Crônica

Caminhos de Minas

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Durante séculos, as pernas foram nosso grande meiode locomoção. Hoje, as rodas e as turbinas as substituíram. Com tanta comodidade à mão, muitos aposentaram os pés. Não sabem o que estão perdendo. Além de preservar a saúde, caminhar revela a diversidade do mundo. Por exemplo, esse vasto mundo das Minas Gerais.

Sou um caminhante apaixonado. Gosto do contato direto com o chão, o ar, o sol, a natureza. Gosto até da adrenalina de estar perdido num cafundó, sem rumo. A cada passo, sem que percebamos, nossos neurônios processam a vida, encontram soluções, eliminam falsos problemas. Minas Gerais é o endereço certo para caminhantes de todos os perfis. BH, por exemplo, possui setenta parques municipais, adequados para quem não deseja despender muita energia, porém aprecia belas trilhas. Em duas horas, a cabeça e o coração ficam arejados.

Se você prefere mais aventura, nossas serras são o destino perfeito. E como temos serras. Por exemplo, a da Mantiqueira. Atravessá-la entre Aiuruoca e Passa Quatro exige bastante esforço. Escalar seus pontos mais altos, como o Pico das Agulhas Negras, as Prateleiras ou o Marins, desgasta o corpo, mas o visual compensa.

Nosso caminho mais tradicional continua sendo a Estrada Real, sobretudo sua parte mais antiga, o Caminho Velho, que vai de Diamantina a Parati. Muita gente já a percorreu, de ponta a ponta, como as Caminhantes da Estrada Real, grupo só de mulheres. Virou moda, nos últimos anos, fazer o Caminho de Santiago, sobretudo a parte espanhola. Pois ele não se compara, em beleza e variedade visual, com a Estrada Real, que, de quebra, diz muito sobre nossa própria história.

Para os amantes de aventuras longas, há, ainda, os caminhos da Serra do Espinhaço que levam a cânions, cachoeiras e a montanhas que têm quase a idade do mundo, um gigantesco transatlântico de rocha que atravessa as Gerais, flutuando sobre as camadas mais profundas da Terra. A Serra da Canastra, com a nascente do São Francisco, capitaneia essa formação geológica.

Outra interessante opção é o Caminho da Luz, no Leste mineiro, que liga Tombos ao Pico da Bandeira, ao longo do qual se aprecia toda a diversidade geográfica de nosso Estado. Existem, em quase todo o percurso, pequenas pousadas para o descanso e o jantar. Atingir o Pico da Bandeira, no inverno, com a lua cheia, é uma experiência de gelar o corpo e a alma.

Para mim, o ponto alto do trekking em Minas foi uma noite de muitos relâmpagos no Pico do Inficionado, no Caraça, abrigado na pequena gruta existente lá em cima. Ali aprendi como e por que o homem primitivo criou os deuses a partir das forças da natureza. Teologia das cavernas.

Minas Gerais poderia ser a capital brasileira do trekking e atrair milhares de turistas estrangeiros, como fazem o Nepal, o Peru, a Argentina ou a Nova Zelândia. No entanto, resistimos a esse esporte mundial. Não apenas os moradores de BH, os do interior também. Faz alguns anos, no meio do Caparaó, encontrei um pequeno sitiante com os braços apoiados na porteira do curral, pitando um cigarrinho de palha. Ao passar por ele, mochila às costas, ao lado de vários companheiros, cedeu à curiosidade:

— Se mal lhe pergunte, moço, o que cês tão fazendo neste fim de mundo?

— Estamos caminhando - respondi.

— Caminhando à toa, por gosto?

— Isso.

— Eta falta do que fazer, hein?

Pois é. Caminhando se aprende e se apreende o vasto mundo das Minas Gerais.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE