Crônica

Monólogos

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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O tempo é poderoso. No cinema e no teatro, é ele que determina a qualidade de um diálogo. Comédias geralmente pedem falas ágeis e respostas imediatas, como num jogo de tênis. Já nos dramas cabem conversas preenchidas de silêncio, em que o clima se desenha nos vazios. A primeira cena do longa-metragem Bastardos Inglórios traz um interlóquio tenso, com mais de dez minutos de duração, prova do talento do diretor, Quentin Tarantino. Criar um diálogo verossímil não é coisa para amador. No amor, saber dialogar também é o grande desafio. Coisa que não se aprende na escola - embora essa não seja má ideia. Não há quem nos ensine formalmente a amar, portanto nos resta torcer para ter, ao longo da vida, bons professores incidentais. Meus relacionamentos mais importantes foram minhas lições fundamentais sobre o outro ou sobre mim mesma, sem as quais seria difícil estabelecer o convívio que tenho agora.

"Você não diz uma frase. Faz uma palestra", dispara o marido para a mulher, no calor da discussão. Na maioria das relações, falar parece ser uma demanda feminina. Mas ser ouvido é desejo de ambos. É aí que entram o tempo e seus parentes: paciência e sabedoria. Muitas vezes, no casamento, o ritmo do diálogo não resolve. Não há comunicação eficaz na sequência frenética de duas pessoas esperando sua vez de falar. Ninguém com esse nível de ansiedade presta atenção ao que o outro diz. Para atender ao anseio de cada um em ser compreendido, nada mais honesto do que empreender sessões de monólogo sempre que necessário. Um a cinco minutos concedidos ao outro para que ele fale sem ser interrompido é sinônimo de disposição para escutar, que é bem mais do que ouvir. Escutar é uma decisão. Enquanto um carinhosamente silencia, o autor do discurso, sem a ansiedade de uma disputa, pensa duas vezes antes de falar. Abandona o impulso e veste a responsabilidade - a fala dita num monólogo tem maior peso do que numa discussão.

A ideia é abandonar a competição e se unir na busca de um consenso. O "ouvidor" aproveita o tempo para enxergar - outro verbo ativo. Olha nos olhos, observa o gestual do orador e tenta ler, até nas pausas, o que está sendo dito. Porque muitas vezes as palavras dizem uma coisa e o corpo diz outra. Que fique bem claro: monólogos não são solilóquios. Esperam e merecem respostas. Falas isoladas, sem o retorno do outro, nada mais são do que ilhas vivas de solidão, abandonadas num mar de silêncio. Monólogos por carta também podem ser um exercício, mas não substituem a palavra falada. O importante é aprender a conversar, que é boa parte do aprender a amar. Se um casal tem a sorte de envelhecer de mãos dadas, uma boa conversa é o que costuma restar no final. E provavelmente, exercitando tudo o que o tempo pôde lhes mostrar, eles terão de fato aprendido.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE