Crônica

Dois mundos

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

A cabo de voltar de Bilbao, na Espanha. Os turistas costumam passar por ali rapidamente, com foco em uma das unidades do famoso Museu Guggenheim. Uma pena que não reservem tempo para conhecer devidamente a principal cidade da comunidade autônoma do País Basco.

Andar pelas ruas como um legítimo bilbaíno me fez conhecer o que os roteiros turísticos omitem. Bilbao é bem mais que o Guggenheim. Não cabe aqui ficar descrevendo o município como quem mostra fotos de viagem aos amigos. A moderna infraestrutura urbana, o acesso fácil a todas as direções - por ônibus, bonde, metrô, trem e excelentes ciclovias - e a limpeza impressionante das ruas poderiam ser características de mais uma entre tantas cidades europeias que nos deixam deprimidos na volta para casa.

Fundada em 1300, Bilbao sofreu importantes processos de urbanização entre os anos 1960 e 2000. Favelas foram transformadas em bons bairros. Construíram-se parques e praças a cada esquina, com brinquedos e banheiros de limpeza automática. É comum ver crianças brincando ali até a meia-noite, sem a companhia dos pais, no agito das festas em homenagem à padroeira da cidade. Bilbao tem baixíssimo índice de criminalidade. Município montanhoso, seus aclives foram suavizados pelo formato das vias e por elevadores entre dois níveis de ruas.

Mas o detalhe que me chamou atenção é fruto dos anos 90, época em que era proibido levantar prédios de mais de cinco andares. A maioria dos edifícios residenciais desse período conta com estacionamento subterrâneo, e, no pilotis, aberto a todos, há bancos de praça e espaços para brincadeiras. Não é raro ver ali amigos reunidos para comer, cantar ou ver a vida passar. Para cortar caminho até a rua de cima, o pedestre não precisa andar até a esquina. Tem a opção de usar como atalho um dos prédios da rua, cujos andares térreos são interpenetráveis. Se a Espanha vive hoje uma crise com um índice de desemprego na faixa dos 25%, Bilbao parece fazer parte de um cenário de pleno desenvolvimento. É uma cidade que respeita o pedestre, as crianças e os idosos.

Já a nossa BH parece ter sido construída para os carros. Um modelo tão em decadência que é vítima de sua prioridade: ruim para quem tem, péssimo para quem não tem. Ruas que antes abrigavam casas suportam prédios altíssimos - a população da rua se multiplicou em um ritmo, as vias de acesso evoluíram em outro. Ciclovias são risco tanto para os ciclistas quanto para os pedestres; ônibus transportam gente como se fosse gado. E carros tamanho-família surgem como solução para se manter "longe dos problemas" da cidade. A diferença entre as duas cidades pode ser resumida em duas palavras: individual e coletivo. Nossa BH está povoada de individualismo. Somos 5 milhões e meio de solidões na metrópole, perambulando cansadas pelas ruas, a pé ou sobre rodas. A cidade que não para parece não conseguir chegar a lugar algum.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE