "É um processo doloroso para todos os envolvidos", diz.

Tragédias sem punição

Processos contra motoristas embriagados costumam se arrastar por anos

Recurso contra júriMãe do estudante Fábio Pimentel, morto aos 20 anos, em 2012, Ana Cristina Pimentel não se conforma. O Focus dirigido pelo filho foi atingido pelo Land Rover guiado por Michael Lourenço. "Nunca vão devolver meu filho", diz ela. Lourenço foi condenado por um júri popular, mas recorre da decisão.

Fiança de 5 000 reais O estudante Hudson de Almeida morreu, no último dia 9, atropelado por Geraldo Laurino. Com sinais de embriaguez, o motorista se recusou a fazer o teste do bafômetro e pagou fiança de 5 000 reais. Vai responder ao processo em liberdade. "Quem dirige bêbado tem a intenção de matar", acusa o pai, Frederico de Almeida. "Lutarei por justiça até o fim."

Crime prescritoViviane Campos tem de lidar com o drama da irmã, Josiane, que estava no carro atingido pelo francês Olivier Rebellato, que avançou um sinal. A atriz está presa aos aparelhos que a mantêm viva desde o acidente, em 2009. O processo criminal prescreveu. "Ele, de certa forma, matou a mim e a minha irmã e está livre", diz Viviane.

Indenização nunca paga

Em 2008, o empresário Fernando Castro foi atingido pelo Honda CRV de Gustavo Bittencourt. Seu filho, Bruno Castro, teve de assumir os negócios com apenas 16 anos. O motorista foi condenado a pagar indenização de 900 000 reais pela morte, mas recorreu e aguarda em liberdade pelo julgamento criminal.

Colaboraram Paola Carvalho e Rafaela Matias

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE