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Criador do projeto Sempre um Papo, Afonso Borges coleciona boas histórias com personalidades da cultura brasileira

O evento literário, considerado um dos mais importantes da capital, será levado a onze cidades do interior

Por: André Nigri - Atualizado em

Carlos Hauck/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Borges em sua casa, no Santo Antônio: neste semestre, ele levará o Sempre um Papo a onze cidades do interior

N a noite de 12 de dezembro de 1987, um moço magrinho de 25 anos estava sentado em uma mesa do Cabaré Mineiro, um bar na Rua Gonçalves Dias, empunhando um microfone. Em outra mesa estavam Hélio Pellegrino e Fernando Sabino, divertindo-se à beça com suas lembranças de Belo Horizonte. O jovem era Afonso Borges, estudante de jornalismo, músico, poeta, criador e condutor de um evento que começava a entrar no calendário cultural de Beagá. A história do Sempre um Papo começou a ser escrita em setembro de 1986, com o lançamento do livro de contos Aquário Negro, de Frei Betto. Nestes 28 anos, a ideia daquele estudante amealhou números impressionantes. O projeto já percorreu trinta cidades dentro e fora de Minas, arrastando um público de mais de 1,5 milhão de pessoas a aproximadamente 5 000 eventos. Na terça (5), a jornalista e escritora Miriam Leitão lançou dois livros aqui e Borges deu a largada para uma série de 25 encontros que ocorrerão em onze cidades do interior do estado neste semestre. Além das estatísticas, o hoje cinquentão gestor cultural, cronista do jornal Hoje em Dia e comentarista da rádio CBN, casado com a produtora cultural Tatyana Rubim e pai de três filhas, coleciona histórias saborosas com escritores de várias gerações.

Arquivo Sempre um Papo
(Foto: Redação VejaBH)

Nesse time de autores com os quais ele conviveu, contam-se nomes como José Saramago, Jô Soares, Raduan Nassar, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Carlos Heitor Cony, entre milhares de outros. No dia seguinte àquela célebre noite em que Fernando Sabino e Hélio Pellegrino conversavam animadamente sobre suas reminiscências da capital mineira, Afonso visitou os dois no hotel Othon Palace. Hélio estava acompanhado de sua última mulher, a escritora e colunista de VEJA Lya Luft. O poeta e psicanalista conhecido pela grandiloquência retórica apontava para a companheira o Viaduto Santa Tereza, cujos arcos, quando jovens, ele e os amigos literatos costumavam escalar durante a madrugada. Lya não conseguia enxergar a edificação. Com a paciência esgotada, Pellegrino pegou uma blusa vermelha dela, desceu até a rua e correu feito um menino, segundo Afonso, até o parapeito do viaduto. "De lá, ele ficou acenando com a roupa. Lya não conseguia parar de rir", lembra Afonso. Aquela foi a derradeira vez que Hélio, belo-horizontino nascido em 1924, visitou sua cidade. Poucos meses depois, em março de 1988, ele não sobreviveu a um infarto, no Rio de Janeiro.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE