Educação

Alta frequência de casos de bullying nas escolas de BH preocupa pais e educadores

Apesar das campanhas de combate à prática, juristas temem uma explosão de processos nos tribunais

Por: Paola Carvalho e Luisa Brasil - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Ela deu onze capas de telefone celular às colegas de sala na nova escola, com a esperança de não ser mais alvo das chacotas e ser aceita na turma. Não adiantou. A menina de 11 anos continuou sem parceiros para os trabalhos de grupo e isolada na hora do recreio. "Elas apontavam para mim e cochichavam. Diziam que sou burra, consumista e que não gosto de lavar o cabelo, mas é mentira", conta, cabisbaixa. As brincadeiras humilhantes se estenderam ao Facebook. O resultado foi um transtorno alimentar - momentos de total falta de apetite em alternância com outros de exagero na comida -, queda no desempenho escolar e muito choro antes de ela ir para o colégio que começou a frequentar neste ano. Após três meses de tormento para a família, em maio, a mãe, a empresária Carla Piovan Utsch, registrou uma denúncia na Secretaria de Direitos Humanos contra o tradicional Colégio Marista Dom Silvério, no São Pedro, onde a filha estudava até a semana passada. Desde a última segunda (10), a menina está em outra escola. "E meu advogado vai entrar com uma ação contra o Dom Silvério", avisa Carla. Não se trata de um caso isolado. Histórias parecidas continuam acontecendo com frequência nas instituições de ensino de Belo Horizonte, apesar das campanhas contra o bullying, violência psicológica ou física que assombra crianças e adolescentes. "Nunca me bateram porque sou forte, mas me machucaram com palavras", diz um aluno do Colégio Santa Maria, na Floresta, que foi vítima dos colegas por causa do excesso de peso. O menino do 6º ano do ensino fundamental registrou o que vivencia dentro dos muros da escola nos desenhos que ilustram esta reportagem. "Não sei o que ganham fazendo uma pessoa sofrer. Alegria é que não é."

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta BH como a segunda capital brasileira com a maior frequência desse abuso. Entre os estudantes entrevistados, nas redes pública e privada, 35,3% declararam ter sido vítimas pelo menos uma vez. Só Brasília registrou índice maior. Outro levantamento, realizado pelo Observatório da Saúde Urbana, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostra que um em cada quatro dos nossos adolescentes com idade entre 14 e 17 anos já sofreu agressão. Em 65% dos episódios, isso ocorreu dentro da escola ou no percurso entre a casa e a instituição de ensino. "O bullying sempre existiu, mas deixou de ser a zoação de antigamente para chegar à agressão física", afirma a psicóloga Michelle Ralil da Costa, responsável pelo estudo. Pedagogo e presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais, Ermiro Barbini ressalta que os alunos reproduzem os valores e os preconceitos que testemunham no dia a dia da família. O que a realidade sugere é que têm faltado bons exemplos dentro de casa. "A influência da televisão também ajuda a tornar a falta de respeito algo natural." Desde abril, o sindicato já distribuiu 180 000 cartilhas em 1 500 colégios da região metropolitana para ajudá-los a lidar com o espinhoso tema. "A verdade é que as crianças continuam praticando bullying e as escolas continuam falhando ao não identificar as ocorrências", afirma Barbini.

O Marista Dom Silvério, denunciado pela empresária Carla, foi uma das escolas que receberam as orientações. Por meio de nota, informou que, no caso da filha dela, não houve bullying, e sim "desafios de adaptação da estudante" na nova escola. Segundo o comunicado, diante de uma denúncia, o colégio procura ouvir todos os lados para promover a conciliação. "Se necessário, chamamos os pais ou responsáveis para que também participem, pois entendemos que a família é essencial em momentos como esse." VEJA BH consultou dez dos mais tradicionais colégios particulares da capital - Bernoulli, Batista, Espanhol Santa Maria, Loyola, Magnum Agostiniano, Santa Marcelina, Santa Maria, Santo Agostinho, Santo Antônio e Marista Dom Silvério - sobre a incidência desse tipo de agressão dentro de suas dependências e as políticas que adotam para prevenir o problema. As respostas seguiram um mesmo padrão: eles informam que promovem a tolerância entre os alunos e a conscientização sobre os danos causados por humilhações, mas reconhecem que a prática persiste. "Falar que não existe é mentira", diz o padre José Fernando de Melo, diretor do Espanhol Santa Maria. "Todas as pessoas têm fraquezas, e o bullying é uma forma de fraqueza."

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Desabafo no papel

"Meu filho tinha muitos amigos na sua turma, mas, em uma mudança de ano, acabou ficando em outra sala e não conseguiu se socializar tão bem. Ficou isolado. Os novos colegas faziam brincadeiras sobre seu excesso de peso. Ele quis mudar de classe, mas a escola não concordou.Chorava, não queria ir ao colégio. Os desenhos que ele fazia me ajudaram a interpretar o que estava acontecendo. Constatei o bullying e procurei a escola, que nos deu todo o apoio. Eu também tive problema com a ditadura da magreza, mas, na minha época, a gente não reclamava. O problema ficava no colégio. Agora, por causa das redes sociais, isso acompanha os alunos o tempo todo. Meu papel como mãe foi elevar a autoestima do meu filho. Hoje, ele gosta de produzir vídeos para publicar na internet. E os coleguinhas que o incomodavam no passado querem aparecer nas gravações."

Cíntia Ribeiro de Freitas

Advogada

Reprodução
(Foto: Redação VejaBH)

1) As meninas mais vistosas isolam as menos bonitas: cena clássica 2) O fortão intimida o mais fraco: agressão frequente entre os meninos 3) Uma das situações mais humilhantes para as crianças: ser alvo da chacota coletiva

Brincadeiras maldosas (e o exagero nelas) não são mesmo exclusividade dos pequenos. Mas podem deixar sequelas graves quando ocorrem na infância e na adolescência. É por isso que pais e educadores precisam estar muito atentos aos limites. De acordo com a ONG Plan, organização que trabalha em defesa dos direitos da criança e do adolescente em setenta países, 58% das escolas brasileiras não informam os pais das vítimas e dos agressores quando identificam um caso. E 80% delas não punem os autores do abuso. "Ainda há muito que avançar, especialmente no que diz respeito à legislação", acredita a diretora, Anette Trompeter. Por força de uma lei municipal aprovada em 2011, a prefeitura criou um disque-denúncia e campanhas de prevenção. Dois anos se passaram e o quadro ainda é preocupante. A administração municipal não informa qual é o balanço do trabalho.

Indignados, alguns pais estão procurando reparação para seus filhos na Justiça. Em maio, o Colégio Cavalieri, no Castelo, foi condenado a pagar uma indenização de 10 000 reais a um ex-aluno do ensino médio. Os pais do estudante acusaram a escola de omissão quando o filho foi tachado de nerd por um dos colegas. O que motivou o processo foram ofensas contra o garoto publicadas em uma área restrita do site do Cavalieri, em 2008. "Do mesmo jeito que um banco tem de cuidar da segurança da sua página, a escola é responsável pela administração do seu site", afirma o advogado Éder Valeriano, que representa a família. "Houve negligência." A direção do colégio, que recorreu da decisão, afirma que tirou o conteúdo do ar e encaminhou o suposto autor, com seus pais, para a delegacia de crimes cibernéticos. Argumenta que mais não poderia fazer, pois a autoria da invasão virtual não foi comprovada. Advogada da escola, Alessandra Nunes diz ainda que as desavenças entre os dois colegas eram mútuas. "Não havia um bonzinho e um mauzinho, vítima e agressor", considera. "Existe uma banalização do assunto porque o bullying está na crista da onda." A primeira indenização por violência psicológica sofrida dentro de uma instituição de ensino de Belo Horizonte foi concedida, em 2010, em uma ação movida pelos pais de uma aluna que foi chamada de prostituta e interesseira por um colega de sala. Os pais do agressor foram condenados a pagar 8 000 reais. Envolver o Judiciário em casos de bullying ainda é uma postura controversa. Para muitos, isso é transferir à Justiça uma responsabilidade que é dos pais e dos educadores. Há quem tema uma explosão de processos nos tribunais, como Stanley Gusman, presidente da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais. Ele não nega os efeitos nefastos da prática, mas argumenta que dinheiro não resolve o problema. "Mais do que ser indenizado, o bullying precisa ser tratado", diz ele, coberto de razão.

Ela chegou a tomar remédio

"Quando nos mudamos da Pampulha para Lourdes, trocamos o colégio das crianças (uma de 5 e outra de 11 anos). Estava indo tudo bem até que as notas da mais velha passaram a cair. Chamamos a atenção dela e contratamos uma professora particular. Não adiantou, e os problemas começaram a aparecer em casa. Ela não comia nem dormia bem, irritava-se à toa e chorava muito. Não queria mais ir à escola. Achamos que era depressão, e ela até tomou medicamento. Só descobrimos do que se tratava depois que flagrei mensagens ofensivas das colegas no Facebook, falando sobre o cabelo e os hábitos dela. A escola não me recebeu bem, não aceitou que era bullying. Depois que procurei a diretoria para contar o que tinha visto na internet, minha filha foi ainda mais hostilizada. Ligava chorando durante o recreio. Não me deixaram falar diretamente com os professores, o que me fez decidir pela mudança. O que aconteceu com ela dói em toda a família."

Carla Piovan Utsch

Empresária

Apelido que ofende

"Meu filho de 6 anos sempre adorou a escola onde estuda desde o maternal. No primeiro dia de aula, ele me deu tchau e foi para a sala, feliz. No início deste ano, porém, começou a não querer ir à aula. Sempre arrumava desculpas bobas - falava, por exemplo, que havia perdido a borracha. Eu perguntava o que estava acontecendo, mas ele não dizia. Já fazia uma semana que não ia à escola quando conseguiu se abrir: contou que meninas mais velhas, da turma do irmão dele, viviam chamando-o por um apelido pejorativo. Fingiam que levavam susto quando o viam, como se tivessem medo dele. Nesse dia, chorei demais. Sofri por imaginar quanto ele sofreu sozinho, sem nos falar nada. Procurei os coordenadores da escola, que conversaram com a líder do grupinho. A escola tem uma política de não aceitar apelidos, e, depois que os avisei, meu filho não reclamou mais. Preferi não procurar os pais da menina, pois queria encerrar o assunto. Infelizmente, meu filho foi quem sofreu, mas entendo que a agressora também é uma criança."

Mariza de Paula Ferreira Silva

Psicóloga

Um quadro preocupante

35,3% Dos estudantes das redes pública e privada de BH declaram já ter sofrido bullying

58% Das escolas brasileiras não avisam os pais sobre os casos

80% Dos colégios não punem os autores das agressões

Por que acontece: falta de limites dentro de casa, permissividade excessiva com os filhos, exemplos de intolerância e preconceito dos adultos

Sinais em quem sofre: baixo rendimento escolar, falta de vontade de ir à aula, indisposição física na hora de sair de casa, alteração extrema de humor, choro, insônia e mudança de hábitos alimentares

Sinais em quem pratica: sentimento de superioridade em relação aos colegas, autoritarismo com pais e irmãos, posse de objetos ou dinheiro sem que a criança explique a origem

Como é a lei municipal: define que bullying é a prática de violência física ou psicológica repetitiva com o objetivo de intimidar e agredir a vítima. Aprovada em 2011, não tem caráter punitivo. Estabelece medidas que escolas e o poder público devem adotar, como a criação de um serviço de atendimento telefônico para receber denúncias (☎ 156, opção 6) e a promoção de atividades didáticas de orientação e prevenção pelos colégios

Fonte: IBGE, ONG Plan, Sinep-MG

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE