Crônica

Caixas

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Nem 1 real de matéria-prima. Foi esse o investimento de Raquell Guimarães para confeccionar o inverno 2013 de sua grife, especializada em tricô e crochê manuais. Por quatro anos, Raquell guardou o que restou de sua produção. Ao ver que já tinha tudo, nada comprou: usou 100% dos resíduos do seu ateliê e nem 1 grama de fio a mais. Poupou o planeta de 1 tonelada de lixo e criou um belo e inusitado conjunto de peças.

Raquell recicla fios e pessoas: emprega detentos de um presídio de segurança máxima em Juiz de Fora.

Ao abrir a empresa, em 2008, sabia da escassez desse tipo de mão de obra. Decidiu ensinar a técnica milenar a quem quisesse e precisasse aprender uma profissão. Foi atrás de quem tinha o mais raro: tempo. Treinou quarenta presidiários e fez do Pavilhão 1 da Penitenciária Professor Ariosvaldo de Campos Pires o seu ateliê. É para lá que Raquell vai todos os dias, por livre e espontânea vontade. Cada peça é inteiramente tecida por uma só pessoa. Pronta, recebe em sua etiqueta o nome do autor e segue para algum lugar do mundo.

Dos 200 funcionários que já passaram pelo ateliê, nenhum reincidiu no crime. Milagre? Raquell chama de oportunidade.

A iniciativa dá vantagens fiscais à empresa. Já os detentos reduzem um dia de sua pena para cada três trabalhados. Ganham mais: desfocam o cotidiano pesado da penitenciária, reduzem sua ansiedade, aprendem uma técnica que tem valor de mercado em qualquer país e são mais bem remunerados do que seriam fora da cadeia. Quando libertos, têm grande chance de continuar na empresa.

"Paz é onde a sombra recebe a luz", diz Luiz Paulo Pacheco, gerente da Doisélles, que cumpre 128 anos de pena. Enquanto tece esperança, Pacheco talvez sinta a paz que não alcançamos aqui fora, cientes de que, ao contrário, a maioria dos presídios são fábricas de violência.

Dominados pelo medo, vamos levando a vida em caixas - casa, carro, estacionamento, elevador, escritório, shopping. Carceragens são as caixas que ignoramos, como se assim deixassem de existir.

Diríamos que Raquell pensou fora da caixa. Mas o que ela fez foi entrar. Levou a possibilidade de praticar a delicadeza e transformou o período de detenção num tempo para reconstruir a autoestima e a dignidade. De um depósito de pessoas, criou um celeiro de talentos.

Um produto Doisélles é exportado no mercado de luxo por um valor considerável. Mas quantas mercadorias de baixo preço custam a opressão de quem as fabrica?

Se o maior bem de um homem é a sua liberdade, quando privado dela, passa a ser o tempo o seu grande patrimônio. Dependendo da forma como for usado, ele será sua salvação ou sua maldição.

Dar a um indivíduo que errou a oportunidade de reflexão e remissão, para que saia dali melhor do que quando entrou

- não era essa a função de um presídio?

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE