Belo-horizontino Nota Dez

Belo-horizontino Nota Dez

Nome: Vanilda de Jesus Pereira | Profissão: cuidadora de idosos | Atitude transformadora: ajudou a criar catorze bibliotecas comunitárias

Por: Thiago Alves - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

"As histórias dos livros têm o poder de levar as pessoas para outro mundo"

Aos 14 anos, Vanilda de Jesus Pereira já trabalhava como empregada doméstica em Belo Horizonte. Entre uma tarefa e outra, gostava de ler o jornal da patroa e auxiliar a filha dela com as tarefas escolares. Certa noite, depois de ajudar a menina a responder a um questionário sobre o romance A Escrava Isaura, do mineiro Bernardo Guimarães (1825-1884), Vanilda levou o livro para o quarto. "Faltavam apenas algumas páginas, e eu queria muito saber como terminava", lembra. Ela estava lendo na cama quando foi surpreendida pela dona da casa. Pensando que Vanilda havia roubado a edição da sua biblioteca, a patroa a demitiu naquela mesma noite. No dia seguinte, Vanilda foi à Livraria Amadeu, que funcionava na Galeria Ouvidor. "Comprei A Escrava Isaura e também Éramos Seis", conta, referindo-se ao romance de Maria José Dupré. Começava ali a paixão da moça pela literatura, que mudou não apenas sua vida, mas também a de milhares de jovens beneficiados pelas catorze bibliotecas comunitárias que ela ajudou a criar.

Desde aqueles primeiros títulos, Vanilda passou a destinar, religiosamente, 10% de seu salário para adquirir livros. "As histórias têm o poder de levar as pessoas para outro mundo." Aos 27 anos, já viúva e mãe de quatro filhos, sofreu um acidente vascular cerebral que a impediu de continuar trabalhando como doméstica. Precisou recolher papelão nas ruas para sustentar as crianças. Mesmo assim, não se esqueceu dos livros. No meio do lixo, ela sempre en­­contrava títulos em bom estado de conservação, os quais levava para casa. Em pouco tempo, as obras recolhidas não cabiam mais em seu casebre, e ela teve a ideia de abrir bibliotecas comunitárias em áreas carentes da cidade. Acabou ajudando a criar unidades também no interior de Minas e da Bahia. Hoje com 50 anos, a belo-horizontina atua como cuidadora de idosos. E sua casa simples, no bairro Paquetá, na região da Pampulha, onde todos os cômodos estão tomados por prateleiras cheias de obras dos mais variados estilos, permanece sempre de portas abertas para quem se interessar pela leitura.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE