Arte

Cine Brasil exibe paineis 'Guerra' e 'Paz', obra-prima de Portinari, a partir de quarta (9)

Outros cinco prédios de BH guardam obras do pintor; confira

Por: Raíssa Pena - Atualizado em

Projeto Portinari  - Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O início da montagem de Guerra (acima, à esq.) e Paz (acima, à dir.): cada painel tem 14 metros de altura por 10 metros de largura e é dividido em catorze placas

Bruscamente se cala / e voa para nunca-mais / a mão infinita / a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari." Em 1962, nos comoventes versos de A Mão, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) se despediu do amigo pintor que morreu naquele ano. O poeta já havia percebido que o modernista nascido em Brodowski, no interior de São Paulo, em 1903, era um dos homens mais sensíveis e audazes de seu tempo. Felizmente, muitos outros brasileiros, famosos e anônimos, viriam a notar esse fato e a se emocionar diante da beleza e da contundente mensagem de Portinari. Dos cerca de 5 000 desenhos, gravuras e pinturas que ele produziu, sua obra-prima - segundo o público, a crítica e ele próprio - é a dupla de painéis Guerra e Paz. A partir de quarta (9), os belo-horizontinos poderão vê-los bem de perto, na inauguração do Cine Theatro Brasil Vallourec.

Para Portinari, a arte nunca deveria se distanciar de seu papel social. Influenciado pelas vanguardas europeias, seus trabalhos têm elementos surrealistas, como lágrimas humanas em formato de pedra, e cubistas, como a forma geometrizada de desenhar pessoas e animais. "Para além de tentar encaixá-lo em determinado movimento artístico ou analisar os aspectos técnicos das composições, é importante perceber que a força de seu trabalho está na escolha bela e ousada para a época de retratar as pessoas comuns", explica a professora de história da arte da UFMG Yacy-Ara Froner. Declaradamente de esquerda, Portinari chegou a se candidatar a deputado federal e a senador pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) na década de 40. Não se elegeu e, ainda por cima, sua militância política lhe tirou o direito de voar até Nova York para ver seus painéis monumentais montados na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1956.

Seu filho único, João Candido, revela que, antes de entender a importância artística e histórica do pai, tentou aprender o ofício. "No dia em que resolvi desenhar, ele apontou uma pilha de livros grossos sobre Michelangelo e falou que, quando eu conseguisse chegar àquele ponto, poderia procurá-lo de novo", lembra. O peso do sobrenome e o incentivo de um tio levaram João Candido a estudar matemática na Europa e a se afastar do convívio do pai. Só em 1978, em uma visita ao Museu Van Gogh, em Amsterdã, foi que ele pensou que o Brasil também tinha um artista que pintava com personalidade e convicção a identidade de seu país. No ano seguinte, a vontade de catalogar e dar acesso pleno à obra de seu pai o motivou a criar o Projeto Portinari e a voltar ao Brasil. "A obra dele é sobre o povo e para o povo, e eu senti que precisava fazê-lo mais presente na vida das pessoas", afirma.

Portinari recebeu encomendas de murais para importantes prédios públicos do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. Apesar de nunca ter realmente vivido por aqui, ele manteve estreita ligação com alguns mineiros famosos. Em 1938, foi convidado pelo pitanguiense Gustavo Capanema (1902-1998) e por seu chefe de gabinete, o itabirano Drummond, para pintar uma série de afrescos para o prédio do Ministério da Educação e Cultura, no Rio. Em 1956, ao lado do presidente e amigo diamantinense Juscelino Kubitschek (1902-1976), viu pela primeira e única vez Guerra e Paz montados antes de embarcarem para os Estados Unidos. Conta-se que, de tão emocionado, ele perdeu a fala por três dias. Ao saber que o prédio da ONU em Nova York entraria em reforma, João Candido começou as complexas negociações para trazer os painéis ao Brasil em 2010. No Rio de Janeiro, a obra passou por um cuidadoso processo de restauração, que, além de retirar poeiras e até pequenos respingos de produtos de limpeza, devolveu a potência cromática que havia se perdido por causa da intensa exposição à luz solar. Depois de passarem por Rio e São Paulo, as obras colossais chegam a BH. As visitas estão organizadas em sessões que apresentam um vídeo e alguns estudos prévios antes que as cortinas se abram e revelem os murais. Além das estrelas da exposição, em outros andares do prédio recém-reformado haverá desenhos preparatórios originais do mestre e releituras de sua obra por outros artistas. Por causa de suas dimensões (14 metros de altura por 10 metros de largura cada um), o novo Cine Theatro Brasil é o único espaço público da cidade capaz de abrigá-los totalmente erguidos. Segundo a diretora executiva do Projeto Guerra e Paz, Maria Duarte, esse não foi o único motivo. "Estamos muito felizes com o fato de a derradeira apresentação dos quadros no Brasil ser em um local tão querido para os mineiros", diz ela. Não se pode deixar de conhecê-los ao vivo.

Cine Theatro Brasil Vallourec.

Praça Sete, Centro, ☎ 3201-5211. → Terça a domingo. Sessões a cada hora, entre 10h e 19h. Grátis. Até 24 de novembro. A partir de quarta (9).

Com o pé direito

Os painéis são o cartão de visitas do Cine Brasil

Os murais de Portinari vão funcionar como uma ilustre desculpa para conhecer o prédio, acredita Alberto Camisassa, diretor da Associação Cine Theatro Brasil Vallourec, mantida pelo gigante da indústria de tubos de aço, responsável pelo novo espaço cultural. Ele espera visitantes atraídos pela exposição e outros que irão motivados pela saudade do velho edifício, inaugurado em 1932. "Eu queria devolver a casa à população oferecendo uma atração compatível com a dificuldade e a importância da reforma", conta Camisassa, que diz já ter visto de Os Trapalhões a Stallone no antigo cinema. "Um show musical, por exemplo, por melhor que fosse, iria durar no máximo três horas e atingir apenas a capacidade do teatro." Já a exposição Guerra e Paz, se acompanhar o sucesso das itinerâncias anteriores, pode levar dezenas de milhares de pessoas a conhecer a nova cara do Cine Brasil, que, segundo o diretor, nunca havia recebido uma mostra de arte.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE