Imprensa

Casa dos escritores mineiros, o Diário de Minas volta às bancas

Publicação centenária em que grandes nomes da literatura fizeram carreira vive sua quarta encarnação, por enquanto com periodicidade semanal

Por: Cedê Silva - Atualizado em

Arquivo Público Mineiro - Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa  - Divulgação
(Foto: Redação VejaBH)

Três momentos: uma rara edição 1, de 1º de junho de 1866, um exemplar de 1960 e um dos números recentes

Por volta das 9 horas de uma noite de março de 1921, um rapaz magro subiu as escadas do número 1210 da Rua da Bahia e entrou na redação do Diário de Minas. Tinha 18 anos - portanto, era pouco mais jovem que Belo Horizonte, para onde se mudara de Itabira. O rapaz cumprimentou o diretor do jornal e ofereceu uma resenha: "Se o senhor julgar publicável...". Foi embora sem ouvir a resposta. José Oswaldo de Araújo, o diretor, gostou muito. O rapaz, que logo começaria uma carreira no jornal, se chamava Carlos Drummond de Andrade. Não foi o único escritor conhecido a passar pelo Diário. Além dele, Pedro Nava, Emílio Moura e Cyro dos Anjos, entre outros, foram seus colaboradores.

O Diário de Minas voltou às bancas em agosto último, após quase vinte anos fora de circulação. É a sua quarta encarnação. A primeira se deu com a edição em Ouro Preto, no fim do século XIX. A segunda, aquela de Drummond, durou até 1931. O jornal voltou a circular em 1949, comprado pelo então prefeito Otacílio Negrão de Lima, para sua terceira e mais longeva fase. Passou por diversas mãos. No fim de 1994, o então candidato a governador Eduardo Azeredo (PSDB) acusou o Diário de calúnia, por divulgar fatos não comprovados envolvendo suposto desvio de verbas quando era prefeito da capital. Azeredo conseguiu que a Justiça impedisse sua circulação durante as eleições. "O jornal foi prejudicado na sua periodicidade, perdeu anunciantes e foi obrigado a fechar as portas", escreveu em 2008 Marco Aurélio Carone, que dirigia o Diário nos anos 90.

A iniciativa de ressuscitar o jornal é do advogado Heder Lafetá, que comprou 40% da marca do seu hoje sócio Breno Mendes. Ele não revela quanto investiu na empreitada. Por ora, a publicação, com tiragem anunciada de 25 000 exemplares, tem vinte páginas e é diário apenas no nome, pois passou a ter periodicidade semanal. "Mas o que me fascina mesmo é sua história", diz Lafetá. Ele quer captar 5,5 milhões de reais via Lei Rouanet para produzir um suplemento literário e um documentário que resgatem a trajetória do jornal. A julgar pelos nomes dos mineiros que escreveram em suas páginas, não faltarão histórias para contar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE