Crônica

Amores letais

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Kelli Lorraine tinha acabado de completar 15 anos. Quinze anos, eternidade que custou a passar, e finalmente chegara. Sentia-se pronta para a vida. O aniversário, com direito a um bolo da padaria e quinze velinhas brancas, trouxe uma dura decisão, adiada havia algum tempo: ficar livre da mãe, a tirana que lhe proibia namorar o Dedé ou curtir as festas com os amigos depois da meia-noite. Todo mundo começava a chegar na hora em que ela ia embora.

Kelli Lorraine não entendia a implicância da mãe contra o Dedé. Ele tinha 21 anos, era bonito, corpo malhado, ganhava uma baba de dinheiro, esbanjava roupa de marca e exibia o carro mais sinistro da comunidade, um Monza equipado com o mais potente som deste mundo. Ela o ouvia de longe, quando vinha vê-la. Se a mãe o encontrava, Dedé recebia apenas desaforo, grito e proibição de estacionar na frente da casa. Só tocava funk, música que ambos preferiam, naquela altura em que o corpo não resiste e começa a dançar sozinho. Uma maravilha desfilar a bordo de um baile ambulante, provocando inveja nas amigas. Ela conquistara o homem mais cobiçado de Belo Horizonte.

Podiam falar que o Dedé traficava, que tinha apagado dois concorrentes, que andava armado, mas ele era puro carinho e atenção. Deu-lhe uma camisa Lacoste, um perfume Dolce&Gabbana legítimo, até uma aliança de ouro, com nome gravado, para provar sua boa intenção. Além disso, negava todas as acusações. Em quem acreditar: naquele anjo que tudo fazia para agradá-la ou nas fofocas de gente maldosa e na ignorância da mãe, que nem escrever sabia e recebia um salário de miséria num empreguinho?

Kelli Lorraine deixou apenas um bilhete de despedida, pedindo à tirana para não procurá-la. Ela achava melhor dirigir o Monza do Dedé agora do que, mais tarde, um fogão em casa de família. Preferia o carinho do Dedé à xaropada da escola, matérias que ninguém entendia para que serviam, mais a cobrança sem fim dos professores. Sua paciência com o estudo também tinha terminado.

A mãe procurou a polícia e deu queixa de sequestro. A patrulha adiou o confronto com Dedé, receosa dos fuzis que o defendiam. A mulher não se deu por vencida e foi atrás de Kelli, que não quis abandonar o namorado, embora estivesse assustada: na primeira semana, sua casa recebeu cinco ataques dos rivais. A vizinhança testemunhou a troca de tiros com resignação. Todos temiam pedir ajuda e ser eliminados. O impasse se rompeu quando alguns corpos apareceram nas vielas.

A lua de mel de Kelli Lorraine durou dois meses. Enquanto os dois passeavam pela comunidade, o som no limite, Dedé caiu numa emboscada. Morreu com vários disparos à queima-roupa. Kelli levou três: um na perna, dois de raspão.

Ao sair do hospital, voltou para a casa da mãe, pediu-lhe perdão. Semanas mais tarde, conheceu o novo distribuidor de drogas na região, que a seduziu com uns olhos muito meigos, de quem precisa e dá carinho, e um BMW antigo, mas em estado de novo. Foi morar com ele. Arranca inveja das amigas com tênis Reebok, jeans Diesel, novas blusas Lacoste e camisetas Tommy Hilfiger, velhos sonhos de consumo. Perfuma-se com Prada. Diz que agora sente, de fato, pertencer ao mundo e prefere o risco de morrer amanhã a levar uma vida meia-boca.

A mãe desistiu de correr atrás da filha. Me contou que a entregou a Deus.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE