Crônica

Ficar

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

A cidade está bem calma, o verão chamou as pessoas para sair. Para mim não poderia haver melhor convite para ficar. Se o mais gostoso da viagem é voltar para casa, me reservei o direito de viver só essa parte.

Não poderia ter eleito destino melhor. Já sei, você vai me perguntar que graça existe em voltar a um lugar em que já pisei tantas vezes. É que agora não sou turista, finalmente tenho tempo e paz. Quantas vezes estive aqui só de passagem, com a ansiedade tapando meus olhos? Por quanto tempo quis estar exatamente nesse lugar e o relógio me proibiu?

Trouxe quase nada comigo. Nenhum algarismo na cabeça, cédula de identidade ou celular na mão. Fiz questão de esquecer a adrenalina, a pressa, o medo de perder o voo. De uma porta a outra, não enfrento o detector de metais. Tiro o sapato e passo sem ele dias seguidos. Decido o que vestir num esticar de braços. Para me sentar não enfrento fila. Nada de instruções da comissária, sono em pé, comer em caixinhas. Se bate a fome, vou até a cozinha descalça. Pico legumes, como um pedaço, lembro de uma música. Faço doces para mim mesma. Um certo caos tem me feito boa companhia.

Saí da Torre de Babel para um mosteiro. A língua que se fala aqui é nenhuma, nem minha própria voz costumo ouvir. Talvez eu leia mais um livro, dois, dez. Entre um romance e outro, tiro férias da minha própria história. Descubro lugares de que não me lembrava, encontro recantos para os quais nunca tive olhos. Vasculho caixas e encontro outras de mim. Capturo coisas das quais não preciso, papéis sem significado, fotos repetidas. Dou férias para o apego e a vaidade, descanso para o que penso de mim.

Troquei a pressa de acordar pela vontade. O sol me desperta sem susto, o alongamento é natural e ainda na cama. Me lembrei que sou bicho. Meu coração bate no ritmo do canto dos pássaros. Mas eu não preciso voar. Não tenho motivos para fugir, não tenho que correr, não tenho que. Meu maior luxo é fazer uma coisa de cada vez. Não há fila para entrar, museus para fechar, não há lugar para me culpar por não ter ido. Nada me foi encomendado, não há o que comprar. Meu único compromisso é ficar livremente por aqui. Mudei o recheio do tempo, abri janelas, entraram mais vento e vida em cada dia. Viajei para uma agenda vazia. Pretendo voltar mais e sempre.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE