Cidade

Casas tombadas no Santo Antônio são invadidas por moradores de rua e usuários de drogas

Usados como cenário do filme O Menino Maluquinho, doze imóveis coloridos podem dar lugar a prédio de grande porte

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)
Os imóveis que serviram de cenário para o filme O Menino Maluquinho: destruição, sujeira e mau cheiro

Doze casinhas coloridas, construídas uma ao lado da outra entre as décadas de 30 e 40, remetem a uma antiga Belo Horizonte, quando era possível colher fruta no quintal e deixar crianças brincar na rua até a noite cair. Tombados pelo patrimônio municipal em 2007, esses imóveis na Rua Congonhas, no bairro Santo Antônio, foram invadidos, nos últimos meses, por moradores de rua e usuários de drogas — e estão sendo depredados. Muitos tiveram suas portas e janelas arrancadas, além de cozinhas e banheiros destruídos. É como se as residências, no quarteirão entre as ruas Santo Antônio do Monte e Leopoldina, não tivessem dono. Cenário do filme O Menino Maluquinho, baseado no livro do cartunista Ziraldo e dirigido por Helvécio Ratton, o conjunto dará lugar a um grande empreendimento imobiliário, que ainda depende de aprovação da prefeitura. Por ora, entretanto, é terra de ninguém.

Desde abril, bares e restaurantes que ocupavam os imóveis foram surpreendidos com notificações de cassação do alvará de localização e funcionamento. A proibição da atividade comercial nos doze endereços foi, segundo a Secretaria de Serviços Urbanos, consequência de um requerimento dos próprios donos. Existe um projeto arquitetônico, pré-aprovado pelo conselho do patrimônio municipal, para a construção de edifícios nos terrenos. Quem está por trás da empreitada é a Canopus Desenvolvimento Imobiliário, que tem um acordo com os proprietários das casas. A construtora, porém, não revela detalhes do plano. Por meio de nota, explica apenas que, caso o projeto de edificação no local seja aprovado definitivamente pela prefeitura, as construções serão adquiridas e recuperadas.

Enquanto persiste a indefinição sobre o destino das históricas residências, moradores e empresários da região sofrem com a destruição. "A gente chama a polícia, mas não adianta", diz a fisioterapeuta Maria Auxiliadora Damasceno, que há trinta anos é dona de uma academia na rua. "As pessoas estão com medo de andar por aqui." Depois de ser assaltada três vezes, a costureira Ana Graça Caixeta promoveu em seu ateliê, no último dia 11, um encontro com os vizinhos para discutir o problema. "Há muita sujeira, e o cheiro é terrível", afirma Ana, que, por duas vezes, contratou um serviço de caçamba para retirar o lixo que se acumulou na via.

O diretor Helvécio Ratton, que mora e trabalha no Santo Antônio, lamenta a situação. "Passo pela Congonhas quase todos os dias e fico triste ao ver o cenário cada vez pior", diz. Quando estava envolvido com a produção de O Menino Maluquinho, em 1995, o cineasta procurava um endereço que ainda retratasse uma Belo Horizonte de outros tempos. O pequeno trecho da Rua Congonhas, mais do que as ruas dos tradicionais bairros Santa Tereza e Floresta, resumia exatamente o que ele buscava. "A capital está se devorando para crescer e perdendo sua rica memória." ■

A residência de Guimarães Rosa

O médico e escritor foi um dos moradores ilustres da Rua Congonhas

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A construção na esquina com a Rua Leopoldina: endereço também do extinto Bar do Lulu

Natural de Cordisburgo, a 120 quilômetros de Belo Horizonte, o médico e escritor Guimarães Rosa mudou-se para a capital em 1918, aos 10 anos. Ele foi um dos moradores ilustres da Rua Congonhas, no Santo Antônio. O autor de Grande Sertão: Veredas vivia aqui quando publicou seu primeiro trabalho de ficção, o conto O Mistério de Highmore Hall, na revista O Cruzeiro. Sua casa, muitos anos mais tarde, foi também o endereço do extinto Bar do Lulu.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE