Educação

Em busca de conhecimento, o número de mineiros que fazem intercâmbio cresce 25%

Além de adolescentes e jovens, crianças e adultos com mais de 45 anos engrossam as estatísticas

Por: Glória Tupinambás - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

À moda francesa

A paixão pela alta-costura e pelas novas tendências das passarelas levou Lígia Lapertosa a Paris. Durante quatro meses, em 2013, a belo-horizontina de 20 anos fez cursos de moda e de idioma na capital francesa. "O intercâmbio foi responsável por uma guinada na minha carreira", conta. De volta ao Brasil, Lígia abandonou a faculdade de relações públicas para iniciar outra: a de design de moda. "Foi a melhor experiência da minha vida", diz. "A viagem foi uma chance de aprender, crescer, me divertir e amadurecer." Dona de uma confecção de roupas, ela agora faz planos para novos programas de estudos no exterior. E já escolheu os próximos destinos: Milão e Nova York.

Apprendre, learn, imparare, lernen, foghlaim, . Não importa em que idioma - francês, inglês, italiano, alemão, irlandês ou mandarim. O desafio é aprender. Seja uma língua, uma habilidade artística, um esporte ou simplesmente outro jeito de viver. Em busca de experiências no exterior, os mineiros não têm poupado esforços - nem dinheiro - para embarcar na aventura do intercâmbio. O estado registrou aumento de 25% no número de viagens realizadas em 2013 em comparação com o ano anterior, de acordo com a Brazilian Educational and Language Travel Association (Belta), entidade que representa o segmento. O índice supera a média nacional de 20% verificada no ano passado, quando 202 127 brasileiros carimbaram o passaporte para participar de cursos, estágios e programas internacionais, movimentando quase 1,2 trilhão de dólares.

Uma das explicações para tal crescimento está na ampliação do perfil dos intercambistas. Por aqui, os pais vêm mandando os filhos ao exterior cada vez mais cedo. Agências especializadas agora oferecem opções à garotada a partir dos 8 anos de idade, em programas que aliam o ensino de um idioma ao lazer. De acordo com a empresa Student Travel Bureau (STB), as vendas de pacotes para o público infantil aumentam, em média, 5% ao ano em Belo Horizonte. A maior procura é pelos camps, uma espécie de colônia de férias em outro país. Além do contato com outra língua, a expectativa é que esses meninos conquistem - longe da barra da saia da mãe - disciplina e autonomia para administrar a própria vida, incluindo o dinheiro. "Os horizontes se abrem para eles", diz a gerente de cursos do STB, Marcia Mattos. "Essas experiências costumam determinar escolhas que serão feitas no futuro."

Filho caçula da advogada Carolina França Magalhães, o estudante Vitor fez seu primeiro intercâmbio em janeiro de 2013, aos 9 anos. Foi estudar inglês em Londres. Seu irmão, o primogênito Lucas, de 13, coleciona histórias de três programas - dois nos Estados Unidos e um na Inglaterra. "Confesso que dá um frio na barriga vê-los embarcar sozinhos e ainda tão novos, mas eles crescem muito e voltam para casa mais independentes", afirma Carolina. Com quatro intercâmbios no currículo, a advogada sabe por experiência própria como essas viagens podem influenciar na formação dos adolescentes. Como as expedições internacionais vêm se tornando mais comuns entre as famílias, as empresas especializadas se acostumaram a atender intercambistas assíduos, aqueles que voltam de uma temporada no exterior já dispostos a contratar a próxima. É o caso da estudante Fabiola El Bizri Portes, que fez o primeiro curso fora do país aos 19 anos, quando embarcou para a Itália a fim de concluir ali o ensino médio. Aos 23 anos, ela foi para Londres aprimorar o inglês. E agora, aos 26 anos, é aluna da graduação em línguas, mercados e culturas da Ásia, na Shenzhen University, no sul da China. "Cada viagem funciona como combustível para eu buscar novos destinos", diz Fabiola.

Os jovens ainda respondem pela maior fatia do mercado de intercâmbios. Segundo estatísticas da Belta, 73% do público que viajou para fazer cursos no exterior em 2013 tem entre 18 e 30 anos. Mas engana-se quem pensa que só os de pouca idade estão dispostos a encarar esse desafio. As vendas para pessoas com mais de 45 anos crescem em ritmo acelerado nas empresas do setor. Dados do STB em Belo Horizonte indicam que esse segmento apresentou, nos dois últimos anos, um aumento de 40%. Clientes mais maduros apostam nos programas internacionais como uma forma de melhorar a fluência em uma língua e aprimorar o currículo, mas buscam, ao mesmo tempo, experiências em áreas de interesse pessoal, como moda, gastronomia, artes ou dança. Outro segmento que vem ganhando destaque são os pacotes para famílias: pais e filhos ocupam parte do dia com estudos e têm tempo livre para se divertir juntos. A modalidade já representa cerca de 5% das vendas do STB na capital.

Os Bertholino são um exemplo dessa tendência. Entre 2010 e 2011, o empresário Henrique e sua mulher, Cira, mudaram-se para a cidade de Cesena, próxima à costa mediterrânea da Itália, para acompanhar os filhos Pedro, Vitória e Isabela, na época com 8, 9 e 12 anos, respectivamente. As crianças foram matriculadas em escola pública para cursar o ensino fundamental, enquanto os pais aperfeiçoavam o italiano e refinavam os conhecimentos sobre vinhos e queijos. "Vivenciamos a cultura do país no dia a dia durante um ano e, além do que aprendemos, tivemos a chance de fortalecer nossos laços de união", conta Cira. "Foi o melhor presente que meu marido nos deu." Poucos meses depois de retornar ao Brasil, o empresário morreu.

Os Estados Unidos são o país mais procurado pelos que buscam cursos no exterior, seguido pelo Canadá e pela Inglaterra (veja o quadro abaixo). Na Europa, também fazem sucesso Itália, Espanha e Irlanda. Mas, de acordo com a agência Central de Intercâmbio (CI), à medida que cresce o número de viajantes, surgem novos destinos na lista de interesses. Malta, África do Sul e China são tendências identificadas nos últimos anos. Outra novidade nesse mercado é o aumento das vendas para a classe C. "Há programas para todos os gostos, bolsos e idades", afirma a diretora educacional da CI, Tereza Fulfaro. Nas operadoras especializadas, há programas com preços a partir de 1 500 dólares (veja abaixo). "É uma questão de planejamento", diz Tereza. Antropóloga e professora do programa de pós-graduação em educação da PUC Minas, Sandra Pereira Tosta diz que os brasileiros entenderam que esse tipo de experiência vai além do aperfeiçoamento de um idioma. "O contato com culturas diferentes é um exercício de estranhamento que leva ao autoconhecimento", afirma. "Mas, no caso das crianças, deve-se avaliar sempre sua maturidade intelectual, cognitiva e afetiva antes de embarcá-las para outro país." São cuidados importantes para se fazer uma viagem inesquecível.

Pequenos viajantes

Na bagagem, prancha de surfe, skate e bola de futebol. No peito, o coração apertado de saudade da mãe. Os irmãos Lucas, de 13 anos, e Vitor Magalhães, de 10, começaram a fazer intercâmbios cedo. Vitor embarcou pela primeira vez no ano passado, para Londres. Levou com ele o primogênito da família, que já é experiente em viagens: tem três programas internacionais no currículo. "Sei que preciso me comportar bem fora de casa, porque não quero quebrar a relação de confiança com a minha mãe", afirma Lucas, cheio de maturidade. "Voltei diferente depois de dividir o quarto com um japonês, esquiar, praticar arvorismo e melhorar meu inglês", conta o caçula. A passagem para o próximo intercâmbio já está comprada: será em julho, para Malibu, nos Estados Unidos.

China, lá vou eu

"A grande herança que meus pais vão me deixar é o estudo." A frase de Fabiola El Bizri Portes resume o esforço da família para dar à moça uma educação internacional. "Somos de classe média e matamos um leão por dia, mas não desperdiçamos as chances de fazer intercâmbio." Depois de cursos na Itália e na Inglaterra, ela agora está na terceira experiência fora do Brasil. Como aluna da graduação em línguas, mercados e culturas da Ásia, na Shenzhen University, no sul da China, a belo-horizontina já venceu as barreiras do idioma local, o mandarim. Hoje, tenta se adaptar aos hábitos orientais. Na convivência diária com outros povos, extrai o que considera ser a principal lição das viagens. "Aprender a respeitar todas as culturas é o maior ganho de vida", diz.

Embarque maduro

Os filhos e o marido ficaram para trás. Durante um mês, a psicóloga Cláudia Siqueira Martins foi adotada por uma família em Victoria, no Canadá. Aos 49 anos, ela optou por um programa com hospedagem em casa de nativos. Já havia feito, na adolescência, um semestre de intercâmbio em Londres. No entanto, considera que agora, amadurecida, teve uma experiência mais marcante. "Foi uma viagem para dentro de mim", conta. "Aproveitei a cultura do país e convivi de maneira adulta com outras pessoas." Às vésperas de se aposentar, Cláudia planeja o próximo programa. Dessa vez, quer levar o marido, Gilson Carias. "Senti muita saudade quando estava fora", confessa.

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Sonho em família

A viagem começou com uma semana de pura diversão na Disney, na Flórida. Depois, livros e cadernos passaram a fazer parte da rotina na cidade de São Petersburgo. Para fazer aulas de inglês nos Estados Unidos, o juiz federal Renato Martins Prates e a psicóloga Rita Andreata decidiram se unir ao filho Samuel Andreata Prates e o programa acabou se tornando um intercâmbio em família. "Era um sonho de juventude que realizamos juntos", diz Rita. Entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, eles viveram uma rotina tipicamente americana, com casa e carro alugados na cidade. "As manhãs eram dedicadas ao estudo e tínhamos o restante do dia livre para passeios em parques, compras e museus", conta Prates.

Para se dar bem

Defina o objetivo da viagem. Quer aperfeiçoar o idioma? Ganhar fluência? Conciliar cursos com viagens de turismo? O programa ideal depende dos planos do viajante.

Planeje-se com antecedência. Comece a fazer uma poupança e informe-se sobre a necessidade de passaporte, vistos, seguro-saúde e outros documentos.

Procure uma operadora de intercâmbio sólida no mercado, converse com amigos que já viveram a experiência e use as informações disponíveis nas redes sociais a seu favor.

Se for se hospedar em casa de família, faça contato prévio com os anfitriões.

Certifique-se de que o curso escolhido é reconhecido pelas escolas do Brasil.

Informe-se bem sobre a cultura, o clima e a legislação do país eleito para evitar contratempos.

Antes de fechar o contrato, leia todas as cláusulas com atenção e desconfie de orçamentos muito fora da média do mercado.

Fontes: STB e CI

Para todos os gostos

Confira as principais modalidades de programas internacionais

1. IDIOMAS

Além dos cursos de línguas tradicionais, há os combinados com áreas de atuação profissional, como direito e administração, ou hobbies, a exemplo de surfe, gastronomia e artes. Quanto custa: a partir de 1 500 dólares.

2. HIGH SCHOOL

Permite que o aluno frequente uma escola do ensino médio por pelo menos um semestre e, normalmente, exige uma certificação de idiomas. Quanto custa: a partir de 4 000 dólares.

3. GRADUAÇÃO

Universidades do exterior conveniadas com instituições de ensino brasileiras oferecem opções para cursar um ou mais períodos do nível superior fora do país. É ideal para quem tem fluência no idioma local. Quanto custa: a partir de 3 100 dólares.

4. PÓS-GRADUAÇÃO

Cursos de extensão, pós ou MBA para incrementar o currículo. A maioria exige pelo menos dois anos de experiência no mercado e fluência na língua do país. Quanto custa: a partir de 6 000 dólares.

5. TRABALHO

O programa mais tradicional é o au pair, para cuidar de crianças em casas de família. Outra opção comum é o trabalho temporário no setor de entretenimento (como parques temáticos, estações de esqui e hotéis). Quanto custa: a partir de 1 500 dólares.

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE