Crônica

Francamente

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

- Se eu pedir para fechar sua janela, você vai ficar muito chateado comigo?

- A outra eu até fecho, mas esta aqui? Aí vai ficar calor demais aqui dentro.

E assim me calo dentro do carro, o vento me soprando a cara, o corpo encolhido de frio e constrangimento. Quem mandou ser gentil? Chegando em casa, quase acrescentei um "desculpe pelo incômodo" ao "muito obrigada, fique com o troco". Que absurdo importunar um sujeito em plena noite de sábado, sossegado ao lado de seu carro branco com uma placa no teto em que se lê TÁXI. Já fora petulância da minha parte solicitar que ele me levasse à minha casa em troca de uma quantia em dinheiro. Pedir para fechar a janela era muito abuso.

O caso me lembrou o de um garçom que me atendeu décadas atrás. Lendo o cardápio, perguntei o que era "steak à diana".

- É um prato - ele me respondeu.

Ah, claro. Diante da resposta esclarecedora, pedi um filé com fritas. Deve ter frequentado o mesmo treinamento outro que, na época, prontamente solucionou a dúvida do meu amigo em um restaurante fino de Belo Horizonte:

- A banana flambada demora muito?

- A banana já vem pronta, é só flambar.

Como a gente não pensou nisso antes? Passei a fazer em casa e fica bem mais barato. Poderia ser pior, como aconteceu com uma amiga. Das duas opções do menu do dia, o garçom se enganou e trouxe carne em vez de frango. Mas resolveu o imbróglio sem rodeios: capturou o bife do prato numa garfada e o substituiu pelo frango, usando método semelhante. Costumo registrar esses episódios em um precioso caderninho. Estou para acrescentar às notas minha recente ida a um posto de saúde para me vacinar contra a febre amarela. A funcionária preencheu meu cadastro, incluindo data de nascimento, identidade, CPF e endereço, tendo à boca um pirulito. Não adivinhei o sabor, pois ela não se desfez do doce nem por um segundo. Sem abrir a boca, me passou todas as orientações. E o que me custava fazer um pequeno esforço para entender? Tenho mais é que agradecer: tomei a vacina de graça e ainda voltei de viagem sem febre amarela. Mais fácil que tirar pirulito da boca de criança.

Diálogo semelhante ocorreu em loja de uma famosa rede de lanches rápidos, em que finalmente encontrei uma funcionária delicada atrás do caixa. Seus movimentos eram leves, seu olhar era doce e sua fala, tranquila. Só faltava volume. Tive de fazer leitura labial para entendê-la. O pedido foi uma epopeia, mas o lanche, como prometido, se foi rapidamente - devorei-o em uma mordida. Na mesma rede, pedi uma casquinha de sorvete de chocolate e o funcionário me informou: "Só tem de baumilha". Assim mesmo, com M. Seria um novo sabor vindo do país do Tio Sam? De onde veio o cheddar processado pode vir qualquer outra coisa. E assim vamos treinando para a qualidade do atendimento no Brasil. Com um pouco mais de esforço, quem sabe um dia sou premiada como "cliente do mês".

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE