Crônica

A cultura do último capítulo

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Na noite de 19 de ou­­tubro, o trânsito es­­­­tava livre na minha volta para casa. Muito antes das 9 da noite eu estava a postos diante da TV. Às 9 em ponto, o ce­­lular tocou: era meu irmão mais velho.

— Isso é hora de ligar? — eu disse, ao ouvir sua voz serena.

Ele caiu na risada. Um dos poucos da minha con­­vivência que não acompanhavam a novela, queria se divertir e escolheu a mim para aquele telefonema de mau gos­­to. Pode ria ter sorteado qualquer outro em sua lista de contatos, mas co­­meçou pelo óbvio. Belo Horizonte (e o resto do país) parou para assistir ao último capítulo de Avenida Brasil.

Parece que foi há tanto tempo. Faz quinze dias que estamos órfãos de mais uma novela — e essa, especialmente, tem nos feito muita falta. Ocupou de nossa vida muito mais que o horário nobre. Invadiu conversas co­­­­tidianas de homens e mulheres, provocou risadas no meio do expediente e nos pôs a entoar canções antes impensadas. Oi oi oi! Por ela abdicamos das baladas a fim de correr para casa mais cedo. Isso, por aproximadamente 180 capítulos — cerca de sete meses. Mais de meio ano dedicado ao calvário da mocinha empenhada em se vingar da ex-madrasta.

Como quase sempre, o desfecho denunciou o cansaço do autor. A vilã, que nos conquistou com suas expressões ora sarcásticas, ora melodramáticas, aposentou-se do cargo de malfeitora, salvou a vida de seus desafetos, cumpriu pena na cadeia e passou a catar lixo em vez de dinheiro. E, quando sobre a última cena se desenhou o letreiro do fim, o que restou foi um vazio.

"Ela vai acabar com quem?", foi a pergunta que repetimos nos últimos meses. Acabar é mesmo a palavra, pois é pelo final que nos interessamos. No final tudo dá certo, é o que dizem. Os solteiros se ca­­sam, as inférteis engravidam, as solteironas desencalham. E vamos suportando atrocidades em nome dos clichês de felicidade. Adiamos nossa alegria, confiando que che­­­gará nosso "último capítulo".

Embalados por uma história contada aos poucos, criamos uma ilusão sobre nossa pró­­­­­­pria vida. Não per­­­cebemos: o folhetim en­­cerra a história no momento estratégico. Não há tempo para entrar em cena a rotina, o próximo inimigo do casal que lutou contra tudo e todos para ficar junto. Depois do final feliz, começa a vida real.

Em outras partes do mundo, as séries de TV é que são as responsáveis por dar ao indivíduo alguns minutos de férias de seu próprio enredo. Sem sequer ima­­­ginar o que acontecerá no fim, o telespectador só está interessado em se divertir: importa menos o destino e bem mais o prazer da viagem.

Como roteiro de vida, prefiro os seriados às novelas. Focar as pequenas alegrias ou os finais apoteóticos é escolha de cada um. O que fazemos de coisas simples — e até dos grandes dramas — é o que define se a nossa vida vai ser uma novela ou um delicioso seriado de TV.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE