Crônica

Infância desconectada

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Meu filho de 5 anos gan­­­hou de presente do pa­­­drin­­ho um carrinho de rolimã. Em dez minutos estávamos os três na Praça do Pa­­pa, tentando aprender as man­­­has do brinquedo. Ele, maravilhado com a novidade, embora um pouco cauteloso. Eu, louca para em­­barcar nessa viagem no tem­­po, ignorando até os procedimentos de segurança. Nunca tive um carrinho desses, mas meus irmãos tiveram, construídos com tábuas e a habilidade de algum tio ou primo disposto. Ao ver o presente do meu pe­­queno, regredi. Pedi emprestado, sonhando brincar nele a tarde toda. Possessivo como toda criança com um brinquedo novo, meu filho não se mostrou muito feliz. De modo que tenho um plano: quando ele for para escola, roubo o carrinho e corro à praça, para ralar meus joelhos em paz.

Rápido, o carrinho de rolimã me levou algumas décadas atrás, no tempo em que eu vivia na Rua Curitiba. Nos­­sos primos moravam uma rua paralela acima. A transversal, Alva­­­renga Peixoto, era pista perfeita para as corridas do meu irmão. "Bibi, bibi", gritava ele um dia, ao descer a mil por hora. Mas a senhora que atravessava não ouviu. Foram os dois parar lá embaixo juntos, ela no colo dele, ele a gritar indignado: "Eu buzinei!".

Histórias como essa, que não vivi, mas guardo na memória, funcionam como alento numa caixa de lembranças emprestadas. Tive eu mesma os meus episódios, e lembro-os com tanto afeto, que acabo querendo mais. Trago orgulhosa uma cicatriz no joelho  — de uma incursão proibida por um lote vago, onde uma velha lata de ferro me aguardava maquiavélica, com as bordas arregaçadas num sorriso de bruxa. O caso me vem embaçado e sem som. Mas, mesmo que os detalhes me escapem, a cicatriz é chancela para não esquecer. Outro episódio aconteceu no bairro Belvedere, nos bons tempos em que ali só haviam casas. Eu apostava uma corrida de bicicleta com a minha prima quando perdi o controle e fui parar no chão, não sem antes dar uma cambalhota no ar. Pés, costas, cabeça, mãos. Tudo doía. Mas a cicatriz que ficou foi no dedo mindinho, co­­mo uma mensagem irônica da vida a me dizer que não seria dessa vez. Fora isso, foram poucos os perigos, nenhum osso quebrado ou maiores sustos.

Anos mais tarde, já com 20 e poucos, ganhei de um na­­morado um patins in-line im­­portado. As aventuras nele fo­­ram poucas: quando adultos, te­­­­­mos mais me­­­do de perder os dentes. Meu gosto pela velocidade foi interrompido pelo tom­­bo de bicicleta. Coube ao carrinho de rolimã do meu filho me contar sobre o meu desejo de retomar a corrida. Correr no as­­falto, em vez de na vida. Correr com a alma li­­vre, sem a angústia de um tem­­po que corre sem­­pre mais rápido que nós.

Não posso criticar a infância eletrônica dos meninos do terceiro milênio, hipnotizados pe­­la prisão do videogame. A min­­ha não foi tão diferente: ainda que numa casa recheada de pessoas, o televisor em cores sempre falava mais alto, fosse novela, filme ou futebol. Hoje, iludidos por uma TV de nichos, acreditamos deixar nossos fil­­hos em segurança, assistindo a uma sequência interminável de comerciais pelos quais também pagamos — muito mais do que a fatura da assinatura. Prova disso é o que disparou o menino outro dia, ao sair do quarto. Citava uma marca de eliminador de odores: "O único que não descola do vaso". O quê? Foi isso mesmo que eu ouvi?

Dias depois, dentro do carrinho de supermercado, ele me pediu para parar diante da prateleira onde estavam alvejantes. "Mas filho, isso é para tirar manchas." A resposta: "Eu quero tirar manchas, mamãe, eu quero."

Eu também quero tirar manchas, filho. Quero para você um mundo mais limpo, em que os perigos tenham a dignidade de ser mais explícitos. Ralar a pele ou quebrar um dente pode ser um drama para nós, mães. Mas passa. Difícil mesmo é colocar curativos em feridas na índole e no caráter, que podem nunca mais cicatrizar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE