Crônica

O coiso

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Tenho esquecido muito rapidamente o no­­me das pessoas. E, quando digo rapidamente, refiro-me a um espaço de tempo entre trinta segundos e cinco minutos, principalmente se, logo após a primeira apresentação, a pessoa em questão entabula um assunto.

E se tenho esquecido nomes em poucos minutos, que dirá meses de­­pois? Acompanhada do meu marido em festas, meu constrangimento tor­­na-se inominável: eu o apresento e em seguida olho para o lado, simulando ter encontrado alguém conhecido. Uma alternativa seria simular um desmaio, mas eu seria obrigada a fazer isso tantas vezes que viveria internada.

Veja bem, é importante ressaltar que sou boa fisionomista e sempre cumprimento as pessoas, lembrando de suas feições tão logo as encontro. O que me foge é uma simples combinação de vogais e consoantes. Em busca desses códigos, enquanto aceno para a vítima vou abrindo pastas no meu computador mental, cujo processador é mais lento e desprovido de busca.

Médico cardiologista com vasta clientela, meu pai sofria do mesmo mal. E ainda transferia para minha mãe o problema, na tentativa de que sua excelente memória o ajudasse: "Meu bem, garanto que você não sabe quem é ela. Adivinhe!". Impossibilitada de se lembrar do nome de alguém que nunca vira, minha mãe sorria amarelo e fazia planos secretos para mais tarde: "Em casa nós conversamos".

Já eu costumo chamar as pessoas de "queridas" — sei quanto um vocativo é importante para que o outro se sinta bem recebido. Mas a técnica não tem funcionado. Não há como convencer alguém sobre a minha estima quando nem sequer sei o seu nome. De modo que descobri uma nova estratégia. Ao ser apresentada à Rosângela, eu passo a repetir seu nome exaustivamente, Rosângela, ao longo da conversa. Fato é, Rosângela, que as pessoas se sentem tão queridas, mas tão queridas, Rosângela, que saio dos jantares íntima delas — telefones trocados, encontros marcados, visitas à casa agendadas. Uma loucura, Rosângela.

Associo o esquecimento ao nascimento do meu filho, pois foi depois de sua vinda que passei a não ter mais espaço na me­­mória. E assim justifico, charmosa, a terrível falha de etiqueta, culpando os hormônios da maternidade. E torcendo para não fazê-lo, sem saber, diante de um especialista no assunto. Imagine se isso me acontece, Rosângela.

Não sei se é sinal dos tempos, se é meu hard disk lotado ou se existe mesmo algum hormônio que me tenha tal efeito. O fato é que, de uns dias para cá, dei para esquecer também nomes de objetos. Substantivos concretos. E abstratos. Adjetivos. Advérbios. Só garanto artigos e pronomes, de modo que as frases passam a ser constituídas de eles, elas, os e as, acompanhadas de coisas e coisos. É triste assistir ao encolhimento de um vocabulário que demorei anos para construir.

Eu me lembro (disso eu me lembro!) de que minha avó sabia de cor todos os telefones e datas dos aniversários. Hoje, delegamos a memória aos telefones "inteligentes" e nos permitimos ser burros. Muitas vezes, nem temos contato com os oito algarismos do celular do outro. "Vou te ligar e você grava meu número", diz a amiga que acabo de reencontrar. E eu me afasto um pouco, discretamente, de modo que ela não tenha acesso ao visor do meu celular, pois o número dela está ali, mas eu não sei o nome dela!!!

E, ao passear pela minha lista de contatos, encontro nomes do tipo "Amiga Loira da Teka da Praia", "Cara da Empresa de Branding" e outras denominações absurdas.Que coisa, Rosângela.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE