Moda

Moda festa de Minas é destaque nos tapetes vermelhos do país

Com caimento preciso e ricos bordados, estilistas fazem sucesso além das divisas do estado

Por: Carolina Daher - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A diretora de criação Georgiana Mascarenhas e sua mãe, Helen Carvalho, da Barbara Bela: peças cheias de renda e brilhos que fazem sucesso há 35 anos

Herança da presença portuguesa no período colonial, o bordado manual sobrevive ao passar dos séculos e continua vivo na cultura de Minas Gerais. Atualíssimo, ele reina absoluto nos ateliês de alta-costura. Talvez essa seja a explicação para o sucesso das grifes belo-horizontinas no segmento chamado de moda festa. "Nossas roupas são objetos de desejo", orgulha-se Georgiana Mascarenhas, diretora de criação da marca Barbara Bela. A confecção fundada há 35 anos por sua mãe, Helen Carvalho, acaba de abrir um endereço em São Paulo, a primeira loja própria fora de Belo Horizonte. Há muito tempo, porém, faz sucesso por todo o país. Nos tapetes vermelhos dos eventos mais badalados é fácil encontrar famosas como as atrizes Juliana Paes, Nívea Stelmann e Ana Furtado desfilando as suas criações. "Até hoje, crio os desenhos e faço questão de bordar a peça que servirá de referência para as outras bordadeiras", conta Helen. Comercializadas em 110 pontos de venda no Brasil e outros quinze no exterior, as roupas da Barbara Bela têm preços que variam de 1 500 a 12 000 reais. "Apesar de tantos anos no mercado, nossos modelos continuam atuais."

Diretora criativa da Vivaz, Camila Faria diz que o estilo barroco, com seu rebuscamento, está impregnado no DNA dos estilistas mineiros. A confecção fundada em 1998 por sua mãe, Elisabeth Faria, vende vestidos de luxo a lojas multimarcas de vários países. Eles podem ser encontrados em mais de 150 pontos de venda no Brasil, na Espanha, no Oriente Médio e nos Estados Unidos. "Quem nos procura quer o exclusivo, o feito a mão." Os vestidos da coleção de verão da marca, com 180 modelos, custam a partir de 1 300 reais e podem chegar a 8 000 reais.

"O grande desafio é usar o bordado com refinamento. A roupa não pode ter cara de déjà vu", pondera o estilista Victor Dzenk, um dos queridinhos das globais. Sua grife é outra que extrapolou as fronteiras do país: Dzenk anda negociando em inglês, em francês e até em árabe. Há cinco anos suas criações podem ser encontradas em lojas de Dubai, Catar, Kuwait e Abu Dhabi. "No Oriente Médio as mulheres adoram a nossa moda porque também são culturalmente ligadas aos bordados." Por um vestido com a assinatura de Dzenk, é preciso desembolsar de 1 000 a 3 000 reais. Para quem quer uma peça exclusiva, a conta pode chegar a 10 000 reais. Canutilhos, paetês, vidrilhos, pedrarias, plumas e cristal Swarovski, vale tudo na moda festa. "Dá para ser costurado, eu uso", diz Daniel Corrêa, o estilista à frente da marca Mabel Magalhães. Algumas de suas peças podem levar dois meses para ficar prontas. "Quando a brasileira se veste para uma festa, quer ser o próprio evento", brinca Corrêa. Cliente da grife há onze anos, a socialite Bárbara Laucas concorda. "Tenho um vestido todo bordado que deve pesar mais de 7 quilos, parece uma joia." Bárbara já desembolsou 7 000 reais por um vestido Mabel Magalhães.

Outro paraíso dos brilhos na cidade fica em uma casa de 480 metros quadrados no Lourdes, onde está instalada a loja de Iris Clemência. A empresária lembra que há 24 anos, quando abriu seu negócio, a cidade era carente de lojas especializadas em moda festa. Hoje, ela fabrica cerca de 150 vestidos por mês, com preços entre 1 500 e 5 500 reais. "Pretinho básico, só se for todo bordado", brinca a advogada Grazielle Braz, cliente de Iris Clemência desde a adolescência. Com diferentes estilos para agradar a uma freguesia que vai desde as bem jovenzinhas até as senhoras, a grife é uma das que são lembradas pelas belo-horizontinas que querem arrasar em eventos como formatura e aniversário de 15 anos. Foi o caso da estudante Ana Luísa Ramos Lopes, que encontrou por lá o traje perfeito para receber o diploma. "Gosto dos cortes clássicos, mas não dispenso um brilho", admite a moça.

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(Foto: Redação VejaBH)

A empresária Iris Clemência (ao centro) com duas freguesas, Grazielle Braz (à esq.) e Ana Luísa Lopes (à dir.): nada de pretinho básico

Os estilistas garantem que as pedrarias caem bem em qualquer corte de vestido, dos curtinhos aos longos e decotados, e em mulheres de todas as idades. Só é preciso respeitar o biótipo e a personalidade de quem vai usar a roupa. "Não adianta vestir o que está na moda e não ter confiança no seu corpo", alerta Márcia Queiroz, da Printing. Desde sua criação, há dezoito anos, a marca é conhecida pelo preciosismo no acabamento. Seus vestidos corseletados, aqueles "construídos" para favorecer o corpo da cliente, fazem o maior sucesso e custam a partir de 900 reais. "Cintura marcada é mesmo fundamental", diz Patrícia Nascimento, a estilista que assina os famosos corseletes que dão uma aparência ainda mais fina à cinturinha de 58 centímetros da cantora sertaneja Paula Fernandes. Patrícia, que já está no mercado há 23 anos, cobra a partir de 4 900 reais por um vestido. A maior parte da sua produção, cerca de 70%, é vendida a clientes que moram longe de Minas. Algumas, bem longe mesmo. Patrícia exporta para a Austrália e tem uma loja própria em Johannesburgo, na África do Sul. A estilista vai ao continente africano de três em três meses para atender sua clientela de lá.

Apesar do volume pequeno de produção do segmento — foram 15 milhões de peças em 2011, apenas 2,34% de 596 milhões que se fabricaram em Minas Gerais no período —, o impacto no faturamento é significativo, por causa do elevado custo unitário. "São roupas reconhecidas pela qualidade e pelo design", afirma o presidente da Câmara da Indústria do Vestuário e Acessórios de Minas Gerais, Flávio Roscoe. Jornalista especializada em moda e autora de dois livros sobre o assunto, Silvana Holzmeister diz que a forma como os estilistas mineiros enxergam os desejos femininos e os traduzem em sofisticados vestidos explica o sucesso país afora. "Eles conseguem criar peças que agradam a mulheres de várias idades." Importante espaço de divulgação para as confecções daqui, a mostra Minas Trend Preview reunirá no Ex­­pominas, entre os dias 20 e 23, es­­tandes de 250 marcas, sendo 75 delas de alta-costura. "Os compradores de fora que vêm ao Minas Trend estão mesmo interessados é em roupa de festa", diz Marta Meireles, uma das coordenadoras do evento. Certamente não faltarão rendas e brilhos para encantá-los.

Ofício em extinção

O bordado, uma arte inerente à cultura mineira, não é mais transmitido de geração a geração como se via no passado. Os empresários das confecções de moda festa garantem que as bordadeiras estão em extinção por aqui. "É um ofício lindo, mas existe preconceito", explica Márcia Queiroz, da Printing. "Cansei de escutar mães falando que não querem ter filha costureira ou bordadeira, ao contrário do que vemos na Europa." Não há estatísticas sobre o número dessas profissionais no estado, mas as grifes comprovam na prática que a mão de obra especializada está cada vez mais escassa. Dona de um ateliê de bordado no Santa Lúcia, Mariângela Santana, mais conhecida como Nana, comanda uma equipe com mais de 100 profissionais e trabalha para pelo menos vinte grifes. Tem muito orgulho do que faz. "Meu nome não aparece no desfile, mas sei que sou parte da engrenagem para que aquela obra de arte possa existir."

Clientes famosas

Leona Cavalli aposta nas roupas de cintura marcada de Patrícia Nascimento

Letícia Spiller é uma das consumidoras fiéis de Victor Dzenk

Camila Pitanga gosta da riqueza de bordados da Vivaz

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE