Cidade

BH investe apenas 0,1% dos recursos contra as chuvas

Nos dois últimos anos, a capital gastou muito pouco dos valores destinados a obras de controle de enchentes e prevenção de desastres

Por: Glória Tupinambás - Atualizado em

Carlos Hauck/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Construção de bacia no Córrego São Francisco, na Pampulha: custo de 20 milhões de reais. Placa na Zona Sul (detalhe): medida educativa

As chuvas previstas para o resto do ano em Belo Horizonte devem superar a média histórica. Segundo o meteorologista Ruibran dos Reis, o volume de águas ao longo do mês de dezembro poderá ficar até 40% acima do que é comum nesta época. A notícia, que parece boa depois de um período tão longo de estiagem, na verdade é um sinal de alerta e preocupação. Nos últimos dois anos, a capital investiu apenas 0,1% dos 574,75 milhões de reais destinados pelo governo federal para obras de contenção de encostas, controle de enchentes e prevenção de desastres. De acordo com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, os recursos não foram usados por falta de cumprimento de requisitos básicos, como a apresentação de projetos, levantamento de custos e cronogramas. A lentidão pode fazer com que os alagamentos e deslizamentos de terra se repitam por mais um ano na vida dos belo-horizontinos.

A atuação do poder público municipal é alvo de duras críticas por parte de especialistas. Na avaliação de Frederico Correia Lima, presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de Minas Gerais (Ibape-MG), faltam obras estruturais de grande porte, enquanto os investimentos são diluídos em pequenas ações, como a instalação de placas educativas. "A cidade deu o primeiro passo fazendo o mapeamento das 82 áreas vulneráveis a inundação, mas, para mitigar os problemas, são necessárias intervenções de peso", diz. Lima ressalta que Belo Horizonte tem recursos disponíveis, a exemplo das verbas federais, mas peca na elaboração dos projetos. "Faltam técnicos e orçamento para os estudos preliminares de solo e vazão de água, que são fundamentais para a liberação do dinheiro."

Em sua defesa, a prefeitura alega que "tem empreendido todos os esforços necessários para o devido aproveitamento das linhas disponibilizadas pelo governo federal", mas que o cumprimento das exigências pode levar alguns meses. A administração argumenta que a meta é concluir esses projetos até o fim do mandato do atual prefeito, Marcio Lacerda, em 2016. E informa que sete projetos estão em andamento atualmente, com investimentos da ordem de 500 milhões de reais. Lembra também que 25 intervenções para prevenção de enchentes foram feitas ao longo dos últimos cinco anos.

Cansados de amargar prejuízos enquanto as obras não chegam, moradores e comerciantes de áreas de risco improvisam soluções. Na Avenida Francisco Sá, no bairro Prado, o medo dos alagamentos - que causaram muitos transtornos no início deste ano - obrigou o empresário Jarbas Almeida, dono de uma oficina mecânica, a instalar estruturas de metal na entrada da loja para conter a força das águas. "Paguei do meu próprio bolso para evitar mais problemas e coloquei, na fachada, uma chapa de ferro que se encaixa em um suporte vedado com borracha e não deixa a enxurrada inundar tudo", conta. A julgar pelos investimentos que não foram feitos pela prefeitura, o jeito é mesmo cada um se virar como pode e pedir a São Pedro que não castigue Belo Horizonte nesta temporada de chuvas.

Soluções em andamento

Confira as sete intervenções já iniciadas na capital

› Córrego da Serra (Centro-Sul): ampliação do canal

Investimento: R$ 5,05 milhões

› Avenida Várzea da Palma e Complexo do Índio (Venda Nova): implantação de bacia de contenção e sistema de drenagem e construção de unidades habitacionais

Investimento: R$ 238,2 milhões

› Córrego Santa Terezinha (Leste): tratamento de fundo de vale

Investimento: R$ 19,55 milhões

› Córrego São Francisco (Pampulha): implantação de bacia de contenção e desapropriações

Investimento: R$ 20 milhões

› Córrego Leitão (Centro-Sul): desassoreamento da Barragem Santa Lúcia

Investimento: R$ 50 milhões

› Córrego Bonsucesso (Barreiro): implantação de rede de esgoto, tratamento de fundo de vale e desapropriações

Investimento: R$ 71,12 milhões

› Córrego Túnel (Barreiro): canalização do curso d'água, implantação de barragens e mudanças no sistema viário

Investimento: R$ 63,15 milhões

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE