Crônica

Sobre a arte de precisar

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Tenho especial apreço pela expressão inglesa self-made man. Não tem o mesmo efeito dizer "homem que se fez por si só". Protegido por um escudo de ferro, seu significado não deixa dúvidas. Não me importa se é um agrupamento de letras vestindo uma ilusão. Palavras-cascas, transbordando prepotência e engano. Minha preferência por esse bloco compacto acontece a despeito de seu vazio. Sua eloquência me ilude. Mesmo que eu saiba que esse protótipo de super-homem não existe. Nem de supermulher, por mais forte que seja. O fato é que o termo me inspira, como música alta no fone de ouvido que não deixa ouvir o pensamento. Um som para não perder o ritmo da corrida.

Mas a vida me foi generosa: a tempo se ofereceu para me ajudar a entender que não se vive um dia sequer sem o outro. E que adianto ela me deu, enfim. Rascunhou o mapa do sentido.

Se esse pobre homem autossuficiente de fato existisse, que vida sem graça ele teria. Monólogos consecutivos num filme de um só personagem, sem coadjuvantes para lhe revelar as nuanças de personalidade. Pior que isso, uma alma de uma entediante coerência, previsível desde o acordar até a hora de dormir - embalada pelos bocejos dos espectadores.

A vida de quem precisa do outro tem uma paisagem arriscada, com matizes de nuvens cinzentas, pingos grossos de chuva, ipês-amarelos que depois secam - com espaço para um arco-íris ou outro. Já a do self-made man tem um céu azul sem nuvens de que nenhum filtro solar dá conta. Sujeito a variação alguma, pobre coitado.

Das paisagens que já percorri, algumas ficaram impressas na retina. A colega que me ofereceu teto quando me separei. O professor que me indicou para o primeiro estágio. O amigo que tirou a dor do meu filho. A amiga cujo talento é aparecer em casa nos dias de bagunça gritando por ordem. A multidão de mãos estendidas à minha volta quando o chão se abriu sob meus pés. A irmã que despencou de longe para me abraçar. A irmã que estava comigo na sala de parto. A amiga recente que veio de São Paulo para acudir meu luto. O amigo que embrulhou em caixa com laço as providenciais sessões de terapia. A mãe que me fez acreditar que eu tinha o direito de ser filha de novo. O marido que abre mão do que junta com sacrifício para que a paz não

me falte. E tantas outras imagens que valem a vida.

Saber pedir ajuda é exercitar nossa humilde condição humana. Receber ajuda, independentemente de ter pedido, é a resposta para a pergunta que insistimos em fazer em repetidos momentos da vida. Só não se alegra o teimoso, que vai se digladiar seguidamente contra a oportunidade que grita insistente diante de si.

Estamos todos juntos. E isso não tem preço.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE