Crônica

Sobre duas rodas

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Em dezembro passado, abor­­dei nesta coluna o caos do trânsito de BH, onde a frota de carros praticamente duplica a cada dez anos. Cumpri bem o trajeto do início ao meio do texto, mas derrapei na linha de chegada e levei um tombo feio. Depois de apresentar os ingredientes pa­­­­ra um trânsito caótico, critiquei as novas ciclovias, aparentemente pou­­co utilizadas, incomodada pe­­la impressão de que elas foram feitas apenas para dar uma satisfação ao cidadão belo-horizontino - e de que sua existência fará pelo trânsito o mesmo que buzinar no engarrafamento. Ironizei o uso das duas rodas como alternativa de transporte, acusando a difícil topografia da cidade.

Acabei por errar o alvo: a crítica atingiu seus usuários, e não as tais vias, gerando dezenas de respostas furiosas. Pela prontidão e veemência de suas reações, entendi que, mais que ciclovias, os ciclistas urbanos querem respeito - traduzido na simples atitude de serem compreendidos como parte integrante do trânsito.

Entre os críticos havia os radicais, que, no extremo oposto, cometiam o erro da generalização, rotulando todo motorista como grande inimigo ou assumindo a postura de salvadores do mundo só por escolherem a bicicleta. O caráter de uma pessoa não pode ser medido por seu meio de transporte, foi o que insisti em dizer. E dei continuidade ao diálogo com os que estavam interessados em uma discussão de alto nível.

Dois meses depois, cheguei pedalando à Praça da Estação, passando sobre a fonte luminosa para que a água me refrescasse da viagem. Ali, concentravam-se centenas de ciclistas para uma manifestação chamada "Massa crítica": um "pedalaço" que interfere na rotina da cidade para provocar a discussão sobre a mobilidade urbana. Fiz isso, claro, devidamente escoltada por um grupo que demonstrou incrível senso de coletividade, coisa que não encontramos no trânsito motorizado. E senti na pele a importância de haver ciclovias, segregadas, para a segurança de quem nelas transita. Principalmente em uma cidade hostil a esse meio de transporte, considerado aventureiro pelo senso comum.

Se meu texto equivocado acabou provocando uma discussão importante, participar do passeio na noite de 22 de fevereiro operou em mim uma mudança de que argumento algum seria capaz. Ao me colocar literalmente no lugar dos ciclistas, fui seduzida por uma nova forma de estar na cidade. Desprovida de meu escudo de vidro e lata, eu me inseri no co­­tidiano da metrópole: ouvi conversas, senti aromas, olhei nos olhos dos transeuntes. Abandonei a solidão do carro para finalmente experimentar o conceito do coletivo. As ruas se tornaram local de encontro, e não apenas de passagem de motoristas furiosos e impacientes.

A experiência acordou de um sono profundo a menina que apostava corridas de bicicleta com a prima, no Belvedere, no tempo em que o bairro ainda não havia sido murado pelos edifícios. Pedalar pelas ruas me rejuvenesceu e me encheu de vida. É fácil construir ciclovias. Difícil é reformar uma mentalidade que despreza seu papel e ainda cultua o tamanho dos carros como sinônimo de status e poder. As discussões e os quilômetros percorridos me fizeram finalmente entender: não se trata de convencer os motoristas a trocar seus carros por bicicletas. É utopia imaginar uma cidade inteira que a curto prazo adote meios não motorizados de transporte. Mas é questão de sobrevivência (e não só de legislação) lutar para que aqueles que fizeram tal opção tenham seu devido espaço e segurança. Por um motivo simples: cada um sobre duas rodas é um carro a menos nas ruas. O que, no final das contas, faz diferença no dia a dia de qualquer cidadão, esteja ele sobre um selim ou no banco de um carro de luxo. Questão de inteligência, e não de altruísmo.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE