Belo-horizontina Nota Dez

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Nome: Jocélia Brandão | Profissão: socióloga | Atitude transformadora: criou o Instituto Miriam Brandão de Apoio Social, para dar assistência a familiares de vítimas de crimes violentos e oferecer oficinas educativas a crianças carentes

Por: Guilherme Torres - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

"Eu não sinto mais ódio nem rancor pelo que fizeram com minha filha. Já perdoei"

Vítima de um crime que chocou o país, a socióloga Jocélia Brandão está prestes a inaugurar o instituto que leva o nome da filha, Miriam Brandão, que foi sequestrada, esquartejada e queimada aos 5 anos de idade, em dezembro de 1992. A ONG, que começará a funcionar no dia 27 deste mês, data do aniversário da menina, vai atuar em dois pilares: prevenção da violência e defesa de direitos constitucionais para crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. "É um sonho que venho carregando há dez anos e que agora está se concretizando", diz ela. "Quero fazer algo contra essa realidade assustadora e também agir para que as pessoas não se tornem instrumentos da violência." O instituto será sediado em um anexo da casa em que vive Jocélia, no bairro Dona Clara, a mesma de onde Miriam foi levada dormindo pelos sequestradores - uma funcionária da farmácia da família Brandão e dois comparsas.

Além da socióloga, outros onze colaboradores voluntários vão trabalhar ali, incluindo assistentes sociais, psicólogos e advogados. A ideia é oferecer assistência a famílias de vítimas de crimes violentos. "Queremos acompanhar, em mé­­dia, 25 casos por mês no período inicial da organização", explica Jocélia. Se­­gundo ela, outra forma de atuação do Instituto Miriam Brandão de Apoio Social será a realização de oficinas educativas em escolas públicas e comunidades carentes. "Fico chocada ao ver que jovens saem do ensino médio sem saber interpretar um texto", afirma. "Se não houver uma educação melhor, vamos continuar enxugando gelo com relação à cultura da violência." Jocélia gosta de dizer que o instituto é sua retribuição à solidariedade que recebeu de tantas pessoas. "Tenho uma dívida com a sociedade." Em 1994, ela e a novelista Gloria Perez, mãe da atriz assassinada Daniella Perez, lideraram uma campanha para recolher 1,5 milhão de assinaturas a fim de requerer a mudança no Código Penal que transformou o homicídio qualificado em crime hediondo e fez a pena máxima subir de doze para trinta anos de prisão. Hoje, os três condenados pelo assassinato de Miriam já estão em liberdade. "Peço a Deus que essas pessoas tenham se regenerado. Eu não sinto mais ódio nem rancor pelo que fizeram com minha filha. Já perdoei."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE