Patrimônio

Entre o barroco e o barranco, Ouro Preto enfrenta os desafios típicos de grandes cidades

Congestionamentos diários e ocupação irregular das encostas põe em risco seu valioso acervo histórico

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A Igreja de Santa Efigênia e o Morro da Queimada: construções irregulares tomam conta de área que abriga ruínas do século XVIII

As paredes que viram morrer os homens, / que viram fugir o ouro, / que viram finar-se o reino", como escreveu Carlos Drummond de Andrade no poema Morte das Casas de Ouro Preto, estão cada vez mais comprometidas. Capital de Minas Gerais até 1897, o município a 98 quilômetros de Belo Horizonte sofre com o peso da idade: 303 anos. E com as consequências de um crescimento que muito se assemelha ao das metrópoles, com trânsito excessivo de veículos e ocupações irregulares em morros que correm o risco de desmoronar. A cidade incrustada em terrenos íngremes - que determinam a característica colonial intimista, de ruas tortuosas e edificações coladas umas às outras - convive com a dificuldade de conciliar a vida urbana e a preservação do passado histórico. Esse dilema foi um dos temas do Encontro Nacional de Tecnologia em Conservação e Restauro, que reuniu por lá, entre 27 e 30 de agosto, representantes das três esferas do poder público, especialistas e estudantes. "Ouro Preto, além de ter acervo histórico, tem indústria, universidades e comércio pulsantes", diz a presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Jurema Machado. "É um privilégio, mas também um desafio."

O trânsito, por exemplo, tornou-se um problema tanto pelos congestionamentos frequentes nas ladeiras seculares como pelo impacto da vibração do calçamento nas construções. Nos últimos cinco anos, a frota ouro-pretana aumentou 48%, atingindo quase 30 000 veículos. O índice de crescimento é 8 pontos porcentuais maior que o registrado no mesmo período em Beagá, de acordo com o Departamento Nacional de Trânsito. Às vezes, o tráfego trava de tal modo no centro histórico que as pessoas preferem descer dos ônibus e seguir a pé. A prefeitura vem há anos tentando restringir a circulação de veículos e o estacionamento por lá, o que sempre esbarra na resistência dos moradores. "Temos de pagar rotativo para parar o carro na porta de nossas casas e lojas", reclama o empresário André Pierantoni.

Projetos para minimizar os efeitos da urbanização existem, mas andam a passos lentos. Em 2013, a prefeitura anunciou a escavação de uma rocha para a construção de um túnel de 270 metros de extensão, logo na entrada da cidade. A obra conectaria bairros periféricos, retirando parte do fluxo de veículos do centro histórico, mas ainda não saiu do papel. Há vários entraves, um deles com o Iphan. O instituto ainda não deu aprovação final ao projeto. Uma das questões em discussão é que o túnel ficará ao lado da Chácara Xavier, do século XVIII, uma edificação tombada que abrigou por mais de 100 anos a antiga Santa Casa da Misericórdia. Bem próximo do asfalto da Rua Padre Rolim, uma das vias mais movimentadas do município, o prédio está há oito anos cercado por tapumes para obras de restauração que nunca aconteceram. O plano era instalar ali o Centro de Artes e Afazeres de Ouro Preto.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A antiga sede da Santa Casa de Misericórdia: o edifício do século XVIII está cercado por tapumes há oito anos

Outra proposta que ainda não vingou é a construção de um centro administrativo fora do miolo histórico. "Hoje, a administração municipal está espalhada por mais de cinquenta lugares", diz o secretário de Cultura e Patrimônio, José Alberto Pinheiro. "A concentração em um único endereço permitirá economia e levará o movimento para um novo eixo." Segundo a prefeitura, os estudos estão sendo feitos, mas não há um cronograma definido. O centro administrativo é uma das onze intervenções que estavam previstas para 2013, em um plano batizado de Pro­­mova Ouro Preto. A maior parte delas não foi concretizada até agora. Para os engenheiros, arquitetos e restauradores reunidos na semana passada, falta às autoridades e aos moradores senso de urgência, o entendimento de que a morosidade das discussões agrava o risco para o patrimônio.

Os especialistas listam ações que deveriam ser tomadas imediatamente, como a criação de áreas de estacionamentos nas vias de acesso à cidade, a redução da velocidade permitida nas ruas do centro histórico e a implantação de um sistema de transporte público por vans (confira mais informações sobre as medidas no quadro). "O pavimento existente hoje, e que deve ser preservado, foi feito para veículos de tração animal", lembra Gilberto Fernandes, do Laboratório de Ferrovias e Asfalto da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Além do trânsito intenso de veículos em meio ao casario colonial, o que causa grande preocupação é o crescimento populacional de Ouro Preto. A cidade incrustada na montanha vai perdendo o seu verde para casas, muitas delas irregulares. Estima-se que o número de habitantes atual é 4,9% maior que o apurado no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010. No mesmo período, a região metropolitana de BH registrou alta bem menor, de 2,9%. "Daqui de casa, há pouco tempo, eu só via pasto", diz o ouro-pretano João Crisóstomo Ribeiro, de 78 anos. Agora, do banco da porta de sua residência, onde costuma se sentar todas as tardes, ele vê a Igreja de Santa Efigênia perdida entre as casinhas que avançam sobre o Morro da Queimada. Além de descaracterizarem a paisagem colonial, essas construções se equilibram em áreas consideradas de risco. Lonas estendidas sobre encostas não são suficientes para evitar desastres, como o deslizamento de terra que atingiu a rodoviária em 2012 e provocou a morte de uma pessoa. "Não adianta preservar igrejas isoladamente enquanto o seu entorno é ocupado de forma desorganizada, com obras que não conversam com a bagagem histórica", diz João Carlos de Oliveira, responsável técnico do Iphan em Ouro Preto. De acordo com o professor Romero César Gomes, do departamento de engenharia civil da Ufop, é preciso estimular o avanço da cidade para fora do núcleo histórico, em distritos como o de Cachoeira do Campo.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A Rua Conde de Bobadela, mais conhecida como Rua Direita, uma das principais do centro histórico: em horários de pico, o trânsito trava

A necessidade de resolver emergências, como deslizamentos de terra, faz o poder público descuidar da conservação do patrimônio tombado. Construída na metade do século XVIII, a Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, que guarda pinturas do mestre Manoel da Costa Ataíde e obras atribuídas a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é um dos exemplos. A encosta que fica ao lado de um dos muros começou a ceder. Trincas cortam a fachada do templo. No interior da igreja, o forro do teto foi retirado e toras de madeira improvisam uma nova sustentação. "O projeto de recuperação está pronto há dez anos, mas até agora não sabemos se ele sairá do papel", lamenta José de Paiva, integrante da irmandade que toma conta do lugar.

Ouro Preto conseguiu incluir quinze projetos de restauração no programa federal PAC das Cidades Históricas, que somam 36,5 milhões de reais em investimentos. Mas são obras pontuais. E a preservação não se resume à recuperação de alguns imóveis. "Todo o território faz parte do patrimônio", alerta Oliveira. A história povoada por heróis, mártires, artistas e poetas que tanto contribuíram para a construção da identidade brasileira não pode sucumbir diante dos dilemas do crescimento urbano. Nesse quebra-cabeça, a falta de uma pecinha - a urgência - pode pôr em risco um precioso tesouro nacional: a primeira cidade do país a ser considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Para salvar nossa antiga capital

Confira seis ações imediatas que engenheiros, arquitetos e restauradores recomendam

› Implantar bolsões de estacionamentos fora do centro histórico, de onde partiriam micro-ônibus e vans para atender a população.

› Criar um sistema alternativo de transporte turístico para percorrer o centro histórico, com paradas nas principais atrações.

› Reduzir os limites de velocidade e carga permitida para veículos nas vias de calçamento histórico.

› Promover campanhas de conscientização sobre a importância de as novas construções seguirem a linha colonial característica da cidade.

› Limitar as construções nas encostas da cidade e intensificar as fiscalizações para impedir ocupações irregulares.

› Estimular a criação de áreas residenciais, longe do centro histórico e fora das áreas de risco.

Congestionamento nas ladeiras

29 505 carros formam a atual frota ouro-pretana - média de um para cada 2,3 habitantes

48% foi o aumento do número de veículos da cidade nos últimos cinco anos

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE