Crônica

Luz nos olhos

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
VEJA
(Foto: Redação VejaBH)

Uma centena de pessoas na plateia. Mas é para mim que ele canta. Sorri, balança as mãos, do jeitinho que ensaiou, mas logo volta a me vigiar. Controlo minhas reações para não desconcentrá-lo. Sou precavida, estou de óculos escuros para que ele não perceba que vou chorar. E choro. Justo quando ele canta "Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora". Calma, filho. Não é de tristeza, é de esperança.

O pensamento voa até minha irmã, que está num hospital em Campinas, depois de passar um susto com meu sobrinho. A vida e seus contrastes.

A outra turma assume o palco e eu já estou sem óculos - nem disfarço mais. A situação piora: eles cantam "Pela luz dos olhos teus", para embaçar os meus de vez - por que diabos gastei tanto tempo na maquiagem? As lágrimas já não bastam, me sinto incendiar. A coordenadora me flagra contorcendo o rosto de tanto chorar. Quero a minha mãe.

Outras turmas se apresentam e eu revezo de palco: meu foco agora é a plateia. Cúmplice, a mãe canta em voz baixa junto com o filho. É nos seus olhos que a luz está agora. E é sobre o filho que ela joga o refletor - o resto vira moldura. Se ele esquecer a letra ou o tom, ela se encarrega também do teleprompter.

Últimas palmas, a plateia se desfaz, o converseiro invade o auditório improvisado e as crianças correm para o pátio. Chega de emoção por hoje. Uns jogam futebol, outros pedem picolé, uma ou outra mãe ralha com o menino que não quer ir embora. A vida supostamente volta ao normal. Mas, ainda há pouco, naquele cenário, as histórias de várias famílias se mesclaram em coro. Faltas, falhas, orgulhos, heranças, escândalos. Cada voz que ali soou entoava o futuro com refrões do passado. Cada sorriso aberto exibia um filme de época e um contemporâneo. Nos 40 ou 50 minutos de sarau, a vida parou para pensar.

O ano foi difícil, foi duro, mas, olha só, já passou. E não é que demos conta? Sabe, eu já nem me lembro, uma confiança me invadiu agora, sinto que tudo vai mudar. Na alquimia do fim de ano, nostalgia e esperança assam um bolo para depois da ceia.

E, porque são nossas as crianças, acreditamos. São as árvores que plantamos, tentamos regar todo dia, driblar os mistérios da botânica e acreditar que os troncos serão fortes, a copa saudável e a sombra, generosa.

Há esperança maior do que uma criança? Há coisa melhor do que um novo ano em branco para cultivar e ver crescer? Viva o repetir da vida, essa espiral que nos leva e nos devolve sempre mais fortes. E sábios.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE