Entrevista

''Carolina é um milagre''

Mãe da menina que nasceu com apenas 360 gramas, a psicóloga Alexandra Terzis fala sobre os cinco meses de luta pela vida da filha

Por: Ivana Moreira - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A faixa instalada na frente da casa dos avós diz tudo: "Carolina, você já é vencedora". A menina, que nasceu com inacreditáveis 27 centímetros e 360 gramas (altura de uma página desta revista e peso de uma latinha de refrigerante), é a menor prematura a sobreviver no país. Na quarta (16), a belo-horizontina Alexandra Terzis, de 32 anos, celebrará os seis meses da filha e os primeiros quinze dias de vida fora do hospital. Foram mais de cinco meses de luta na UTI do Vila da Serra, período em que o minúsculo bebê enfrentou cirurgia, transfusão de sangue, infecção... O laudo médico é gigantesco. É difícil ouvir o relato da psicóloga Alexandra sem se emocionar. A vitória da pequena Carolina é também a vitória de uma mãe que, apesar dos prognósticos alarmantes, não deixou de acreditar que conseguiria levar a filha para casa. Embora ainda respire com a ajuda de um aparelho, que foi carinhosamente apelidado de "o namorado da Carol", a menina passa bem. Como todo recém-nascido, adora um colinho. Sob os cuidados da mãe atenta, ela engordou quase meio quilo em apenas uma semana. Na última terça, dia da primeira consulta com o pediatra, pesava 3,8 quilos e media 50 centímetros. "Por um filho, a gente descobre uma força que nem sabia que tinha", diz Alexandra. Sem conseguir conter as lágrimas — hoje de alívio —, ela falou a VEJA BH sobre sua impressionante história.

Qual foi sua reação ao ser avisada de que o parto seria feito com apenas 21 semanas?

Quando a médica me disse que a Carolzinha teria de nascer, eu chorei. Mas não foi porque pensei nos riscos. Eu só pensei no lado bom, que veria a minha filha antes. Estava louca para vê-la. A médica me disse que ela era pequenininha, que poderia não sobreviver. Mas eu não estava entendendo muita coisa, estava passando muito mal, só tive consciência mesmo depois de cinco dias do nascimento. Foi quando a viu pela primeira vez? Como foi o primeiro encontro?

Ninguém me dizia como ela estava, eu só sabia que estava viva. Nesse dia me levaram em uma cadeira de rodas até a UTI. Quando eu a vi daquele tamanhozinho, chorei muito. Foi de medo. Eu me culpei. Por causa da minha pressão alta, ela estava daquele jeito. Estava toda entubada. A cabecinha era do tamanho de uma bolinha de sinuca. Eu não podia nem encostar nela. Fiquei muito abalada, não me deixaram vê-la de novo no dia seguinte. Tentei não criar a expectativa de que ela sobreviveria. Mas que mãe consegue não pensar no filho? Qual foi o momento mais difícil dos cinco meses de hospital?

Quando ela tinha uns 40 dias, me avisaram que ela não passaria daquela semana. O intestino parou de funcionar, estava necrosado. Se os médicos não fizessem nada e ela não voltasse a evacuar, morreria. Mas, se operassem, ela não resistiria à cirurgia. Diziam que era para me conformar, e eu só pensava que não podia perder a Carolina porque já a amava demais. E aí o próprio organismo abriu uma fístula, por onde os médicos puderam colocar um dreno. É Deus, não é?

E a melhor notícia?

Foi quando me falaram que poderia pegá-la no colo pela primeira vez. Passei quatro horas com a Carol grudada no meu peito feito um sapinho.

Houve algum momento em que perdeu as esperanças?

Mesmo quando eu estava descrente, chegava ao hospital e a via viva, lutando. Era ela quem me dava força. Qualquer telefonema era uma angústia, podia ser uma má notícia. Mas, certo dia, as notícias ruins pararam e ela começou a ficar bem. Foi em janeiro, quando ela tinha 2 meses. Levamos um padre lá na UTI para batizá-la.

Você acreditava que ela já estaria em casa no Dia da Mães?

Deixei de ter metas quando ela chegou aos 2 quilos e não recebeu alta, como eu esperava. Fui avisada de que ela sairia uma semana antes. Fiquei sem dormir, ansiosa, com medo de como seria cuidar dela sozinha, sem os médicos nem as enfermeiras em volta. Mas ter a Carolina em casa foi o melhor presente que eu poderia ganhar.

Hoje, alguma coisa ainda a aflige?

Tenho medo de gripe, porque isso pode levá-la de volta ao hospital. E eu não aguentaria se ela fosse tirada de mim novamente.

Você se preocupa com o risco de sequelas?

Isso não me preocupa. Se ela tiver alguma sequela, vou estar com ela, cuidando para que sofra o menos possível. Eu nunca preferi que ela morresse em vez de ter sequela. Nunca consegui entender quando as pessoas me diziam para pensar assim. O que eu quero é a Carol comigo.

O que você sonha para o futuro da Carolina?

Saúde em primeiro lugar. Que ela seja saudável e muito feliz. A Carol só tinha 10% de chance de sobreviver. É um milagre, não é? Deus fez isso por ela e por mim. Ela é o meu milagre.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE