Crônica

A palavra e o poder

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Minha mãe sofria de uma bondade incurável. O nome Dulce era apropriado à mulher pequena e delicada, cuja risada gostosa entregava sua simplicidade. Se a filosofia atribuída aos índios americanos prevê em nós dois cães, um bom e um mau, ela alimentava o primeiro. Coerente com sua índole à moda antiga, mamãe se foi no século passado. Não teve tempo para se assombrar com a internet.

O episódio recente envolvendo a designer belo-horizontina Daniella Cabizuca me fez enxergar que o meio digital, como o trânsito, revela o pior das pessoas. Nas ruas, os carros são escudos; no ambiente virtual, o anonimato funciona como proteção.

Detida por furto num supermercado da Zona Sul, a designer deu o passo em falso aguardado por uma plateia à caça de polêmica. As autoridades tomaram as medidas cabíveis, a imprensa divulgou, conhecidos prestaram solidariedade e o restante se dividiu em dois grupos. O primeiro lamentou silenciosamente o estranho ocorrido, usando a oportunidade para conhecer o bonito trabalho de Daniella como fotógrafa no Instagram, em que tem 230 000 seguidores. O segundo se empenhou em não permitir que alguém com tal notoriedade fosse punido só pela lei. Armou na rede um circo de sarcasmo - Daniella na cova dos leões.

Aprecio uma boa argumentação. Já me vali das palavras para garantir direitos, recuperar amores perdidos, reaver quantias pagas indevidamente. Já me afoguei em suas águas e aprendi a respeitá-las.

Mas a palavra parece ser o mais recente objeto de ostentação. Não importa o efeito que tenha sobre o outro: vale o prazer do espetáculo. Deixar de expressar um ponto de vista é como sair sem roupa, opinar fora de uma determinada linha de pensamento é crime. Ao rumar para um mundo livre, erramos o caminho: voltamos ao tempo medieval da intolerância.

As redes sociais são uma infinita mesa de bar. Ali não se sentam só amigos, mas qualquer um que exiba um avatar. Conversamos com quem não conhecemos, opinamos sobre o que mal ouvimos, criticamos como se não errássemos. E ainda usamos o erro alheio como escada para observar a paisagem de um ponto privilegiado. Como o motorista do carro de trás aciona a buzina tão logo acende a luz verde do semáforo, digitamos na velocidade do pensamento.

Cabe discernir: pensar é uma coisa; dizer é outra bem maior; escrever é definitivo. Da cabeça à ponta dos dedos no teclado, as ideias percorrem alguma distância - há tempo para a lucidez.

Para compreender que o poder do argumento um dia pode voltar em sua direção, será preciso errar ou assistir aos erros dos filhos. Pois, como avisa sabiamente meu sogro, "entre nós não há melhor ou pior; somos todos piores".

Enquanto isso não acontece, tendo cada um de nós dois cães tão distintos, em vez de vigiarmos para escolher qual deles deve alcançar o prato, distraímo-nos olhando em volta, em busca do que parece ser mais urgente: cachorros mortos para chutar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE