Crônica

Bem vivido

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Minha amiga Dri migrou da Savassi para Nova Lima. Em compensação, minha amiga Kica acaba de trocar a região da Pampulha pelo bairro de Lourdes. Sofro a falta da primeira e ganho de volta a segunda - afetos antigos que cultivo como se fossem joias de família. Nossas profissões e estilos de vida diferentes nunca foram ameaça para os laços que já viraram nós - e que o tempo se encarrega de apertar.

Uma vez por ano, eu e Kica damos um jeito de jantar juntas. Múltiplos assuntos fazem a comida ficar em segundo plano. Degustamos gargalhadas. Ultimamente ela não tem cultivado muitas, pois acaba de perder a mãe. Quando alguém pergunta se está tudo bem, ela responde: "Bem mal". E tem esse direito, embora poucos o respeitem. "Vim te trazer um pouco de alegria", teria dito uma pessoa do seu relacionamento, tentando ajudar. Não há solidão maior que não ser compreendido.

O luto é como um parto. Vivê-lo é aprender a renascer - e nascer é exercício solitário. É preciso olhar o mundo novamente e re-conhecer-se diante dele. A morte é uma verdade disfarçada de absurdo.

Eu me lembro de vagar pela cidade como numa cena sem áudio. Olhava ao redor e me perguntava com que direito as pessoas sorriam, se dentro de mim as luzes estavam apagadas. Cada noite de sono era um bálsamo: finalmente a dor entrava em repouso até a manhã seguinte.

É assim até que a gente se acostume. A morte se repete muitas vezes. Ao acordarmos, está lá a morte de novo. A cada lembrança, outra morte. Até que em nós ela morra de fato - e isso demora.Quando meu filho nasceu, foi parecido. Só que era vida. Toda hora a vida de novo. A cada instante, olhar e ver: nasceu, é meu filho. Respira, mexe, chora, mama, é vida.

Cada momento tem seu tempo e sua intensidade. A despeito de um mundo que nos cobra sorrisos, é preciso dedicar-se ao luto até que chegue sua hora de ir embora. A perda pede recolhimento como um pós-operatório. Cada um descobre sua forma de pôr a dor para trabalhar em outra direção. E assim a ferida vira cicatriz - que de vez em quando inflama, é verdade, mas também nos fortalece.

A falta pode ser muito reveladora. Quem se vai é uma espécie de mártir, cuja lembrança traz inspiração a quem fica. Afetos ausentes lembram-me a urgência de atravessar a cidade até Nova Lima para visitar minha amiga Dri. E ensinam que fazer escolhas não precisa ser tão sofrido, nem carece do peso da certeza de ser para sempre. Nenhum de nós é para sempre.

Sim, as pessoas morrem. É preciso fazer algo grande ou algo que, de tão delicado, cresça.

Kica perdeu a mãe e vai me ganhar de volta. Vou poder retribuir o carinho que ela nunca me deixou faltar nas perdas que vivi. Que seja um luto bem curtido - e nem por isso sem direito a gargalhadas. Humor e morte podem ser amigos, como estão lado a lado com a vida. Longe ou perto, os três estão sempre se encontrando para sessões de choro ou de riso. Como eu, Dri e Kica.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE