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Confira os dez motivos que levaram Atlético e Cruzeiro ao topo do futebol nacional

As conquistas do Brasileirão e da Copa do Brasil por Cruzeiro e Atlético confirmam os clubes mineiros como os melhores do país na atualidade

Por: João Renato Faria - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin - Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Domingo, 23/11- Atletas do Cruzeiro comemoram o título do Campeonato Brasileiro, ganho com duas rodadas de antecedência Quarta-feira, 26/11 - Jogadores do Atlético erguem a taça da Copa do Brasil após vitória sobre seu arquirrival

O apito final na maior decisão já disputada entre Atlético e Cruzeiro, na última quarta (26), no Mineirão, provocou uma cena inédita. Enquanto o time alvinegro comemorava com seus torcedores o título de campeão da Copa do Brasil, depois de uma vitória por 1 a 0, a equipe celeste - que conquistou o tetracampeonato do Brasileirão no domingo (23) - recebia o aplauso dos seus fãs, que enchiam as arquibancadas. A cena inusitada, das duas torcidas festejando lado a lado, resume bem o que foi 2014 para os clubes mineiros. Galo e Raposa dominaram os torneios nacionais de futebol, com campanhas incríveis. Foram quatro conquistas ao longo do ano, duas para cada time. Os títulos do Mineiro e do Brasileirão ficaram com o Cruzeiro. Os da Recopa e da Copa do Brasil, com o Atlético. Esses troféus colocam os dois clubes no topo do futebol. VEJA BH ouviu cinco dos principais comentaristas esportivos do país para identificar as qualidades que garantiram posição de destaque aos arquirrivais. O comentarista Paulo Vinícius Coelho - o PVC, da ESPN - aponta a própria rivalidade entre os dois como um combustível a favor das conquistas. "Cada um quer ser melhor que o outro e não mede esforços para isso", afirma. "O resultado é que ambos ganham", analisa. Confira a seguir os dez motivos que transformaram Belo Horizonte na capital nacional do futebol.

1. A força das torcidas

O programa bem estruturado de sócio-torcedor é hoje um dos grandes trunfos do Cruzeiro: os 66 000 associados celestes superam a capacidade do Mineirão, de 62 000 pessoas. "Com a renda, o clube consegue ser menos dependente da televisão e manter o nível de investimento", afirma Juca Kfouri, colunista do jornal Folha de S.Paulo. O programa atleticano é bem menor, tem 33 000 associados. Mas o grito que vem das arquibancadas alvinegras é um combustível para o time dentro dos estádios. "O 'eu acredito' embala os jogadores desde a Libertadores", lembra o apresentador Milton Neves, da Band. "A torcida do Atlético é a mais apaixonada do país."

2. O poder estrangeiro

Na história de Atlético e Cruzeiro, há craques estrangeiros que nunca serão esquecidos pelas torcidas, como o goleiro uruguaio Mazurkievski, que brilhou no clube alvinegro, e o lateral esquerdo Sorín, no lado celeste. Na atual temporada, cada um dos clubes tem jogadores que fizeram a diferença. Sob o comando de Levir Culpi, o argentino Jesús Dátolo foi um excelente armador para o Galo. Já o boliviano Marcelo Moreno se tornou um dos principais goleadores da Raposa. É o vice-artilheiro do Brasileirão, com catorze gols.

3. Os técnicos

O abraço entre Levir Culpi, do Atlético, e Marcelo Oliveira, do Cruzeiro, antes da partida de quarta (26), deixou claro que a rivalidade só existe dentro de campo. Os dois são amigos desde 2006, quando Culpi comandou o Galo e Oliveira era responsável pelas categorias de base do alvinegro. Por causa do passado no Atlético, parte dos torcedores da Raposa reclamou da contratação de Oliveira. "Ele provou que entende de futebol e fez um trabalho de garimpar talentos ao buscar jogadores como Ricardo Goulart e Nilton, que ainda eram promessas", diz Juca Kfouri. Levir Culpi também teve de enfrentar desconfiança quando assumiu o Galo, em abril, depois de seis anos no Japão. "Achei que ele estava desatualizado, mas vem dando uma aula de competência e modernidade, com medidas como abolir a concentração", afirma Jaeci Carvalho, colunista do jornal Estado de Minas.

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

4. A manutenção do elenco

Antes conhecido como um clube "vendedor", o Cruzeiro não perdeu nenhum dos titulares do escrete campeão em 2013. Não só manteve a equipe como contratou reforços estratégicos, como o zagueiro Manoel e o atacante Marcelo Moreno. "É o único time do país que tem dezenove titulares", afirma Milton Neves. Para o comentarista Cadu Doné, da rádio Itatiaia, o mérito da manutenção do elenco é da diretoria. "O Cruzeiro conta com jogadores fortes em todas as posições. Segurar essa turma não é fácil." Já o Galo perdeu sua estrela maior, o meia Ronaldinho Gaúcho, vendeu o atacante Bernard e dispensou os atacantes Jô e André, além do lateral Emerson Conceição, por indisciplina. Mesmo assim, conservou boa parte da equipe. "No passado, o Atlético dispensava e contratava times inteiros", observa Doné. "Agora, vem mantendo uma espinha dorsal, com os mesmos nomes, dando aos atletas tempo para jogar juntos."

5. Os goleadores

O "faro de gol" do armador celeste Ricardo Goulart foi fundamental na conquista do Brasileirão. Mesmo não sendo atacante, o jogador marcou quinze tentos e disputa a artilharia do campeonato com Fred, do Fluminense, e Henrique, do Palmeiras. "Ele é um jogador de muito talento, que alia qualidade técnica com lances decisivos", diz Cadu Doné. Se os gols de Goulart pavimentaram o caminho para o título da Raposa, foi o atacante Luan que garantiu a Copa do Brasil para o Galo. "O Luan desequilibrou em todas as partidas que jogou", diz Jaeci Carvalho. Contra Palmeiras, Corinthians, Flamengo e no primeiro jogo contra a Raposa, o jogador, chamado carinhosamente de maluquinho pela torcida, marcou cinco gols fundamentais. Na finalíssima da competição, o "doidinho" saiu ainda no primeiro tempo, contundido. Mas a dor na perna passou assim que o apito final confirmou o título.

6. A identificação com os estádios

Com o Mineirão e o Independência em reforma, Cruzeiro e Atlético passaram dois anos, entre 2010 e 2012, mandando seus jogos na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas, a 70 quilômetros da capital. Em 2011, os dois times fizeram péssimas campanhas, que quase resultaram em rebaixamento no Brasileirão. A reabertura do estádio do Horto e do Gigante da Pampulha é apontada como essencial para a boa fase dos dois clubes, que transformaram as arenas em verdadeiros caldeirões. "É uma enrascada jogar em Beagá", diz PVC. "Os times vão até a cidade para tentar evitar a derrota ou, pelo menos, perder de pouco." O Galo só foi suplantado em quatrio partidas no Independência e o Cruzeiro, em cinco no Mineirão. Para Juca Kfouri, a arena da Pampulha desbancou o Maracanã, o Morumbi e o Pacaembu como o principal estádio do país. "O Mineirão hoje é o grande palco do futebol nacional, onde são conquistados os títulos."

7. Os craques que fazem a diferença

Foi dos pés de dois craques - o meia Éverton Ribeiro e o atacante Diego Tardelli - que saíram os gols que garantiram os títulos do Campeonato Brasileiro, para o Cruzeiro, e da Copa do Brasil, para o Atlético. Decisivos dentro de campo, eles assumiram a posição de ídolo dos clubes. "O Éverton Ribeiro era totalmente desconhecido e virou o cérebro da equipe celeste", comenta Juca Kfouri, sobre o meia da Raposa. "Ele faz de tudo em campo: dribla, mata no peito, chuta, dá chapéu e, principalmente, marca golaços", elogia Jaeci Carvalho. Já Tardelli é o último remanescente do quarteto ofensivo vencedor da Libertadores em 2013, que tinha ainda Bernard, Jô e Ronaldinho Gaúcho. "Depois da saída dos três, ele passou a render ainda mais, assumiu a responsabilidade", diz Carvalho. Na Copa do Brasil, Tardelli ajudou na armação de jogadas fundamentais, mas acabou marcando só um gol: o da final contra o Cruzeiro. Foi o suficiente para garantir a taça.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

8. Os goleiros salvadores

Até mesmo atleticanos ateus são devotos de São Victor. O goleiro, "canonizado" pelos torcedores depois de fazer defesas espetaculares na conquista da Copa Libertadores em 2013, tornou-se sinônimo de segurança no gol alvinegro. Na Copa do Brasil, ele cumpriu outra cota de milagres, garantindo a classificação para a final. Já o arqueiro Fábio - o jogador que mais vestiu a camisa do Cruzeiro - é unanimidade entre os torcedores celestes, não só por importantes defesas, mas também por sua liderança dentro e fora de campo. "O Victor e o Fábio são, há muito tempo, os dois melhores goleiros do Brasil", afirma Jaeci Carvalho. "O Fábio é injustiçado na seleção. O Victor, pelo menos, já foi lembrado."

9. Os melhores CTs do país

"O ex-presidente Felício Brandi foi um visionário ao criar a primeira Toca da Raposa", diz Milton Neves. Nos anos 60, o então mandatário investiu em um centro de treinamento para o Cruzeiro, acreditando que a qualidade da infraestrutura seria estratégica para o desenvolvimento do clube. E ele tinha razão. A Toca da Raposa II (acima, à dir.), inaugurada em 2002, com vários campos, academia, espaço médico e hotel, é um padrão copiado por vários clubes. Seu arquirrival não quis ficar para trás. A Cidade do Galo, que começou a ser erguida nos anos 80, na gestão de Elias Kalil, pai do atual presidente, Alexandre Kalil, só foi concluída em 2003. As obras foram demoradas, mas não deixaram a desejar: o CT foi apontado como um dos cinco melhores do mundo pelo canal francês de televisão Eurosport.

10. A qualidade das categorias de base

Jogadores que atuaram como juniores em temporadas passadas brilharam em ambos os times. Do lado celeste, o lateral direito Mayke desbancou o veterano Ceará e se firmou na posição. O volante Lucas Silva foi outro que sobressaiu - e já vem recebendo sondagem de clubes europeus. Pelos alvinegros, os grandes destaques foram o atacante Carlos, que assumiu a titularidade com a saída de Jô, e o zagueiro Jemerson, que cumpriu com louvor a complicada missão de substituir o capitão Réver, contundido. "Os grandes times do passado eram todos feitos em casa", lembra Jaeci Carvalho. "Agora, depois de muito tempo, estamos vendo veteranos trazidos de

outros clubes ao lado de meninos que se identificam com os escudos desde cedo."

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Fonte: VEJA BELO HORIZONTE