Crônica

Bicicletas no horizonte

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Tenho chegado atrasada aos meus compromissos. Ainda não me acostumei com o fato de que, para ir de um ponto a outro da cidade, gasto o dobro do tempo que levava antes, como se os destinos tivessem se deslocado, passando a ficar mais longínquos. O nome disso é congestionamento de trânsito, o que em Belo Horizonte não é mais privilégio da hora do rush nem dos dias úteis — se é que nessas circunstâncias nós podemos chamá-los de úteis. Mr. Rush tornou-se definitivamente um cidadão belo-horizontino que circula pela cidade vá­­rias vezes por dia.

A conta é fácil de fazer: tome-se uma cidade planejada, que há décadas já ul­­trapassou os limites da Ave­­nida do Contorno, e acrescente-se a ela, para compensar, todo tipo de falta de planejamento. A verticalização in­­­­discrimina­­da (para não di­­zer criminosa) coloca em uma mesma rua pilhas de pessoas que precisam se deslocar. O transporte coletivo rodoviário é ineficiente, insuficiente e causa sofrimento: longas esperas, ônibus lo­­tados e muitas áreas desprovidas do serviço. Some-se a isso o crédito cada vez mais acessível para a compra de um veículo zero-quilômetro — quando comprei um carro em sessenta meses sem entrada, meu cadastro foi aprovado on-line em menos de dois segundos, sem força de expressão. Para completar, eleve todos esses problemas ao cubo: nosso "sistema de metrô" percorre míseros 28 quilômetros da cidade.

Resultado: a cidade ganha mais 90 000 carros a cada ano. Em dezembro de 2002, a frota de veículos da Região Metropolitana de Belo Horizonte era de 1,08 milhão de unidades. No mesmo mês de 2011, esse número havia subido para 2,28 milhões — dos quais 71% são carros de passeio, 14% caminhões, 13% motos e 2% o restante. A proporção entre o aumento da frota de veículos e o da população a cada ano é a pior do país. E o número de ha­­bitantes por veículo caiu de 5,2 para 3,1. Basta olhar à sua volta para observar uma quantidade cada vez maior de carros para cinco, sete pessoas — geralmente sendo conduzidos por um solitário motorista.

A infraestrutura viária e os órgãos de controle do trânsito, obviamente, não cresceram nem evoluíram na mesma proporção. So­­mos grandes e pequenas ilhas tentando se deslocar num oceano lotado de muita coisa e pouca água. O velho hábito da classe média de dar ao filho um carro quando ele passa no vestibular não é mais sinônimo de que ele conseguirá se deslocar sozinho.

Para quem pode e quer deixar o carro em casa e circular de táxi, será ne­­cessário, além do din­­hei­­ro, ter disposição para es­­perar de vinte a trinta minutos até conseguir um — seja na rua, seja através dos serviços de radiotá­­xi. A ci­­dade com uma das maiores frotas de táxis da Amé­­rica Latina ficou no passado.

Pensei nisso no último engarrafamento que enfrentei, agora há pouco, em que uma inevitável e irritante frase me veio à cabeça: imagine na Copa. Do futebol, fui levada a outro esporte que parece ter sido enxergado como a grande solução para nossos problemas: o ciclismo, é claro! Como eu não havia pensado nisso antes? Ciclovias foram construídas aos montes, ao longo de grandes avenidas e ruas da parte central da cidade — aliás, por causa delas o espaço para os carros ficou ainda mais apertado. Ali, cidadãos dispostos, atléticos e ecológicos circulam livremente por esta cidade, cuja topografia é imensamente favorável. E acredito que devam fazer isso bem rápido, mas tão rápido que nem sequer os vemos. Devem estar modernas as bicicletas ultimamente.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE