Crônica

Nem azul nem rosa

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Almoços de domingo tinham um gosto estranho. Mal eu saboreava um prato feito pela mamãe e já era hora de lavar a louça com minhas irmãs. O que não seria problema se meu pai e meus irmãos não permanecessem sentados à mesa. E se você espera que eu conte que meu pai consertava o chuveiro, pendurava quadros e levava o carro à oficina, sinto decepcioná-lo, caro leitor ou leitora. Tais funções também eram assumidas por minha mãe, que manejava a furadeira como um franco-atirador. Para os cientistas que atribuem o senso de direção ao cérebro masculino, minha casa também trazia o contraexemplo. Papai se perdia a cada caminho novo, enquanto mamãe era o GPS em pessoa. Ela fazia o imposto de renda, ele lia um livro. E era dele o dom da oratória, habilidade que os estudos atribuem ao cérebro feminino. Mas, quando assumia o controle remoto da TV, não havia dúvidas: era um legítimo portador do cromossomo Y.

Eu tinha em casa três exemplos femininos e três masculinos. Escolhi todos. Dos meus irmãos emprestei discos, filmes e livros; das minhas irmãs, o batom e o secador de cabelos. Do meu pai segui o conselho de aprender datilografia, ganhei uma Olivetti e desenvolvi certo senso de humor.

Da minha mãe herdei a feminina independência que mais adiante usei sem parcimônia. Na adolescência, depositei em páginas pautadas os desabafos que tão bem ficariam num divã. Tomei gosto pela escrita e cá estou, tocando em assunto espinhoso.

Coloque vários homens no mesmo ambiente e eles falarão sobre tecnologia, política, economia, futebol. Cada tema será tratado a fundo, entre uma anedota e outra. Quando se despedirem, terão falado muito sobre tudo e nada sobre si mesmos. Já no encontro entre duas ou mais mulheres, a cumplicidade aparece num instante. Na sala de espera, no elevador, na fila do banco ou no banheiro do bar, confidências são feitas e receitas, trocadas. Entre gritos e risadas, o silêncio não encontra espaço. Coletivo de mulher, tricô: conversa tecida de afeto e solidariedade, cujo resultado é uma trama de alma delicada. Quando elas se encontram, diferentes que sejam, fazem um coro escandaloso e necessário.

É claro que as mulheres não são todas iguais. Nem os homens. Mas reuni-los em grupos sublinha alguns traços marcantes e nos leva a aprender sobre eles. Todo mundo tem um pouco de um e de outro. Um amigo diz que eu conto piadas feito homem - o que me envaidece, pois tenho lá meus comediantes preferidos. Nem por isso sou masculina. A diferença não está em ser homem ou mulher, e sim nas particularidades de cada indivíduo. Por isso é tão primitivo que, em pleno século XXI, ainda se faça necessária a discussão de gêneros. Numa barulhenta reunião feminina, me entrego ao rótulo de mulherzinha, sem que o termo soe pejorativo. Ali estarão algumas de mim. Depois volto a ser todas as outras (e outros). O sexo é só um detalhe.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE