Crônica

O bafômetro da solidão

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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Ela subia a Avenida Uruguai. Ao virar na Bandeirantes, deu de frente com a blitz. Examinou o enorme aparato policial. Várias viaturas, luzes faiscantes. Um motorista com as mãos sobre a cabeça. Porta-malas revistados. Um carro em cima do guincho. Sua adrenalina disparou. Será que a parariam? Pararam. Ela estacionou com dificuldade. As pernas tremiam.

— Seus documentos, por favor, senhora - disse o guarda.

— Não acredito!

— Não acredita o quê, senhora?

— Que fui parada numa blitz. É a primeira vez na minha vida.

— Todos dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Provavelmente será o seu caso. Daria para sair do veículo, por favor?

— O que o senhor quer?

— A senhora vai ter de soprar o bafômetro.

— Isso é incrível, seu guarda! Ai, que delícia! É meu sonho de consumo! Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Ao mesmo tempo, me param numa blitz e me pedem para soprar o bafômetro. Onde é que eu sopro, seu guarda?

— Aqui.

Ela soprou. A curiosidade a venceu:

— Quanto deu?

— Zero.

— Não é possível!

— Por que não é possível?

— Tomei garapa, depois bochechei com enxaguador bucal.

— Nada disso tem álcool, senhora.

— Como não tem? Garapa não faz cachaça? Enxaguador é puro álcool.

— A senhora pode ir embora. O resultado foi zero.

— Olha aqui, seu guarda, nunca levei um zero na minha vida, não há de ser agora, nessa minha idade. Se mamãe estivesse viva, me puxaria a orelha ao saber que levei zero. Viraria uma fera.

— Isso não é problema meu, senhora. Está liberada. Pode ir.

Ela notou um formulário na mão do policial.

— Para que serve esse papel, o senhor pode me dizer?

— É para os que se negam a usar o bafômetro. Devem preenchê-lo antes de ser encaminhados para exames.

— Me deixa preencher, por favor. Eu imploro. Adoraria preencher esses papéis.

— Não precisa. A senhora está limpa.

— Me deixa preencher, por favor.

— Não.

— Quem sabe, se eu der uma volta no quarteirão, o senhor me para de novo, eu me recuso a soprar e, aí, eu preencho o formulário?

— Por favor, vá embora!

— Quem sabe se eu comer uns bombons de licor? Tem uma chocolateria ali na frente. Quantos devo comer para ser acusada no bafômetro?

— Vá embora. Ou terei de prendê-la.

— Com algema e tudo? Meu Deus, três grandes notícias num único dia! Seria bom demais. Aqui estão meus braços. Pode algemar. Juro que não vou cobrir com a blusa, se tiver alguma televisão por aí. Faço questão de mostrar as algemas.

— Por que a senhora está bancando a engraçadinha? Ela franziu o rosto. Os olhos perderam a vivacidade. Arriou os ombros. A voz saiu com a dor de um gemido:

— Ah, moço, se você soubesse como a minha vida é vazia...

Entrou no carro, arrancou, passou diante de uma loja de vinhos, considerou tomar uma garrafa, voltar à blitz, descartou a hipótese, de tão idiota. Já bastava o papel ridículo que fizera, em busca de um acontecimento para esquentar o dia. Seguiu pela Bandeirantes. Nenhum carro circulava. Chegou em casa, trancou-se no apartamento e, uma vez mais, deixou-se prender pela solidão.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE