Crônica

O amor na escola

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Attilio/Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Duas da madrugada. O casal que discute no andar de baixo está tentando aprender. Eles pensavam que era só vestir branco, caprichar na decoração e fazer os convites chegar a tempo. Mas não. Na escola, até logaritmo nos foi ensinado. Decoramos a tabela periódica. Nos empurraram química orgânica. Mas nada nos foi dito sobre o amor. Crescemos acreditando que o amor é um golpe de sorte. Algo que surge naturalmente. Quem tem o privilégio de encontrar não precisa fazer nada: o amor simplesmente será. E, enquanto nos livrinhos os príncipes acordam princesas para viverem felizes para sempre, nós seguimos dormindo, sonhando com o impossível.

Com as mais altas expectativas, saímos buscando sapos nas prateleiras. Em meio a tantos produtos, nos confundimos com eles. Comida para nos matar a fome, roupa para nos vestir, gente para nos aplacar a solidão. Casar é prova de competência: nota 10 em investimento.

Na lógica capitalista, o amor se vai junto com a embalagem. Consumidores do novo, aguardamos ansiosos pelo próximo lançamento. As promessas são cada vez mais atraentes. Amores utilitários, perfeitos para exibir. Excelente custo-benefício, atendem a todas as nossas necessidades - físicas, estéticas, financeiras, sexuais. Enxergamos no outro um espelho dos nossos desejos, até que a imagem se desfaz e resta apenas o outro - que pena, ele não é como a gente sonhava.

Se o amor é a fuga para esse sentimento de solidão que nasce com a gente, o "consumo" do amor reafirma o abandono. Amores que não se tocam, não se misturam nem se entregam, etiquetas adesivas que permanecem na superfície. Nos corredores dos supermercados, egoísmos a dois fazem as compras do mês. Um empurra o carrinho, o outro paga.Amar é pouco. É preciso inteligência, cuidado, respeito.

Amor pede o abandono de si, de vez em quando. Pede responsabilidade. Quanto amamos é menos importante que como amamos. O amor da mãe pelo filho que nasce não é automático: será preciso adotá-lo e entender que não, ele não trará nada em troca. O marido que quer a separação usa o filho como arma - ou escudo. Faltou aprender que pessoas não são coisas. Nem nós, nem os outros.

Vamos exercitando, embora nem sempre em tempo, nas escolas informais da paixão. Os parceiros são nossos professores. Amores que acumulamos, transformados em ódio, desprezo ou amizade, sempre podem ser lição. O amor com que amei o primeiro permanece em mim, mais forte para o último. É preciso colocar o amor na escola. Humildemente, aprender. É sempre um novo idioma, linguagem cheia de armadilhas. Há que treinar a pronúncia e se deixar levar pelos sons de outro país. Amar é uma arte, como é uma arte viver. A paixão é o projeto da casa.

O resto é tijolo a tijolo. O amor não é para amadores.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE