Páscoa

Conheça os belo-horizontinos que produzem os chocolates mais gostosos da cidade o ano inteiro

Deliciosos e artesanais, doces contam com receitas de família e esmero da seleção de ingredientes

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Cacau da Bahia, manteiga belga, recheios feitos com o tradicional doce de leite ou com a refinada pasta de avelã importada. Fabricantes de chocolate de Belo Horizonte oferecem, com surpreendentes sabores e formatos, delícias de dar água na boca não só na Páscoa. Eles começaram pequenos e se firmaram no mercado com receitas de família e também inovações requintadas. Essa gente não quer competir com os grandes, mas conquistar clientes que buscam produtos artesanais e finos, não encontrados nas prateleiras dos supermercados. Por encomenda, podem fazer ovos gigantescos, como o de 25 quilos da Lalka (2 395 reais).

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), as vendas do chamado chocolate gourmet cresceram 20% no ano passado em comparação com 2011, quase o do­­bro do que foi alcançado pelos industrializados. "Estamos ven­­do uma expansão significativa desses pro­­dutos diferenciados, com embalagens maravilhosas", diz o vice-presidente da Abicab, Ubiracy Fonseca. O nicho representa apenas 2% do total comercializado no país, mas a expectativa é que essa fatia de mercado fique cada vez mais grossa. Segundo estudiosos dos hábitos de consumo, o chocolate, caracterizado como guloseima entre os anos 70 e 80, passou a ser visto como sinônimo de energia na década de 90. Desde 2000, porém, é alimento e prazer. Uma pesquisa realizada pelo Ibope mostrou que 67% dos belo-horizontinos o consomem regularmente, o que justifica o aumento do número de casas especializadas por aqui. Confira nesta e nas próximas páginas histórias de seis estabelecimentos que se tornaram referência na cidade quando o assunto é chocolate gourmet - Confiserie du Chocolat, Fany Bombons, Frau Bondan, Lalka, Mole Antonelliana e Qoy. Juntos, eles transformaram 19 toneladas de chocolate em produtos para esta Páscoa.

Receita que espantou a crise financeira

Durante a adolescência, nos anos 80, as irmãs Andréa e Flávia Falci foram obrigadas a lidar com a crise financeira dos pais. Para ajudar nas despesas, começaram a fazer chocolate em casa para vender na escola Zilah Frota, no Mangabeiras, endereço dos bem-nascidos da cidade. Para agradar ao exigente paladar dos colegas, tiveram de investir na qualidade dos produtos. "Fizemos cursinhos e aperfeiçoamos receitas de nossa família, que é italiana", conta Andréa. Durante a universidade, decidiram se tornar empreendedoras. "Minha mãe cedeu a cozinha da confecção de roupas e biquínis que tinha. Em pouco tempo, ocupamos todo o espaço", lembra Flávia. Em 1998, elas criaram a marca Doce Cacau, que, em 2010, passou a se chamar Qoy para não ser confundida com a paulista Cacau Show. Hoje, as irmãs têm duas lojas próprias e uma rede com dez franquias. Ainda neste ano abrirão unidades em São Paulo, Espírito Santo e Goiás. "O chocolate tem de ser especial porque está presente nos melhores momentos da vida das pessoas, seja na Páscoa, na comemoração do aniversário ou no pedido de casamento", resume Flávia.

Sem esquecer a tradição italiana

Quando Lorena Cozac Tammaro se dedicava somente à sua marca, a Lolie Chocolates, já era cliente fiel da doceria Mole Antonelliana, fundada pelo italiano Claudio Gotero em 1976. Em 2008, ao decidir voltar à região de Piemonte, Gotero ofereceu o negócio e as receitas à família dela, na confiança de que a tradição seria mantida. Depois que o acordo foi fechado, a jovem chef confeiteira repaginou o estabelecimento e, além das tentações que sempre estiveram na vitrine, adicionou algumas outras aprendidas mundo afora, incluindo ovos de Páscoa e a colomba trufada. "Sou muito exigente com a qualidade: não usamos conservantes, e os produtos, depois de três dias de exposição, são retirados", afirma Lorena. O entra e sai de clientes que frequentam o endereço há várias décadas é constante. "Muitos profissionais de sucesso, que vinham aqui quando eram estudantes, dizem que sempre se lembram do cheiro da Mole", conta.

Para o orgulho da vovó

A história de Paula Bondan não soará estranha para quem já leu o livro Comer, Rezar e Amar, da americana Liz Gilbert, ou assistiu ao filme baseado na obra. Depois de ficar viúva, a designer de joias viajou para a Itália, onde passou mais de um ano - residiu em Florença, na Toscana. De lá, foi conhecer o mundo. Na volta para casa, trouxe na bagagem muita experiência e algumas receitas. Inspirada na avó alemã Frau Bondan - que morava no Rio Grande do Sul e sempre lhe mandava delícias -, ela resolveu apostar na gastronomia. "Dei o nome dela à loja porque, além de gostosos, meus produtos são feitos com carinho e minuciosamente embrulhados, como os dela", conta. O primeiro endereço foi aberto em Lourdes, em 2003. O segundo, no Shopping Pátio Savassi, em 2010. "Hoje tenho clientes que levam meus chocolates para o exterior", afirma. Entre os produtos mais vendidos estão os que contêm café e o gemma à cachaça, uma adaptação de um doce suíço. "O biscoito com lavanda que aprendi com monges do sul da França também é um sucesso", diz, orgulhosa.

Até o lacinho é de chocolate

Após dez anos à frente do Mon Buffet, a empresária Cynthia Géo resolveu dedicar-se àquilo de que mais gostava: chocolate. Em 2002, fundou a marca Confiserie du Chocolat. Cinco anos mais tarde, abriu as portas da primeira loja, no Santo Antônio. Lá, além de vender suas criações, promove degustações para quem busca itens personalizados. O chocolate belga Callebaut é a principal matéria-prima da confeitaria de Cynthia, que fez cursos em Nova York e Paris. Suas delícias marcam presença nas mesas de doces das celebrações mais requintadas da cidade. "Transformei chocolate em lembrancinhas de nascimento, batizado, festa de 15 anos, casamento e outras datas especiais", conta ela, que diz ter herdado da avó italiana Giovaninna a paixão pela culinária. Para esta Páscoa, a doceira criou ovos decorados.

A torta das crianças virou recheio de ovo

No início dos anos 80, Fany era a senhora Balabram, o sobrenome do marido, Moysés. Hoje, ele é tratado por "seu Fany", tamanho o reconhecimento da mulher, que empresta seu nome à tradicional doceria. A história começou em 1983, quando a construtora da família passou por uma crise e Fany resolveu fazer bombons para incrementar a renda. Cinco anos depois, o casal abriu uma loja no imóvel onde ainda mora, no Mangabeiras. "Não tínhamos ar-condicionado e, por isso, trabalhávamos de madrugada para o chocolate aguentar o calor", conta a doceira, hoje com 73 anos. Enquanto alguns fabricantes quadruplicam a produção na Páscoa, a Fany Bombons não faz mais que o dobro. "É o que conseguimos produzir mantendo a qualidade de sempre", explica a dona. A deliciosa torta de chocolate que ela costumava fazer para os quatro filhos é hoje o carro-chefe de vendas e, neste ano, a pedido dos clientes, virou recheio de ovos.

Da Polônia para BH

Na Polônia, Lalka significa boneca. Em Belo Horizonte, porém, é sinônimo de balas e chocolate. Em 1908, o polonês Henryk Grochowski, fugindo da invasão russa, desembarcou no Rio de Janeiro. Durante uma festa da colônia, realizada em uma mineradora de ouro em Nova Lima, conheceu sua futura mulher, a também polonesa Helena, e se mudou para cá. Abriu uma vendinha em 1925, dentro de um abrigo de bonde da Avenida Afonso Pena. Duas décadas depois, ele tinha exclusividade para vender guloseimas nos cinemas da capital. Morreu em 1951. Em 1975, seu filho, Estanislau, inaugurou, enfim, a loja da Savassi, hoje uma das nove em funcionamento. Com 87 anos, Estanislau ainda ajuda a embalar os ovos de Páscoa. "É uma felicidade ser de uma família que nasceu e foi criada dentro de uma fábrica de balas e chocolates", diz o neto Roberto, um dos herdeiros no comando do negócio. Para celebrar os 88 anos da Lalka, trufas - que podem custar até 2 reais - estão sendo vendidas a 88 centavos. "Assim, mais gente pode provar um chocolate diferenciado", diz.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE