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Coronel da PM Cláudia Romualdo é a primeira mulher a assumir o policiamento de BH

À frente do policiamento de BH, a militar diz que é possível ser durona e também feminina

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A coronel Cláudia na Avenida Raja Gabaglia, no São Bento: promessa de pulso firme para garantir a segurança na capital

Quando a advogada Mietta Santiago conseguiu uma sentença judicial que lhe dava o direito de votar, em 1928, inspirou seu amigo Carlos Drummond de Andrade a escrever um poema. "Mulher votando? / Mulher, quem sabe, chefe da nação? / O escândalo abafa a Mantiqueira, / faz tremerem os trilhos da Central / e acende no bairro Funcionários, / melhor: na cidade inteira funcionária, / a suspeita de que Minas endoideceu", diz um trecho da poesia. Apesar de todas as conquistas femininas que viriam nas oito décadas seguintes - incluindo a eleição da belo-horizontina Dilma Rousseff para a Presidência da República -, talvez o poeta itabirano ainda se espantasse ao ver uma mulher assumir o Comando do Policiamento da Capital. Aos 45 anos, a coronel Cláudia Romualdo é a primeira a ocupar o cargo, com a responsabilidade de garantir a segurança dos 2,5 milhões de moradores da cidade. Com sua pistola calibre 40 sempre na cintura, ela não deixa dúvida de que é durona o bastante para liderar 5 474 policiais (5 166 homens e 308 mulheres). E garante que não é preciso abrir mão da feminilidade para se tornar a mulher mais poderosa da Polícia Militar de Minas Gerais. Em nenhuma hipótese Cláudia sai de casa sem passar seus cremes, o batom cor-de-rosa e o perfume Dolce & Gabbana. "Meu dia começa com um banho seguido de outro banho, o de hidratante", conta a vaidosa coronel.

Para cumprir seu ritual de cuidados pessoais, levanta-se cedo, às 6 horas da manhã. De banho tomado e já vestida com a farda, liga o walkie-talkie da polícia e sintoniza o rádio da cozinha na Itatiaia. Acompanha as primeiras ocorrências e notícias do dia enquanto faz seu desjejum: café preto, iogurte com granola, pão e requeijão light. "Não sei quando acharei tempo para fazer atividade física e, como a família tem histórico de colesterol alto, procuro controlar a alimentação", afirma. Não chega a ser um sacrifício. Embora se considere uma cozinheira de mão-cheia de sobremesas e se orgulhe do pudim de leite que faz, Cláudia não dá bola para doces e chocolates, como boa parte das mulheres. "Sou bem saudável, adoro uma salada." Ela também não gosta de bebida alcoólica e só de vez em quando toma uma ou duas taças de vinho. Depois do café da manhã, faz sua maquiagem: base para esconder as olheiras e uma espinha aqui, outra ali, lápis de olho e batom. Ela gosta de brincos e anéis, mas sua mania são os relógios. Tem uma coleção com dezesseis deles. "Gosto dos robustos e à prova d'água", diz. Completamente trajada, com o colete à prova de bala e o coldre onde fica presa sua arma, ela segue para o "quarto de estudos". Lá, a espírita praticante se desconecta do mundo para a leitura de um salmo da Bíblia e um capítulo do livro Palavras de Vida Eterna, de Francisco Cândido Xavier. "A prece é a última coisa que faço antes de sair para o trabalho", conta. "Depois que tranco a porta, não sei o que vai acontecer." E não sabe mesmo. Na última segunda (4), quando VEJA BH acompanhou sua rotina, a previsão era que estivesse de volta a sua casa por volta das 20 horas. Mas, às 22h30, ainda se preparava para acompanhar uma ronda no Aglomerado da Serra, o maior complexo de favelas da capital. Só depois dessa missão é que daria por encerrado o expediente.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Café da manhã frugal para manter os 65 quilos e maquiagem antes de sair para o trabalho: vaidade feminina

O Q.G. da coronel fica em um belo edifício tombado na Praça Rio Branco, no Centro, onde está a sede da Região Integrada de Segurança Pública (Risp Capital). Nem sempre, porém, ela sai de seu apartamento, no Prado, e segue diretamente para o gabinete. Não é raro parar pelo caminho a fim de acompanhar alguma operação. "Gosto de estar no chão, ver as minhas viaturas e como se comportam os meus soldados", explica. Quem já trabalhou com Cláudia confirma o costume. "Quando você pensa em ir para um local, ela já está lá seguindo seu feeling operacional", afirma o tenente-coronel José Carlos Felício, que esteve ao seu lado nos últimos três anos, período em que comandou a 3ª Região, área que abrange 22 municípios da Grande BH, entre eles Santa Luzia e Vespasiano. "Se precisar pegar o touro à unha, não tem fraqueza com ela não", garante Felício. Os criminosos que já cruzaram com Cláudia também sabem disso. "Bandido nunca tirou onda comigo", diz ela. Sua arma mais poderosa? "A palavra", responde. "Em situação de risco iminente, a pistola fica engatilhada em minha mão, mas nunca precisei disparar na direção de alguém."

Se os subordinados têm críticas a seu estilo, não revelam. Quando entrevistados sobre defeitos da nova chefe, os policiais desconversam. "Quem é que vai falar mal da coronel?", indaga um deles. Cláudia garante que jamais foi vítima de preconceito dentro da corporação, mas confessa que não consegue se livrar da sensação de estar sendo testada o tempo todo pelo fato de ser mulher. Na segunda-feira, o sentimento se repetiu. Ela teve sua primeira reunião com os nove comandantes dos batalhões da capital - todos homens -, seus subordinados diretos. O encontro, que deveria durar três horas, se estendeu por mais três. "Nossa, como ela fala!", desabafou um dos presentes. As estatísticas exigem ações rápidas. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), o número de registros de crimes violentos em Belo Horizonte cresceu 12% no primeiro bimestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, atingindo 4 473 casos - uma média de 75 por dia. Conter os roubos a caixas eletrônicos e assaltos a residência, controlar a criminalidade que cresce no Aglomerado da Serra e enfrentar a epidemia do crack na capital estão entre os primeiros desafios. A nova comandante quer conhecer a realidade de cada região para estabelecer metas de curto, médio e longo prazo. "Vamos trabalhar 24 horas por dia para que tenhamos uma cidade tranquila para viver", prometeu ela em sua ampla sala, onde chama atenção a galeria de fotos dos 24 ex-comandantes. "Os infratores podem re­­ver suas escolhas. Não permitiremos o crime e vamos trabalhar incansavelmente para prender quem ousar cometê-lo."

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A primeira reunião com os comandantes dos batalhões, na última segunda (4), com duração de seis horas: fama de faladeira

Coronel desde setembro de 2011, a belo-horizontina ocupa hoje a quarta posição na hierarquia da Polícia Militar - acima dela estão apenas o chefe do Estado-Maior, o chefe de gabinete militar e o comandante-geral. A posição ficou vaga depois que o coronel Rogério Andrade, após um ano no cargo, pediu transferência para a reserva. "Levei 27 anos para chegar até aqui", resume Cláudia, que decidiu ainda menina seguir a carreira militar. Filha mais velha do tenente-coronel Antônio Romualdo e da professora Maria José, ela tinha 12 anos quando viu a primeira turma feminina treinando na Academia de Polícia. "Olhei para o pelotão fardado e pensei: é isso que eu quero ser." Oito anos depois, a moça - que, com 1,62 metro, se considerava baixinha e temia ser reprovada nos testes - concluiria o curso de formação de oficiais. Para a militar, que também é formada em direito pela UFMG, o policiamento da capital não é o primeiro desafio espinhoso. Entre as responsabilidades que assumiu anteriormente está o comando do Batalhão de Missões Especiais, a "tropa de elite" da corporação, hoje chamada de Rotam. "É um orgulho ver que aquela menina que defendia os irmãos e não gostava de injustiça é hoje a comandante do policiamento da capital", diz o pai coruja. Segundo a mãe, Cláudia sempre foi uma garota precoce. "Aos 8 meses ela desapareceu do berço, e fiquei desesperada até ver que estava sentadinha do lado de fora", lembra. Maria José jura que sua filha já falava palavras inteiras antes de completar 1 ano. Fama de faladeira ela tem até hoje. Pelo menos é o que se comenta nos corredores da sede do comando. Cláudia não se preocupa em demorar com cada interlocutor e dá canseira naqueles que a aguardam. Mas deixa a porta da sala aberta para quem se arrisca a esperar. Faz questão de atender todos com bom humor, mesmo que já seja tarde da noite.

Tempo ela só não tem para namoros. "Ainda não dei a sorte de encontrar um companheiro que conseguisse conviver com o ritmo de vida que eu tenho", afirma. "Meus namorados não tiveram paciência de ficar comigo." A coronel, porém, não perdeu a esperança de encontrar um príncipe encantado generoso, que não se incomode com sua longa jornada de trabalho. "Sozinha, sou uma pessoa 100% feliz. Vou me tornar 200% feliz quando encontrar uma pessoa para dividir o coração." Quem disse que uma comandante não pode ser romântica como qualquer mulher? Cláudia é. E também é manteiga derretida. Chega a chorar com propagandas de televisão. Recentemente, não conseguiu se controlar ao testemunhar a morte de um companheiro de farda, o soldado Marcelo Martins, durante a perseguição ao chefe de uma quadrilha em Santa Luzia. A entrevista, concedida aos prantos, no local do crime, foi repetida à exaustão nos programas policiais das emissoras de televisão. "Vida de policial tem muitos momentos bons, mas também outros dificílimos como esse", resigna-se, com a voz embargada, a coronel Cláudia. Nas mãos dessa mulher destemida, durona, vaidosa e emotiva está a segurança de todos os belo-horizontinos.

Rápida no gatilho

Idade: 45 anos

Tempo de carreira: 27 anos

Estado civil: solteira

Altura: 1,62 metro

Peso: 65 quilos

Religião: espírita

Livro: Paulo e Estêvão, de Francisco Cândido Xavier

Filme: Ike - O Dia D, do diretor americano Robert Harmon, sobre o maior ataque militar da II Guerra

Série de TV: a de investigação criminal CSI

Novela: jura que não assiste

Não faltam na bolsa: a agenda e o batom (de preferência cor-de-rosa)

Música: calma, como a dos cantores Djavan e Enya

Clube de coração: "Polícia Militar Futebol Clube"

Mulheres que admira: a mãe, Maria José, e a ministra do STF Cármen Lúcia Rocha

Felicidade: "Sou 100% feliz. Serei 200% quando encontrar com quem dividir o coração"

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE