Espiritualidade

A Estrada Real e seu caminho religioso, que abrange 37 cidades

Boa gastronomia, arte, história e, claro, espiritualidade fazem parte do circuito inspirado na rota de Santiago de Compostela

Por: Gloria Tupinambás - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O Santuário Nossa Senhora da Piedade: vista de nove cidades

Caeté (ponto de partida) Religião e natureza se fundem no topo da montanha, a 1 746 metros de altitude, e convidam os peregrinos a dar o primeiro passo do Caminho Religioso da Estrada Real. O Santuário Nossa Senhora da Piedade, espaço de devoção à padroeira de Minas, é o marco zero do roteiro que leva os fiéis até Aparecida (SP). Uma capela erguida em 1797, obras de arte atribuídas a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e o horizonte que descortina a impressionante vista de nove cidades são alguns dos atrativos no início da jornada. "A Serra da Piedade é um lugar de silêncio e contemplação que toca o coração das pessoas", diz o reitor do santuário, o padre Nédio Lacerda. Dica: orar aos pés da imagem protetora do Estado, esculpida por Aleijadinho, faz parte do ritual da missa das 15 horas, celebrada de segunda a sexta. Aos domingos, o atrativo é o encontro na Igreja Nova das Romarias, às 11 horas.

De padroeira a padroeira, uma estrada pavimentada pela fé, norteada pela cultura e cercada de tradições, belezas naturais e arte popular. Inspirado na rota de Santiago de Compostela - que atrai 300 000 turistas todos os anos para a peregrinação de 800 quilômetros entre a França e a cidade espanhola onde estaria o túmulo do apóstolo São Tiago -, o Caminho Religioso da Estrada Real (Crer) será lançado oficialmente em abril. Liga o Santuário Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, que guarda a imagem da protetora de Minas, ao município de Aparecida, em São Paulo, onde fica a basílica da padroeira do Brasil. VEJA BH percorreu o roteiro de 1 033 quilômetros (veja o mapa na pág. 35) entre as duas cidades e descobriu um pedaço do país permeado de espiritualidade, histórias, culinária variada, artesanato de fino trato e manifestações artísticas. A pé, a cavalo ou de bicicleta, o trajeto pelos 37 municípios que compõem a Estrada Real tem riquezas tão brilhantes quanto o ouro que fez o esplendor do barroco e movimentou a economia do período colonial.

O passo inicial do Crer foi dado no fim de 2013, com a instalação, em Caeté, da primeira das 1 700 placas de indicação do percurso. Nos próximos dois meses, a Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais deve concluir a sinalização do roteiro, com mapas, guias, pontos de apoio aos peregrinos e referências de atrações, hotéis e restaurantes, num investimento de 4 milhões de reais. A rota foi idealizada há quase uma década pelo economista Eberhard Hans Aichinger, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Estrada Real, e hoje é considerada uma das grandes apostas para o turismo regional durante a Copa do Mundo. "A natureza é o maior patrimônio do caminho, que tem a religiosidade como forte pano de fundo", diz Aichinger. "O mundo se materializou muito, e as pessoas buscam outros tipos de experiência." Quem se aventurar vai receber um passaporte para ser carimbado em dezenas de postos de controle ao longo ao percurso e, ao término da aventura, será agraciado com um diploma de peregrino. Confira a seguir algumas das muitas atrações da nossa trilha de fé.

Mariana (a 178 km)

Na Praça Minas Gerais estão dois ícones do barroco mineiro - o Santuário de Nossa Senhora do Carmo e a Igreja de São Francisco de Assis, ambos do fim do século XVIII. E, quando os olhos estiverem cansados de contemplar igrejas, renda-se à riqueza das artes plásticas da cidade. Imagens sacras entalhadas em madeira enfeitam ateliês e lojas, prontas para se tornar uma doce lembrança de viagem.

Dica: não deixe de visitar a Casa de Câmara e Cadeia, que tem uma exposição permanente de arte.

Catas Altas (a 125 km do início)

As montanhas emolduram o cenário cujo ponto alto é o Santuário do Caraça. Na Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, em estilo neogótico, e nas construções que serviram a um colégio de meninos e a um seminário no período de 1820 a 1968, o silêncio e a paz fazem aflorar a religiosidade. O calvário, com um imponente crucifixo e catorze capelinhas em memória à Paixão de Cristo, compõe o ambiente de meditação. Trilhas conduzem a cachoeiras, piscinas naturais, picos e mirantes. Ao cair da noite, a natureza envia outro presente: lobos-guarás aparecem para saciar a fome na entrada do santuário, sem se incomodar com a presença dos que visitam o refúgio de animais silvestres.

Dica: a antiga Casa de Hospedagem do santuário foi transformada na Pousada do Caraça, com diárias a partir de 173 reais. ☎ (31) 3837-2698.

Lagoa Dourada (a 412 km)

Tradicional, legítimo, autêntico, original, famoso, delicioso. Adjetivos batizam o rocambole que faz de Lagoa Dourada uma parada imperdível no Caminho Religioso da Estrada Real. Estrategicamente localizada a menos de 50 quilômetros da histórica Tiradentes, a cidade recebe os visitantes com mais de uma dezena de estabelecimentos especializados na guloseima. A produção começou na década de 50, quando o descendente de libaneses Miguel Youssef fundou a primeira casa, O Legítimo Rocambole, que atualmente chega a vender 800 unidades por dia.

Dica: o recheio de doce de leite é o campeão de pedidos, mas há mais de vinte opções no cardápio, com fatias a 4 reais. www.olegitimorocambole.com.br e ☎ (32) 3363-1538.

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Ladeiras históricas: patrimônio da humanidade Ouro Preto (a 189 km)

Se visitar igrejas barrocas, museus e casarões coloniais faz parte do roteiro óbvio e imperdível desta cidade, reconhecida como patrimônio mundial da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), deixe-se conquistar também pelo paladar. A rica gastronomia mineira pode ser experimentada em tradicionais restaurantes, espalhados pelas ladeiras e vielas históricas. Cafés, bistrôs e tabernas vão tornar o passeio ainda mais inesquecível.

Dica: desde a década de 70, o restaurante Casa do Ouvidor mantém a mesma receita de feijão­-tropeiro, com couve, lombo, linguiça, torresmo, ovo frito e arroz branco. ☎ (31) 3551-2141.

Carrancas (a 545 km)

Águas cristalinas convidam a um mergulho em Carrancas, polo de ecoturismo no Sul de Minas. Mais de trinta cachoeiras estão mapeadas na rota da Estrada Real, e as mais visitadas são a Esmeralda, no Complexo da Vargem Grande; a da Zilda, com a maior infraestrutura para o visitante; e a da Fumaça. Quem quiser fugir das multidões poderá se refugiar na Cachoeira das Bicas, envolta em mata nativa. Fãs de esportes radicais podem dar vazão ao espírito de aventura com a prática de montanhismo, voo livre ou trekking.

Dica: a Fazenda Hotel Engenho, um casarão colonial datado de 1750, recebe os hóspedes em catorze suítes. À noite, a atração é contemplar as estrelas ao som de uma antiga vitrola, de 1884. Diárias a 200 reais por casal. ☎ (35) 3327-1416.

Cruzília (a 616 km)

Terra do melhor queijo do Brasil - título conquistado cinco vezes consecutivas no Concurso Nacional de Produtos Lácteos -, Cruzília esbanja sofisticação e requinte na produção da delícia. Da imensa Cruzília Laticínios saem, diariamente, 4 toneladas de gouda, camembert, emmental, gorgonzola e provolone, entre outros tipos regionais que conquistam os mais exigentes paladares mundo afora. Na produção, um toque de arte é dado pelo sócio Luiz Sérgio de Almeida. "Trouxe música clássica para o dia a dia dos funcionários e decorei o laticínio com réplicas de quadros de Rembrandt", diz.

Dica: na Cruzília Laticínios, prove o queijo A Lenda, cuja receita foi encontrada num antigo cofre esquecido nos fundos da empresa. Custa 62 reais o quilo.

Passa Quatro (a 740 km)

As atrações de Passa Quatro - palco de combates militares durante a Revolução de 1932 - conduzem o visitante a uma viagem pela história. A bordo de uma maria-fumaça de 1929, é possível conhecer trechos da estrada de ferro inaugurada em 1884 por dom Pedro II e visitar o Túnel da Mantiqueira, onde mineiros e paulistas se enfrentaram na primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas. A última parada é na Estação Coronel Fulgêncio, próximo ao ponto conhecido como Garganta do Embaú, na divisa entre Minas e São Paulo, por onde passaram expedições de bandeirantes comandadas por Fernão Dias Paes Leme, no século XVII.

Dica: os passeios do Trem da Serra saem aos sábados, às 10 horas e às 14h30, e aos domingos, às 10 horas. ☎ (35) 3371-2167.

Guaratinguetá (a 808 km)

A cidade natal de Frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil, enche de religiosidade e fé o caminho de quem cruza a divisa entre Minas e São Paulo. Na sacristia das igrejas do município, milhares de pílulas são produzidas diariamente pelas mãos ágeis e habilidosas de voluntárias para ser distribuídas aos fiéis durante as novenas. Em cada minúsculo pedacinho de papel, vai enrolada uma oração em latim: "Post partum, Virgo, inviolata permansisti. Dei Genitrix, intercede pro nobis" - em português: "Após o parto, Virgem, permaneceste intacta. Mãe de Deus, intercedei por nós". Além do texto sagrado, a pílula leva consigo a devoção e as boas energias de experientes senhoras, como a aposentada Maria Isabel Koleski, de 81 anos.

Dica: na Catedral Santo Antônio, no Centro, Frei Galvão foi batizado e celebrou sua primeira missa.

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Santuário de Aparecida: devoção à imagem encontrada, em 1717, por pescadores

Aparecida (fim do percurso)

Ao fim do Caminho Religioso da Estrada Real estão a grandeza e a imponência do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, o segundo maior templo católico do mundo, atrás apenas da Basílica de São Pedro, no Vaticano. A Passarela da Fé conduz os fiéis da Matriz de Nossa Senhora Aparecida (chamada de Basílica Velha) ao santuário, que já recebeu a visita oficial de três papas desde a sua inauguração, na década de 80. Mais de 10 milhões de romeiros o visitam a cada ano. As manifestações de religiosidade e devoção são latentes na Capela das Velas, com decoração que remete à passagem bíblica da sarça ardente, e na Sala das Promessas.

Dica: com diárias a partir de 160 reais, o Web Hotel Aparecida tem quartos modernos e um bom restaurante. ☎ (12) 3104-3030.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE