Crônica

Afinal, queremos a Copa?

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Nos pontos de ônibus de BH, há um cartaz que relembra Nelson Rodrigues: "Brasil - A Pátria de Chuteiras". Ao lado, um comentário: "Abaixo a Copa!". Quem gravou esse protesto não está sozinho. O futebol tem sido a panaceia de que políticos de todos os matizes se valem, há décadas, para esconder suas faltas, falhas e falcatruas. Qualquer conquista no campo virava patriotada - e nossos representantes posavam ao lado dos jogadores como papagaios de pirata. As derrotas se transformavam em luto popular, mas sem o afago do poder. Político não associa a imagem a perdedor.

O Brasil acaba de ganhar a Copa das Confederações. Imagino o alívio nos gabinetes oficiais, na esperança de tudo voltar a ser como dantes no quartel de Abrantes. Os heróis da conquista foram, como sempre, levados aos altares. O ícone da vitória, Neymar, curte a $uperexpo$ição. Há corte de cabelo do Neymar, xampu do Neymar, carro do Neymar, bateria do Neymar, banco do Neymar, namorada do Neymar, contrato do Neymar. Há mais espaço e investimento da mídia em Neymar que em toda a educação mineira. Talvez mais que em toda a brasileira.

A médio prazo, passada a euforia do título, o que importam os belos gols diante do dia a dia de ensino ruim, cultura desprezada, saúde doente, transporte público caro e capenga, economia em crise, corrupção em alta? Que professor, do ensino básico ao superior, ganhou um milésimo dos elogios e dos salários dados a Neymar? Quem, no fundo, acrescenta mais ao país? É preferível educar a sonhar em ser Neymar. Na seleção, só cabem onze; no Brasil, milhões. Com melhores serviços públicos, continuaremos amando o futebol, porém sem achar que nossa vida depende dos gramados. Não somos burros.

O Brasil começou a mudar. Pegou no tranco. Agora quer urgência nas mudanças, com os riscos que a urgência implica. Um detalhe: até agora, não foram questionadas as instituições, mas seus ocupantes. Ainda há, portanto, esperança nelas, mas chega de frustração. O futebol não servirá mais de cortina de fumaça. Uma prova: o superfaturamento das obras - suficiente para pagar as campanhas eleitoreiras para muitos presidentes, governadores e prefeitos - foi um dos temas mais recorrentes nos protestos.

A Copa de 2014 ainda pode (e deve) se transformar em oportunidade para o Brasil mostrar ao mundo quanto estará mudando. Para melhor, todos esperamos. Dá tempo. A vasta maioria da população quer a Copa. Nem poderia ser de outra maneira, após torrarmos, só nos estádios, mais de 8 bilhões de reais, suficientes para formar milhares de professores e médicos e engenheiros. Além disso, há o compromisso assumido com o exterior. Por que, então, não tirar do investimento pelo menos o aumento de nosso prestígio internacional, que resultará em mais turistas, por exemplo? A China conseguiu isso, bem como a África do Sul, a Polônia e a Ucrânia, nos eventos esportivos que patrocinaram nos últimos anos.

Vamos desmistificar o futebol. A pátria não é apenas de chuteiras. Ela é de chuteiras, de sandálias, de sapatos, de tênis, de botas, de salto alto. Precisa, ainda, calçar os descalços da cidadania. Educação, cultura, saúde, transporte e a economia são o caminho referendado, e não é de hoje. A bola está com os políticos, na marca do pênalti. O povo, juiz supremo, já apitou. Espera que, desta vez, não chutem para fora.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE