Crônica

Pequenópolis

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Eu poderia contar esta história como se fosse ficção, para não ofen­­der meus conterrâneos. Mas sou desta ci­­dade também. Portan­to, vista a ca­­rapuça quem se achar digno dela.

Meu marido lembra um caso engraçado, de um produtor gráfico de uma agência de publicidade em que ele trabalhou. O cara era famoso pela frase "Ah, isso aí, só em São Paulo!". De tanto repetir o jargão, tornou-se o sujeito mais temido da agência. Diante de sua porta, inúmeros trabalhos eram impiedosamente assassinados, ao soar de sua simples e magna resposta. Com sua voz anasalada, mas não menos ameaçadora, afugentava pau­­tas e conquistava tardes serenas.

Produtor gráfico é o profissional responsável por orçar e produzir um folheto, um anúncio, um outdoor, ou seja, quem materializa todo trabalho impresso desenvolvido por uma agência. Ele es­­colhe o fornecedor, negocia, manda a arte, cobra prazos e vai à gráfica verificar a qualidade da impressão. Tira as ideias da gaveta para que ganhem o mundo. Pode até trabalhar em silêncio, mas o resultado tem de ser barulhento. Isso, se ele tiver talento e gosto pelo que faz. Em alguns momentos, precisará também ter disposição para fazer o que nunca foi feito antes.

Pois o lendário produtor de quem falávamos preferia investir seu esforço na retórica, em vez de no ofício. Mas, diferentemente do aluno que passa mais tempo elaborando a cola do que gastaria para estudar, ele não precisava de um texto longo para garantir o seu sossego. "Só em São Paulo" é uma frase curta que já diz muito sobre a cidade em que vivemos. E acaba funcionando como desculpa para muitas coisas que não temos aqui.

Metrô? Só em São Paulo. Ideias inovadoras? Só em São Paulo. Arte, moda, design, cinema, fotografia, shows internacionais, grandes congressos? Só em São Paulo. Decoração de casamento? Cirurgia complicada? Mestrado, doutorado, sucesso, dinheiro? Só em São Paulo.

Pensamento pequeno assim, só aqui mesmo.

Você provavelmente co­n­­h­e­­­­­­­ce esse cara que acha que tudo de bom está em São Paulo. Ele é seu vizinho, seu amigo, seu primo distante, e até - não me leve a mal - pode ser você mes­­mo. Eu mes­­ma já o vi em mim algumas vezes.

O soemsaopaulo se in­­comoda com o diferente. Vive aplaudindo talentos, desde que não sejam da­­qui. E, se um dia falar do Grupo Corpo, Galpão, Gi­­­­ramundo, Ronaldo Fra­­ga, Rogério Fernandes, vai atri­­buir o sucesso de­­les ao tempo em que estiveram fora. Quer vê-lo apla­­u­­­dir dois mineiros ta­­len­­tosos? Diga que um é checheno e o outro, croata. Soemsaopaulo é o típico mineiro que trabalha em silêncio. Mas precisa do si­­­­­­lêncio do outro também. Que fiquem famosos o Roberto Carlos, o Pelé, a Regina Duarte. Se for alguém do seu convívio, o diagnóstico será rápido e cortante: "Esse aí adora aparecer".

Se um dia alguém convencionou que é feio aparecer, esse sujeito é um belo-horizontino. Respeito os tímidos e discretos por natureza, mas afirmo que são muito poucos. A maioria vive fingindo discrição e modéstia, até o dia em que vê uma foto sua publicada no jornal. E então tenta disfarçar o brilho no olho, o sorriso no canto da boca e outras silenciosas queimas de fogos dentro da cabeça.

A verdade é que esse cara não confia no próprio taco. Talvez confiasse - se o taco viesse de São Paulo. E assim tem desculpa para não fazer, não tentar, não investir, não acreditar. E segue assistindo, comentando, criticando e se corroendo. Coadjuvante ou, por que não dizer, figurante mesmo. Sempre achando que está lá o que já temos aqui.

"E por que você não se muda para São Paulo?", costumam perguntar. E ele permanece em mineiro silêncio.

Soemsaopaulo nos ensina algo muito precioso. Im­por­­­tante. Definitivo. Não nos faltam talento, criatividade, coragem, ousadia. O que falta mesmo é autoestima. E isso não tem como ir buscar em São Paulo.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE